Skip to main content
Relações na merda.

Relações na merda.

| Desfavor | | 6 comentários em Relações na merda.

O brasileiro passa o Carnaval com obrigação social de ser feliz e se divertir. A gente aqui na República Impopular do Desfavor comemora a Semana Tá Tudo uma Merda. Vamos aproveitar o país parado para ver o que podemos arrumar na nossa casa.

E falando nisso, algo que está cada vez mais merda e menos gente vai saber como resolver: relações humanas. Sally e Somir entendem que o caminho da espécie não é dos melhores, mas discordam sobre o que vai ser mais afetado. Os impopulares pulam.

Tema de hoje: quais relações tendem a se tornar mais merdas no futuro?

SOMIR

Tempo de leitura: hoje não leio naaaada

Resumo da B.A.: essa gente pra baixo fica falando de relação no meio do carnaval, sai na rua e tenha um monte de relações, meu rei…

POWERED BY B.A.

Eu acredito que serão as amorosas mesmo, com ênfase nas heterossexuais. Apesar de não achar a mudança dos padrões familiares antigos esse desastre todo que o povo mais conservador acha, é claro que toda mudança gera consequências. Não é que o clássico núcleo de papai, mamãe e 2,5 filhos seja inerentemente bom ou ruim, é que nele existem alguns fatores de estabilidade social que precisam ser passados para frente seja a configuração que o ser humano preferir no futuro.

A natureza nos deu uma espécie sexualmente dismórfica, ou seja, com dois elementos diferentes que precisam ser unidos para gerar descendentes. Ela fez isso com praticamente todas as espécies complexas. Como eu não acredito em design inteligente, a ideia é que a partir desse ponto inicial, desenvolvemos um sistema bem eficiente: crescemos e nos multiplicamos ao ponto de dominar o mundo todo.

Precisa seguir o padrão de relação ancestral? Não necessariamente, mas foi algo testado e aprovado por milênios de vida na Terra. A busca por pares gera uma necessidade por esforço, homens e mulheres usam sua energia para construir pacotes atraentes para o sexo oposto, porque se for só por existir, os sexos são diferentes o suficiente para gerar incômodos um no outro.

Eu ia entrar num papo super maluco sobre combate à entropia, mas talvez seja melhor ser mais simples aqui: o ponto é que querendo ou não, essa coisa de ter que se esforçar para se reproduzir gerou homens e mulheres mais especializados em tarefas benéficas para a humanidade. Homens ficaram bons em transformar o ambiente em recursos, mulheres ficaram boas em aplicar esses recursos no crescimento das pessoas.

O que provavelmente foi resultado de instintos e corpos diferentes. Não teve uma reunião entre homens e mulheres no passado imemorial onde esses papéis foram definidos, as coisas se assentaram dessa forma pelas diferenças inatas entre os sexos. Especialização é o grande segredo do sucesso humano. Mas é claro, nada é de graça: a especialização do passado gerou desigualdades entre homens e mulheres.

Ao invés de colocar a pessoa certa na função certa, decidimos simplesmente replicar a especialização ancestral: nasceu homem tem que ser de um jeito, nasceu mulher tem que ser de outro. Eu acho uma evolução vencer esses padrões forçados e deixar as pessoas decidirem o que querem caso a caso, mas como estamos vendo nas últimas décadas, algo ficou mal resolvido: ao invés de focar em especialização, o ser humano começou a querer ser um generalista nas antigas funções (que calhavam de ser) sexuais.

É por isso que você vê homens e mulheres confusos sobre o que são e o que deveriam fazer. A cisma entre os sexos só aumenta, mesmo com sexo sendo muito mais fácil de conseguir. Gente que não consegue entender qual o seu papel no mercado sexual começa a inventar gêneros novos para se adequar às regras antigas, por mais paradoxal que seja: antigamente você era homem ou mulher, mas gente que não consegue se encaixar nessas regras busca inconscientemente um rótulo que a faça se sentir parte de um grupo de novo.

Não precisa fazer cosplay de casal dos anos 50, mas precisa saber como trabalhar em conjunto numa relação amorosa. É diferente de amizade, onde cada um toca a sua vida independentemente. Dá confusão na hora de fazer uma omelete duas pessoas tentando fazer a mesma coisa, imagina só na hora de construir uma relação? Nenhum sal ou o dobro de sal, essa é a toada das relações modernas.

