
Agressivamente chato.
| Somir | Somir Entrevista | 2 comentários em Agressivamente chato.
Ou, como lidar com gente agressiva. No Brasil, isso pode ser questão de vida ou morte. Como a maioria de nós já vive em grandes cidades rodeados por estranhos, eu acredito que seja essencial aprender a se virar em situações de conflito onde você é o agredido.
Tempo de leitura: 1 segundo para puxar a faca!
Resumo da B.A.: eu sou tranquilo e da paz, mas quero matar quem me fala qualquer coisa que eu não gosto.
Agressividade pode ser física ou psicológica, e as duas podem te machucar bastante. Eu me considero uma boa fonte de informação neste tema porque durante minha vida toda eu tive bons resultados ao lidar com gente que muitos consideravam intratáveis nesse ponto. Nem tudo foi aprendido, algumas coisas só “deram certo” na minha personalidade para reduzir a quantidade de pancada que levei dos outros na vida.
Pode ser que eu acabe morto por um maluco depois de uma batida de trânsito, pode ser que eu aja errado quando confrontado em uma situação ou outra, mas não existe perfeição, muito menos controle sobre o que o outro está disposto a fazer. Todo o ponto deste texto é te mostrar formas de reduzir a chance da pessoa agressiva… agredir.
Primeira coisa, ponto central de toda a ideia: se você é agressivo, não adianta usar nenhuma tática, porque você sempre vai estar com um galão de gasolina do lado do fogo. Se você é agressivo, a situação vai se resolver dessa forma. Não existe nenhuma alternativa, você tem que se controlar primeiro.
Não é sobre estar certo, errado, feliz, triste… o “tema” da discussão não tem a menor relação com esse primeiro ponto: se você quer reduzir a chance da coisa virar briga física ou de palavras, você tem que se acalmar primeiro. Se você quer um curso de ganhar discussão basta usar um monte de falácias e fazer as pessoas ao redor da sua vítima rirem dela; se você quer um curso de ganhar disputa na porrada, vai treinar MMA, arranja uma arma de fogo…
Você tem que querer resolver a coisa sem agressão. Se você sentir que não tem jeito (é razoável e legal usar força para se defender) ou se realmente quiser partir para a briga, não se engane, faça a coisa direito e assuma as consequências. Um saco quem diz que “não quer brigar” e fica provocando para sair uma briga. Quer brigar, briga, não fica fingindo.
Quer lidar com gente agressiva e acabar com a agressão? Ah, ok, vamos nessa. Depois de entender que você não quer que vire berro, ofensa e pancada, você começa a agir de forma condizente com isso. E isso quer dizer reconhecer que em cada de um de nós existe uma criança escrota pronta para sair quando as coisas dão errado. Alguns são melhores em controlar, outros piores, mas o potencial está lá.
A criança escrota assume se você não se controlar. Ela pode ser um desastre na diminuição dos riscos, mas é uma máquina de infernizar o outro. Muitas vezes só queremos jogar merda em cima do outro, seja para não ficar sozinho no sofrimento, seja para ver o que acontece quando o outro fica muito desestabilizado. A criança que fazia essas coisas é você. Na verdade, é uma das primeiras coisas que você foi na vida. Ela nunca desaparece, porque ela é a fundação sobre a qual você construiu sua personalidade. Seu cérebro chama de volta para lidar com algo que considera incômodo e é esforço consciente segurar ela.
Quando você está diante de uma pessoa que parece estar agressiva, seja pelas palavras ou pelos sinais físicos, isso te afeta. Pior bobagem é achar que não, que o seu estado natural é ser neutro diante da agressão do outro. Seu estado natural é ficar com fome, sede, sono e vontade de ir no banheiro, o resto é bem mais complicado e existe ao mesmo tempo em todas as mentes.
Se você está diante de um imbecil querendo brigar por você ter “olhado errado” ou diante de um chefe tentando te humilhar na frente dos colegas, o normal não é ficar neutro. Tem gente que consegue depois de muita meditação, terapia e autoconhecimento, mas é meta de vida, não é o pacote básico. O pacote básico é uma criança que fica com medo ou fica agressiva ou escrota de volta.
Se você não quer a criança lidando com seus confrontos na vida, tem que manter ela sob controle. Coisas que a criança faz: falar mais alto como se melhorasse o argumento, deboche, repetição constante, ofensa pessoal e tentativa de se impor fisicamente, seja estufando o peito, seja se aproximando demais, seja colocando dedo na cara…
Tudo isso significa que você quer mais agressividade. A minha solução para diminuir o ímpeto de gente agressiva é ser o oposto de uma criança: ser um tédio. Não é sobre parecer superior, não é sobre ser submisso, é chato mesmo. Parece que não, mas até mesmo no meio de uma situação ruim como estar diante de alguém querendo te enfiar a porrada ou berrando para te fazer se sentir mal, existe o risco de você querer tirar alguma compensação dali.
Tem gente que acha compensação fazer pose, causar dor ou mesmo gerar pena. Por isso que eu falei que não é sobre ser submisso: existem recompensas mentais até mesmo para se submeter a outra pessoa. O meu método é tirar qualquer prazer da vida nesse momento de agressão, até mesmo o prazer masoquista que muitos de nós temos.
E como então ser chato na medida certa? Os budistas falam disso faz tempo, e faz todo sentido: seja de teflon. Ok, não tinha teflon no tempo do Buda, mas se tivesse ele ia usar essa analogia. Não é para deixar nada grudar em você. O seu objetivo é acabar com a agressão e você vai matar as recompensas emocionais da agressão.
Responder xingamento é direito seu, mas é dar alguma de volta. Refletir a postura física do outro é igualmente direito seu, mas é igualmente dar alguma coisa de volta. Vencer briga é totalmente diferente de eliminar agressão. Quer estar certo? Quer fazer justiça? Quer parecer mais forte? Bacana, manda ver, a vida é sua. Mas para usar a tática mais eficiente possível para reduzir agressividade do outro você não pode mais se importar com essas coisas.
Eu fico batendo na mesma tecla de não ser uma briga porque no fundo a minha tática é literalmente tirar a briga da outra pessoa. Já é um saco ter que brigar pelas coisas que você quer e precisa, ainda vai ficar comprando a dos outros sem ter nenhuma vantagem nisso? Deixa quem você puder falando sozinho, retire-se, vá embora, não responda, não faça cara de bravo, de medo, de nada.
Porque se você precisar de defender, você vai ter que fazer de qualquer jeito. A pessoa que sai do carro depois de uma batida só para atirar em você vai atirar em você e pronto, a pessoa que sai do carro segurando a arma quer um motivo para atirar e aí você é parte da história de novo.
As brigas que você evita por ser mais agressivo que o outro são minoria em comparação com as brigas que você evita por ser menos agressivo que o outro. Saco cheio dessa mentalidade latina de dizer que você “precisa ser forte” agindo feito um babuíno com overdose de cocaína. Isso não é ser forte, isso é ser criança a vida toda. Quem “se impõe” morre muito mais por motivos estúpidos do que quem essa gentalha acha que é fraca, e adivinha só: consegue muito menos sucesso em média porque está sempre enfiado em alguma confusão e fazendo inimigos.
Para cada “pessoa forte” que fica rica e poderosa sendo agressiva, mil animais se matam por discussão de bar. A tendência da pessoa agressiva é se foder na vida, não se dar bem. É a mesma coisa que ver quanto dinheiro tem um jogador de futebol e achar que vai ficar rico chutando bola na rua. Na maioria dos casos não vai dar certo. Agressividade é burrice na maioria das vezes, e a maioria das pessoas muito agressivas vive uma vida de merda, e pior: não conseguem ajuda porque dão patada (ou facada) em todo mundo que fala a verdade para elas.
Normalmente, você precisa controlar o seu lado primeiro para reduzir a agressividade do outro. Mate de porrada se não tiver escolha, mas se tiver, mate de tédio. Agressão cansa, o cérebro e o corpo se esforçam muito. Quando menos você responder ou der atenção, mais a outra pessoa cansa e menos você se enfia em situações ruins.
De bônus, vou falar sobre defesa pessoal aqui, e sobre como tudo isso combina: como reagir a uma pessoa agressiva portando uma faca? De longe, sempre olhando para a faca. A pessoa que se foda, você está preocupado com o objeto cortante. Todas as técnicas de lidar com uma pessoa com uma faca são infinitamente piores que estar distante da pessoa com a faca, entendem a relação?
Não existe vantagem inerente em ir para cima da fonte de perigo se você pode sair de perto dela. Funciona em toda a natureza e funciona nas mais complexas relações humanas. Você briga quando você é obrigado ou pelo menos quando você quer mesmo brigar, se não, afasta-se da faca de forma concreta ou abstrata. Seja entediante, não dê nada de volta para o outro usar. Sério, na maioria das vezes, basta não responder ou dizer que não quer brigar e se afastar.
Funciona porque não tem graça. A ideia é não ter graça. A pessoa agressiva está fadada a buscar mais e mais estímulos, e quanto mais caro ficar para ela ter algo de volta de você, menor o incentivo. E até na prática: se a outra pessoa partir para a violência física e você estiver o tempo todo se esforçando para não dar nada de volta, primeiro que você vai ser a pessoa com a visão mais clara da situação, e segundo que se você bater de volta por não ter mais nenhum recurso, está justificado(a).
É sempre a melhor escolha não dar nada de volta para a pessoa agressiva, até você não ter escolha. É aquela porcaria de meme da série, mas é a mais pura verdade: não reaja. Milhares de anos de sociedade humana já provaram que funciona mais, você vive mais, você consegue mais coisas… gente violenta física ou psicologicamente se dá bem na vida sim, mas numa proporção menor do que os calmos, eles só fazem mais barulho.
Na dúvida diante de alguém agressivo, sempre pense: como eu posso deixar essa situação mais entediante e sem graça? Normalmente é a melhor ideia possível.
Não há agressividade gratuita que resista a uma postura serena, impassível, “chata” mesmo…
“A melhor forma de se evitar um soco é não estando lá!” MIYAGI, Nariyoshi Keisuke