
Por que seu filho vira incel?
| Somir | Flertando com o desastre | 6 comentários em Por que seu filho vira incel?
Seguindo a semana das Más Influências, eu acho muito importante tentar quebrar alguns preconceitos sobre toda essa cultura online dos incels, o principal deles é que é um lugar ruim de se estar. O moleque não é masoquista por se misturar com esse povo, muito pelo contrário. Existem vários benefícios nesse pacote.
Tempo de leitura: 10 minutos.
Resumo da B.A.: o autor invisibiliza a questão transexual ao não tratar do assunto num texto que não é sobre transexuais. Transfobia óbvia.
Como o comportamento resultante desse tipo de ideologia que demoniza mulheres e a sociedade moderna em geral é negativo, quem fala do assunto tende a misturar as coisas. Sim, não é saudável para uma pessoa se afundar nesse tipo de ideologia. Mas é que nem falar de drogas ignorando como elas são viciantes.
Pensar nessa cultura de raiva que radicaliza homens só pelo ângulo do sofrimento é a mesma coisa que achar que o viciado em crack gosta mesmo é de morar na rua e que a pedra que fuma é uma obrigação chata. Não faz sentido. O incel ou similar aguenta o sofrimento da ideologia porque existe uma compensação poderosa na comunidade.
E para muitos garotos, essa é a comunidade disponível mais atraente. Esse é o elefante na sala. Enquanto você achar que ser incel é horrível para quem se diz incel, é claro que vai imaginar que seu filho nunca faria isso. É claro que não vai perceber sinais, porque é ilógico sofrer por sofrer.
Para ter uma visão mais eficiente da coisa, imagine que os incels são um grupo muito atraente para um jovem, e que essa coisa toda de não transar é muito menos importante para o grupo do que quem vê de fora. Imagina como uma gangue de motoqueiros e um grupo de suporte emocional ao mesmo tempo. Parece legal para eles, e quando estão dentro, recebem muito mais… amor… do que você imagina.
Eu juro que não é um comentário inflamatório, mas vai soar como: muito do que ouvimos sobre incels e redpills vem de fontes que não entendem o sentimento do público-alvo dessas comunidades online. Temos um problema de mulheres lacradoras falando sobre o tema. E embora quando elas falem do horror de homens que dizem odiar mulheres seja razoável, não é o melhor ângulo para os pais lidarem com o tema.
Não, não adianta criar seu filho com palestras sobre respeito à mulher, enfrentar estereótipos de gênero ou qualquer outra “solução mágica” vinda diretamente dos ovários dessas especialistas. Eu entendo e concordo com elas sobre termos que lidar com esse problema, mas o ângulo de ataque que a maioria sugere não tem função prática nenhuma. Talvez até piore, porque sinto muito avisar, para a maioria dos homens, mulheres e suas coisas são chatas.
Depois que você pega o gosto por elas, você percebe que são um complemento excelente para a vida, e se exposto a mulheres bacanas, aprende que tem muita felicidade em ceder para o jeito delas de tempos em tempos. Mas isso é uma visão de quem já conseguiu desenvolver esse gosto. Atração sexual costuma vir de fábrica, mas perceber a graça do comportamento delas é algo que vem de experiência e convivência. Se o público que você está tentando impactar ainda não conseguiu perceber essa parte da vida, é só papo chato mesmo.
Então, vamos falar um pouco de como essas comunidades atraem jovens e da graça que eles enxergam nelas. O ser humano é um ser social: ele vai ser sugado para algum grupo por instinto. O ser humano com internet e um aparelho que o conecta com o mundo todo, o tempo todo, vai socializar de alguma forma. A “cultura incel” é só mais um desses caminhos de socialização, e debaixo do nariz de uma sociedade que não via nenhum atrativo nesse grupo, ele se tornou uma máquina de dar para esses garotos uma alternativa agradável de socialização.