E aqui eu entro com a parte que você previa ser o foco do meu texto: o tal do amor digital. Eu realmente acredito que não demora muito para o ser humano se entregar de corpo e alma para parceiros e parceiras virtuais. Mas não é só sobre ser egoísta e querer alguém que não peça nada em troca, é sobre a propensão da versão artificial de entrar num papel definido, justamente o que você não tem vontade de fazer.

O meu entendimento é que a fuga para o relacionamento amoroso com inteligências artificiais e eventualmente robôs não seja exclusivamente o ser humano sendo preguiçoso, é uma parte, é claro, mas não é o foco: no cerne da questão está a propensão da máquina de ser um complemento para o papel sexual que você quer seguir. Ao invés de lidar com uma mulher masculinizada ou um homem feminilizado, você tem o seu encaixe perfeito numa personalidade talhada aos seus desejos.

Sem ter que se expor ao sofrimento potencial do mundo dos relacionamentos com pessoas. Não tem rejeição, não tem negociação, não tem o que ceder, o amor da máquina existe ao redor dos seus desejos. E como quase tudo nessa vida, relacionamento amoroso é questão de treino. Você pode conquistar essa experiência em vários relacionamentos curtos ou em um longo, mas não tem como escapar: é só convivendo com uma pessoa numa relação de interdependência que você aprende como se faz.

E isso tende a se perder com pessoas mais confusas sobre papéis sexuais e com a concorrência desleal de sistemas artificiais programados para te agradar. Relacionamentos amorosos com outras pessoas vão ficando cada vez mais focados em sexo, trocas instantâneas de prazer e validação. Com o robô fica algo de longo prazo, que te dá segurança sobre quem é por te oferecer um contraponto confiável. A IA não vai questionar ou tentar roubar seu papel na relação. Ela está certa do papel dela.

Pode ser mulher focada em carreira, pode ser homem focado em cuidar da família, pode ser até um casal que sabe trocar de papéis de tempos em tempos, o que não está dando certo nas relações entre casais é os dois tentarem ser a mesma coisa ao mesmo tempo. A sabedoria do passado não era forçar as pessoas a serem de um jeito por causa da sua genitália, era dizer que funcionamos melhor quando sabemos o que temos que fazer.

E essa confusão só tende a aumentar. Historicamente, a pessoa podia encontrar rapidamente alguém especializado no papel oposto ao que se sentia melhor atuando, porque o mercado de pessoas estava bem estocado de seres com uma inclinação ou outra. O que acontece se o ser humano médio for um “pato de relacionamentos”? Voa, nada e anda, mas não faz nada muito bem. O relacionamento com o artificial ficará mais e mais interessante, e as pessoas vão ficar menos e menos experientes em lidar com outros seres humanos.

Muito sexo, pouca relação. Divertido no curto prazo, máquina de criar pessoas depressivas no longo.

SALLY

Tempo de leitura: 12 horas

Resumo da B.A.: meu amor, olha só, hoje o Sol não apareceu. É o fim da aventura humana na Terra. Meu planeta, adeus. Fugiremos nós dois na arca de Noé. Olha bem, meu amor, é o final da odisseia terrestre.

POWERED BY B.A.

Bem-vindo à Semana Temática “Tá tudo uma merda”. Considerando que esta é uma semana morta, pois as pessoas estão bebendo, pulando carnaval e sendo promíscuas, Desfavor resolveu fazer algo de útil por você: vamos dedicar a semana a falar de coisas que estão uma merda e tentar te dar as ferramentas para repará-las.

Mas não hoje, no resto da semana. hoje é dia de divergência. Para abrir a semana, escolhermos um Ele Disse, Ela Disse temático:

Quais relações tendem a se tornar mais merdas no futuro?

Acredito que todas as relações vão se deteriorar, pois estou ficando velha e, como todo velho, acho que só o que havia no meu tempo prestava e tudo que venha diferente é uma bosta. Porém, entre todas as relações, eu suponho que a que mais merda vai ficar é a de amizade.

Sim, eu sei, tudo que vocês digam sobre relações amorosas eu vou concordar: já está ruim e vai piorar muito mais. Superficial, decadente, por interesse, egoísta… tudo verdade. Mas a relação amorosa tem uma coisa que a amizade não tem: recompensa imediata.

