
Cabeças fracas.
| Desfavor | Ele disse, Ela disse | 10 comentários em Cabeças fracas.
Começamos a semana Más Influências com a ruim e velha guerra dos sexos. Mas não alimentando o ódio inútil, e sim pensando em como ambos os sexos lidam com o mundo virtual, cada vez menos virtual. Os impopulares disputam para ver quem sofre mais.
Tema de hoje: quem corre mais risco de ficar doente da cabeça na internet, homens ou mulheres?
SOMIR
Tempo de leitura: cansei.
Resumo da B.A.: eu não me radicalizo porque tá tudo em inglês.
Eu vou seguir com a teoria vigente: homens. Mas não pelos mesmos motivos que muitos costumam dizer. Essa coisa de “pecado original” que homens estão sempre a um passo de se tornarem predadores violentos não me interessa como argumento honesto.
Se homens se tornam mais violentos por radicalização na internet, não é necessariamente uma função mental masculina, mas o simples fato de que para o homem violência é quase sempre uma opção por causa do corpo. O homem doente da cabeça é mais violento que a mulher doente da cabeça pelo mesmo motivo que o homem mentalmente saudável é mais violento que a mulher mentalmente saudável.
Não é sobre a violência, porque ela se combate com ou sem internet, quanto mais evoluída uma sociedade, menos agressivas as pessoas se tornam. Eu entendo que homens são mais vulneráveis a se radicalizar na internet porque a rede de proteção deles é significativamente menor.
Como tudo na vida, vantagens e desvantagens: homem tende a ficar mais solto no mundo. Se você quer ficar na sua, você fica. Normalmente, quando você não se esforça para chamar atenção, você chega bem próximo de ficar invisível. Eu gosto de ter esse poder, de ser uma escolha. Mas isso tem um custo, você não recebe atenção quando não está pedindo por atenção. E às vezes, não estamos com energia para sermos tão ativos; outras vezes, consciente ou inconscientemente estamos fazendo algo que nos faz mal e abusamos dessa capacidade de ficarmos escondidos da sociedade.
Aí que eu vejo o risco maior para o homem. É mais fácil fazer merda se você está sem supervisão. Eu não sei se eu gostaria de ter a atenção que mulheres recebem normalmente, mas eu sei muito bem que poderia ter evitado vários comportamentos danosos na vida se tivesse sido confrontado um pouco antes. A presunção de fragilidade da mulher, justificada ou não, faz com que mais gente tente interferir na vida dela.
Vou entrar mais nesses assuntos durante a semana, mas eu percebo muitos homens “apodrecidos” em comunidades online. Gente que se afundou demais em ódio e desconfiança sobre o mundo. Nada contra ter pensamento crítico e não ficar fingindo felicidade na internet, mas tudo tem uma dose segura na vida. O que tem de homem com overdose de “pílula vermelha” não está escrito. Gente que pode se afundar nessas ideias porque não tem ninguém tentando “usar” elas para outra coisa. E eu escolhi a palavra “usar” por vários motivos, o principal é o valor no mercado sexual. Homem que se isola tende a continuar isolado. Mulher que se isola tem uma chance muito maior de ser “arrancada” a fórceps do seu esconderijo porque alguém quer transar com ela.
Entendam que eu estou pouco me lixando para o juízo de valor se é melhor estar numa vida ou outra em linhas gerais. É algo muito focado no potencial de estragar a mente com ideologias de internet. O homem fica mais vulnerável na prática porque ele pode ir se afundando nessas comunidades sem ninguém prestar atenção. Inclusive, a série que inspirou essa semana temática joga muito com essa ideia: estava acontecendo debaixo do nariz de todo mundo, e enquanto o garoto não deu um sinal gigantesco, não registrou como pessoa se perdendo.
Você ganha em liberdade, você perde em atenção. Combinação perfeita para radicalização. O foco mais social da mulher, internalizado e/ou forçado pelo exterior, faz com que elas sejam confrontadas por ideias extremistas muito mais cedo. Se ela der a menor chance, aparece alguém querendo “salvar”, mesmo que por motivos fúteis.
E por mais que eu acredite que esse foco social torna mulheres mais influenciáveis em média, a atenção vai compensando com várias linhas de pensamento disputando o mesmo espaço.
E é claro, o apetite por risco. Mulheres não vivem mais em média à toa. Se alguma ideologia começar empurrar a mulher no caminho da violência física ou psicológica, é mais comum que ela receba um sinal de alerta do próprio cérebro. A natureza realmente se importa com o útero e deu para elas muito mais interesse em autopreservação.
Ou, em termos menos floreados: homem é mais burro na hora de calcular riscos. Nunca acha que vão conseguir influenciar sua mente, está muito acostumado com a ideia de respeitarem sua opinião, mesmo que seja só para não lidar com agressividade. Isso gera uma falsa sensação de segurança ao lidar com conteúdos doentios na internet, porque soma a confiança de estar atrás de uma tela com a confiança de que não vai chamar atenção e vai poder sair quando quiser.
É assim que os moleques entram nesse mundo, confiantes que nada pode dar errado. E se a mente começa a ficar doente de tanta informação negativa, por um bom tempo ainda só parece um homem normal, mais fechado, estoico. E vamos ser honestos? Se o homem começar a ficar mais agressivo com as pessoas ao seu redor, tem um certo nível que até fica atraente para muita mulher. Sem contar que, novamente, num certo nível, tende a te ajudar mais do que atrapalhar na vida masculina.
O caminho para se tornar um incel ou similar começa com algo que não parece tão danoso, não chama muita atenção porque é com homem e não tem muito como voltar depois de se afundar demais: não tem mercado para recuperar homem na sociedade. Tem cadeia. Depois que o cidadão já se matou socialmente, não tem plano B, ele vai ter que fazer todo o esforço sozinho para conseguir atenção de volta, muitas vezes depois de já ter atrofiado sua sociabilidade.
É mais fácil para entrar, é mais difícil para sair. Cá entre nós, me parece um pouco melhor pintar o cabelo colorido, inventar um gênero e ficar mendigando atenção dançando na internet do que acabar um nazistinha de internet. Pelo menos parece que insanidade feminina causada pela internet é mais recuperável…
SALLY
Quem corre mais risco de ficar doente da cabeça na internet, homem ou mulher?
Para quem não sabe, esta semana será toda com postagens buscando discutir como proteger as pessoas da toxicidade online que seduz tal qual uma seita e desgraçam a vida da pessoa e de sua família. Começamos discutindo quem corre o maior risco de adoecer com isso, e eu acho que são as mulheres.
Eu sei de toda a podridão online que está lavando a cabeça dos homens e também sei que meninos são mais imaturos e mais suscetíveis a esse tipo de manipulação e necessidade de afirmar sua masculinidade. Mas meninas sofrem um baque mais pesado.
Normalmente meninos sofrem pressão para uma meia dúzia de comportamentos/padrões que são esperados de um “macho”, coisas patéticas como “ser alfa, ser líder, não ser feito de otário e ser bem-sucedido”. É um discurso simplório e babaca e exerce uma pressão limitada.
As meninas sofrem pressão de todos os lados. Pressão estética para ter um corpo ou um rosto de tal forma, pressão comportamental (de um lado para não “ser piranha”, do outro para não “ser submissa”), pressão por suas funções (tem que cuidar bem da sua família, mas tem que ter uma carreira), pressão por jovialidade (envelhecer significa ser menos desejada) e tantas outras. E, no topo de tudo isso, sofrem a pressão que o grupo tóxico masculino impõe, repetindo que mulher é tudo interesseira, escrota e merece morrer.
Eu sei de toda a pressão que homens sofrem, mas são homens. Em última instância, eles têm força física, o que não resolve tudo, mas é um fator que ajuda. Mulher não. Mulher não tem essa tranquilidade. Você, homem, imagine que uma comunidade de fisiculturistas fica te ameaçando online diariamente, como você se sentiria? Como você se sentiria sabendo que eles já mataram várias pessoas e que, se realmente forem atrás de você, você não tem como se defender?
E se falamos de Brasil, pior ainda, pois não tem lei. Toda semana a gente pública na coluna “A Semana Desfavor” (coluna com as notícias que foram o maior desfavor da semana) histórias de mulheres ameaçadas que procuraram por ajuda policial/judicial e acabaram mortas do mesmo jeito.
Homem sofre pressão que afeta a saúde mental? Que chato. Mulher sofre todas essas pressões e ainda tem que viver com o medo de acabar espancada, estuprada e/ou morta. Eu suponho que esse pequeno plus detone um pouco mais a saúde mental. Viver com medo é um dos maiores detonadores de saúde mental que existe, pois é algo que age 24h por dia no seu emocional. E o medo de quem não pode se defender é ainda pior, é algo que raramente um homem experimenta.
Quer um bônus? Essa babaquice masculina tende a passar com o tempo. Salvo uma pessoa muito chata, todo homem acaba se acertando com alguém e, quando isso acontece, essa fase da vida fica para trás. Já no caso das mulheres, toda a toxicidade as acompanha para o resto da vida: as cobranças estéticas, as cobranças pelas escolhas de vida e até as intimidações e ameaças masculinas. No caso das mulheres, não é uma fase, não passa. Se acumula e se sobrepõe mesmo quando elas passaram dos 30. Por sinal, existem ofensas específicas para mulheres que passaram dos 30.
A vida da mulher é escrutinada e julgada com um rigor absurdo. Pessoas que certamente não se medem por essa mesma régua tão rigorosa (se não já tinham se matado) julgam tudo, desde coisas pequenas como uma roupa, até coisas enormes como a escolha de ter ou não ter filhos. E é o tempo todo. E é com agressividade.
Eu vejo uns hominhos frouxos aqui se ofendendo nos comentários, chamando mulher de tóxica porque ela postou que a terapia estava em dia, não durariam 12h na pele de uma mulher, certamente se suicidariam se tivessem que escutar um décimo do que uma mulher escuta.
Ainda estamos em um mundo dominado pelos homens. Os principais cargos de poder, os principais tomadores de decisão, as figuras que impõe respeito são quase sempre masculinas. Isso significa que a mulher já nasce em um mundo no qual ela está em desvantagem, seja culturalmente, seja fisicamente. Então, não venham me falar do quanto é difícil ser homem e de suas inseguranças. Eu entendo que há desafios, mas, imagina passar por tudo isso e coisa pior não sendo o topo da cadeia de comando.
“Ain mas mulher pode destruir o emocional de um homem”. Tá bom, senta lá, Claudia. Homem também pode destruir o emocional de uma mulher e, além disso, costuma destruir a incolumidade física junto. Soma a todo esse estresse que o homem sente o medo de ter o cu arrombado, os dentes removidos e a vida perdida e aí você calcula quem é mais impactado.
Não estou negando o sofrimento masculino, estou dizendo que, no que diz respeito à chance de adoecer, a da mulher é maior. Vê aí quem mais adoece por anorexia, bulimia ou outros distúrbios alimentares. Vê aí quem mais precisa de medicamentos para controlar estresse, depressão e sono. Vê aí quem agride mais a quem, quem mata mais, quem estupra mais. Tem um grupo claramente tomando um impacto maior, e é esse que tem mais chances de adoecer.
O conteúdo que a mulher recebe, mesmo quando não é para atacar, adoece. O conteúdo padrão para meninas e mulheres é sempre carregado de padrões estéticos, cobranças, exigências e julgamento. Enquanto um homem recebe futebol, mulher de biquini e carro, mulher recebe modelo com corpo perfeito, dicas para conseguir cuidar bem da casa, família, corpo e carreira ou dicas de moda e produtos que ela tem que consumir para ser considerada atraente.
Sendo bem sincera aqui, se a gente invertesse a situação e botasse os homens no mesmo patamar de cobrança, vulnerabilidade e exigência que as mulheres, metade surtaria. Por cobranças pequenas, como ter um corpo sarado (algo que é cobrado desde sempre às mulheres) eles já se sentem suuuuuper pressionados e viram incel, imagina se pegassem o pacote inteiro de cobrança que eles mesmos nos aplicam há décadas.
Só para variar, no ambiente online as coisas são muito mais pesadas para a as mulheres.
Creio que os textos desta “Semana Más Influências” tem muito potencial para causar a ira de certas pessoas e atrair comentários desaforados que serão rejeitados devido à quantidade de chorume despejada e acabarão abastecendo uma próxima edição do “Ei, Você!”…
Edição que seria crossover com “Fala, desfavor” e não seria o primeiro (contando outros abastecimentos)…
Não duvido.
Eu concordo com a Sally. Todo mundo é bombardeado de informações distorcidas e conteúdos que não prestam na internet, mas só nós mulheres que temos a soma disso com o medo de ser estuprada ou agredida 24h por dia. Quando um homem desconhecido nos aborda, às vezes precisamos calcular com muito cuidado como vamos responder, porque um sorriso sem graça pode ser visto como abertura e um “não” pode ser visto como grosseria digna de agressão física. Homens que marcam encontros se preocupam em ser rejeitados ou em encontrar uma mulher com aparência diferente, caso tenham marcado pela internet. Nós mandamos localização pelo menos para uma amiga, mesmo depois de vários encontros, porque nunca se sabe quando um psicopata vai se revelar.
Já fui agredida verbalmente (grossa, difícil, autoritária por causa de um “não” super educado) e seguida nas ruas por anos após dizer que não queria mais ficar com um homem com quem tinha saído uma única vez, ele também arrumou vários números pra me ligar depois de ser bloqueado. A polícia raramente leva isso a sério antes do pior acontecer. E mesmo quando acontece, questionam muito mais o que uma mulher fez para ser agredida ou estuprada. O que aconteceu com a Mariana Ferrer é padrão.
Eu colocaria minha mão no fogo pra dizer que cada uma das mulheres brasileiras tem ou terá uma história assim pra contar. Conteúdo incel pode ser desmistificado assim que o indivíduo começa a conversar com mulheres na vida real e percebe que nós somos muito diferentes do que pregam esses gurus. Mas é muito, muito difícil para nós conseguirmos escapar do medo de que algo violento irá nos acontecer. E costuma acontecer pelo menos uma vez na vida de cada mulher.
Paula, homens não conseguem entender ou mensurar o que é viver com esse medo constantemente. Mesmo em abstrato, eles imaginam uma sensação ruim, mas não conseguem compreender o que o acúmulo disso diariamente faz com o psicológico de alguém.
Apesar de entender o ponto da Sally (o grande número de tentativas de suicídios nas mulheres atesta), mulheres tem MUITO mais rede de apoio que homens (o número de suicídios bem sucedidos são muito maiores em homens).
Esse tipo discussão não sou muito fã, pois ambos tem pontos fortes, mas… Sei lá, não é pra mim.
“Esse tipo discussão não sou muito fã, pois ambos tem pontos fortes, mas… Sei lá, não é pra mim.” Concordo contigo, Torpe.
Concordo também, sinceramente…
(Somir, a autoria está “só” tua.)
Foram os remédios… hahahah.