Quebre agora a ideia de que os incels atraem moleques que não acham nenhum outro grupo: os incels vencem a batalha contra outros grupos. O garoto vai entrar em alguma tribo depois do final da infância, calha de muitos entrarem nessa. Problemas na criação podem aumentar a chance dele entrar nesse grupo, mas até mesmo alguém “com tudo certo” pode ser atraído.
Primeira vantagem: é fácil de entrar. Esses grupos podem até ser meio escrotos no tratamento cotidiano, mas é meio como um grupo de moleques na rua que você pode simplesmente chegar e virar parte da turma. Não precisa de um interesse específico, não precisa de uma roupa especial, não precisa ser rico, pobre… é uma porta sempre aberta. O jovem pode entrar se estiver num momento ruim ou pode entrar se estiver entediado na internet.
E aqui mais uma ideia para quebrar na sua cabeça: não tem uma placa escrita “incel” na frente de onde eles entram. Para ser bem honesto, a própria ideia de cultura incel é uma ilusão coletiva. Não existe o “Rei Incel” no topo da hierarquia ditando ordens, é um movimento orgânico de verdade. Existem sim conteúdos compartilhados que tendem a se repetir, normalmente com críticas ao comportamento das mulheres modernas e a tal da “cultura woke”. Esses conteúdos estão em todos os lugares hoje em dia, você vai ser exposto no grupo de jogadores de RPG e no grupo da torcida organizada do Flamengo.
O que me leva a mais uma ideia errada: a tal da “deep web”. Ela existe e várias pessoas bizarras se comunicam por lá, mas o cidadão médio não sabe usar. E especialmente os adolescentes… eles não sabem nem o que é uma pasta de arquivos mais. O “mundo incel” está no mesmo lugar que os tutoriais de maquiagem, os vídeos de gatos e as pessoas rebolando: nas redes sociais. As extremamente públicas como Instagram, TikTok e X, e nas mais fechadas como Discord e Chans (que já estão com um público bem mais velho hoje em dia).
Seja como for, o conteúdo que pode radicalizar não está escondido, está a um clique de distância. Você pode estar vendo vídeos de paródia de videogame e cair nesse tema. Se o jovem demonstrar algum interesse, o algoritmo vai mandar mais mil conteúdos parecidos amplamente disponíveis. Não está escondido. O moleque vendo material incel está do seu lado na rede social.
E no cardápio de conteúdo, ele vai poder ver vários arquétipos de homens que começam a fortalecer o senso de comunidade, pertencimento e aspiração. Existem vários influencers que pagam de machos-alfa falando mal de mulher, e eles, apesar de serem patéticos em muitas questões, falam coisas que realmente fazem sentido para homens. Existe muita mulher merda nesse mundo, e não precisa inventar para trazer exemplos delas todos os dias.
Esse “exemplo masculino superior” faz o papel de pai, que muitas vezes é ausente na vida real, seja por ter sumido, seja por trabalhar demais, seja por ser um aleijado emocional como tantos homens são. O jovem gosta de ter exemplos de aspiração, pessoas que parecem estar no topo do mundo. O influencer imbecil com carrões e visão amarga sobre mulheres parece muito bacana de emular. Ele sabe o que está fazendo, não? (Spoiler: não sabe, mas o adolescente vai acreditar)
E tem um meio termo de participantes da comunidade que são muito atraentes, esse movimento atrai muito homem com inteligência acima da média. Gente que é boa de fala ou escrita, mas que não tem lá muito traquejo social. Gente que em outros tempos seria bem solitária, mas que com a internet conseguem usar sua eloquência e criatividade para se destacar.
O conteúdo dos incels e redpills é engraçado e bem argumentado. Tem os buracos óbvios de uma ideologia baseada em culpar mulher, judeu ou ________ (insira o grupo de pessoas que é culpada por tudo aqui), mas eles não são visíveis para o cidadão médio. Eu reconheço meus pares nesse grupo. Eu realmente acho que se não fossem algumas mulheres muito especiais na minha vida, eu poderia ter acabado incel. E provavelmente seria um dos produtores de conteúdo deles.
Se você gosta de conteúdo de gente “fodona”, tem. Se você gosta de conteúdo de gente como eu, tem muito. São pessoas que argumentam bem, tem senso de humor e usam exemplos reais de mulheres merda para generalizar. É difícil escapar de conteúdos manipuladores quando você já é um adulto bem resolvido, imagina só quando é um jovem que mal experimentou a graça de um bom relacionamento com uma mulher?
E tem um bônus que eu também acho que as pessoas enxergam errado: os perdedores. Aqueles cidadãos extremamente amargos e patéticos que reclamam que não conseguem nem pegar na mão de uma mulher. Você pode achar que eles jogam contra a cultura incel, mas eu argumento que eles são o segredo do sucesso: sabe quando você vê uma pessoa tão na merda que sua vida parece boa em comparação?
Nessas comunidades, esses super perdedores servem como alívio para quem está incomodado com a própria vida. Em outras comunidades, as pessoas tendem a ter vergonha de declarar seus fracassos, na comunidade incel você pode. Homem sente falta de poder falar francamente sobre seus fracassos e inseguranças, o grupo permite que eles se afundem em autopiedade e reforça que a culpa é das mulheres, não deles. Isso gera um senso de união no grupo, que se sente livre para ser frágil, mas ao mesmo tempo serve como “sacrifício” para a média que não é tão fracassada assim. É ao ler e ouvir os relatos dos homens mais rejeitados que o jovem sente que ele é melhor do que se sente.
O jovem precisa se posicionar no mundo. É parte do crescimento. Ver homens que se vendem como poderosos e homens que se vendem como fracassos absolutos cria toda a escala que ele precisa. Ele sabe onde está em relação aos outros homens.
Sim, o caminho acaba levando para um ódio irracional de mulheres, mas muito se engana quem acha que é um ambiente tóxico para o homem. Torna-se tóxico quando ele se fecha para relacionamentos e começa enxergar metade do mundo como objeto sexual que vai partir seu coração na primeira chance, mas antes disso, é assustadoramente parecido com um grupo saudável e atraente de homens para fazer parte.
Por um tempo, ser incel traz felicidade. E isso é muito mais válido quando é um homem jovem com pouca ou nenhuma experiência com o sexo oposto. E com menos socialização de vida real, os jovens têm menos experiência de convivência prática com outras pessoas, e isso inclui mulheres. Já fui maltratado por algumas mulheres, mas outras me trataram tão bem que eu tenho contexto para uma vida toda. Muitos desses moleques não tem isso por causa da idade mesmo, se não experimentar sexo e o que vai além do sexo, não entende essa variação.
Temos um problema, mas não acho que seja um problema de jovens entrando em sites secretos e sendo masoquistas escolhendo um grupo de pessoas horríveis para ficar sofrendo. Nem faz sentido. O grupo dos incels tem menos a ver com não fazer sexo do que o próprio nome sugere. Eu entendo que o problema é de socialização. A alternativa que muitos tem hoje em dia é passear muito perto deles, e não precisa ter nada fundamentalmente errado com o moleque para ele entrar, porque basta chegar perto e ganhar um monte de benefícios de ter uma tribo. Jovem é muito vulnerável a essa parte.
Ser incel nem exige que você abdique do sexo. É só uma palavra grudada num grupo natural de homens procurando entender quem são no mundo, um grupo atrativo que não parece que vai te colocar num caminho de ódio até… chegar lá. Se você puder tirar uma lição deste texto, é que não existe essa barreira de entrada de ser uma pessoa problemática ou hackear o mundo. Não é difícil, não é baseado em sofrimento, não é nem depressivo na imensa maioria das vezes.
Por isso, não existe proteção contra entrar no grupo. Não existe nem como excluir o grupo. Esse fenômeno cultural é resultado direto de como as pessoas estão sedentas por socialização real, e alguns grupos se tornaram mais eficientes em atender essa demanda.
E por último, a pá de cal na esperança de que basta “criar melhor”: não é o papai ou a mamãe que vão suprir essa carência por socialização. O trabalho deles vai até certo ponto, mesmo uma criança extremamente bem criada pode acabar nesses grupos, porque eles oferecem mais do que substituições desses papéis, eles oferecem a próxima etapa no crescimento de uma pessoa: o grupo social, a “família escolhida”.
Nos tempos em que se criava criança mais solta na rua, elas chegavam na adolescência com um bando de amigos, paqueras, namoradas e faziam seus próprios eventos sociais. A fase da independência chegava mais naturalmente por causa da longa experiência de socialização ao vivo. Há um problema fundamental na nossa sociedade, e jovens que acabam radicalizados como incels ou redpills são sintoma, não causa. Não precisava ser ao redor de ódio ou desdém de mulher, é que era um alvo fácil. Se você tem metade do mundo para julgar, vai achar motivos para reclamar todo dia sem parar.
O que eu estou tentando dizer aqui é que não é sobre as mulheres. Elas calham de ser o alvo desse bloco. Se você der um passinho para o lado dos incels, tem várias comunidades defendendo ódio contra outros grupos como cola social. Inclusive se der passinho para a esquerda: ódio contra homens, contra brancos… ter cara de justiça social disfarça como tem muita comunidade tóxica liderada por mulheres fazendo coisas bem parecidas.
Esses grupos baseados em ódio são muito bons para quem precisa de contexto social na vida. Atraem porque dão uma solução (ruim) para o problema fundamental da solidão e da falta de propósito. E por serem problemas fundamentais, todo mundo pode ser vítima, meio que nem as drogas mesmo. Não é coisa só de gente obviamente ruim da cabeça.
No próximo texto eu quero falar sobre como o cerne da questão são as opções de socialização no mundo atual e como isso pode ser o verdadeiro antídoto para o veneno da radicalização online. Você provavelmente vai conseguir reconhecer alguém indo para esse caminho se prestar atenção na personalidade social do jovem, que é bem diferente da que os pais, professores e adultos “do bem” da vida dele costumam enxergar.
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Posso eatar falando uma belíssima besteira, mas sempre acreditei que esses problemas orbitassem a loucura adolescente por pertinência. A coisa de querer desesperadamente fazer parte de uma tribo/grupo, somado à crescente incapacidade da atual geração de lidar com frustrações e rejeição, leva as pessoas a se juntarem ao primeiro grupo que os acolhe. Então o jovem se junta a esses grupos não porque concorda com as mensagens de ódio disseminadas por eles, mas apenas por que é um grupo, e não fazer parte de um grupo não é uma opção.
Existe alguma maneira de tornar a forma de lidar com isso um pouco mais racional? Se sim, podemos explorar uma saída a partir daí?
Exato, não fazer parte de um grupo não é uma opção. Se o jovem realmente não conseguir, isso vira uma depressão fácil fácil.
Até por isso, eu puxei o tema da socialização no texto seguinte. Ficar botando muita barreira pode acabar isolando o jovem, dando o efeito contrário.
Render-se à autocomiseração e ficar com raivinha do mundo não resolvem o problema, só o aumentam.
Pensando bem, que diferença faz lembrar do mundo sem internet? Está cheio de boomers que cresceram na roça, brincaram na rua, namoraram, beberam, viajaram o Brasil, e hoje estão aí com 65 anos de idade o dia inteiro no celular consumindo lixo. De que valeu viverem tanto no mundo real no passado, se agora no presente vivem como um gen alpha autista skibidi toilet qualquer?
Pode-se dizer também que o estrago que hoje a internet faz era a televisão que fazia no século passado.
E o que havia de tantos!!!!! estragos antes mesmo da Era do Rádio, “aposto que” pode-se dizer também…
Aliás:
https://www.desfavor.com/blog/2017/12/mgtow/
https://www.desfavor.com/blog/2022/03/mgtow-2/
https://www.desfavor.com/blog/2024/06/feminazi-x-red-pill/
https://www.desfavor.com/blog/2024/01/medo-de-mulher/