Pode ser sexo, pode ser ter alguém para dividir o aluguel, pode ser suprir carência, pode ser o status do casamento, pode ser milhões de coisas, mas, seja lá qual for, a recompensa é imediata, só de estar com a pessoa ela já pode ser acessada.

“Mas Sally no futuro isso não será necessário, as pessoas vão se casar com robôs”. Provavelmente sim. Essas pessoas não terão relações amorosas, apenas uma relação unilateral, já que um robô não te ama de volta. Mas, quem conservar o interesse em humanos, vai ter que estabelecer relações. E acredito que muito mais gente do que imaginamos vai optar por manter relações amorosas humanas, justamente pelo ganho secundário que elas proporcionam.

Amizade, por sua vez, não tem uma recompensa imediata. É algo mais sutil. Você faz uma parceria de vida, muito além da questão física/sexual. É uma rede de apoio, é uma união de interesses, é um carinho e cuidado mútuo que se paga com o tempo: quando você precisar, seus amigos estarão lá.

Por não ter nada imediato. Isso desestimula essa manada de imediatistas tiktokers genzeiros, incapazes de um investimento de longo prazo, de cultivar algo, de aprofundar laços. Muitos simplesmente não conseguem entender o conceito de projeto de longo prazo e outros tantos, mesmo compreendendo, não sabem executá-lo.

Arrisco dizer que mesmo hoje, na maioria das relações, as amizades são mais profundas do que as amorosas. Muita gente fica em relacionamento amoroso pelos motivos errados: filhos, status do casamento, não querer uma redução do seu padrão de vida, sexo e outros. Não cultivam, não aprofundam, não investem na parceria. Apenas moram debaixo do mesmo teto e fazem algumas coisas juntos.

Amizade não. Não tem nada imediatista te prendendo a um amigo. Você só conserva um amigo de longa data se tiver afinidade, afeto e interesse genuíno em manter essa pessoa na sua vida por aquilo que ela é. Isso torna mais difícil cultivar uma amizade. Você realmente tem que querer, não tem biscoitinho para incentivar.

Essa ausência de barganha imediata vai dificultar que as novas gerações estabeleçam laço de amizade. Amizade é um projeto no longo prazo, ninguém faz um amigo em poucos meses. É uma construção. Demanda tempo, investimento, dedicação. E sem uma recompensa imediata eu não sei se essa geração tem a raça que precisa para persistir pelos bons e mais momentos.

Será que as pessoas vão conseguir cultivar uma amizade quando o ganho que se tem é “apenas” uma amizade, quando esse ganho chega apenas anos depois? Provavelmente não.

E, quando ninguém consegue cultivar uma amizade da forma como a conhecemos, a tendência é que se mude o conceito de amizade. Ou passarão a chamar qualquer um de amigo, ou esse tipo de relação simplesmente deixará de existir e outra mais superficial tomará seu lugar. Em ambos os casos, medonho.

Amizades tendem a se tornar meras trocas de favores. Talvez relações remuneradas, se não por dinheiro, por ganhos secundários. Escambo de afeto. Acordos de conveniência. Isso mataria a essência da amizade. Amigos são a família que a gente escolhe, não uma transação.

Ao perder a capacidade de construir uma relação longa, duradoura e profunda, perde-se a capacidade de construir uma amizade verdadeira. Ao ser dependente de recompensar imediatas para motivar seu cérebro a se dedicar a algo, perde-se a capacidade de construir uma amizade verdadeira. Ao ser um mimadinho egoísta chorão, perde-se a capacidade de construir uma amizade verdadeira.

Os relacionamentos amorosos vão continuar, aos trancos e barrancos, tal qual burro que marcha por causa de uma cenoura amarrada em uma vara de pescar. Amizades não. Não tem cenoura. O burro simplesmente vai se recusar a andar.

E é uma pena, pois, em última instância, amizade é um pilar importante das relações humanas. Casamentos terminam, familiares falecem, colegas de trabalho mudam de empresa… entre todas as relações, a mais estável e forte é a amizade, justamente por ser a única que cabe à nós, e apenas à nos, decidir quem, quando, onde e como, sem qualquer ganho imediato, apenas com base no afeto que sentimos pelo outro.

Valorizem seus amigos, em breve as pessoas não serão mais capazes disso.


Comments (6)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: