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Adolescência.

Adolescência.

| Desfavor | | 18 comentários em Adolescência.

Uma séria na Netflix chamada Adolescência chamou muita atenção nos últimos dias, com várias análises pipocando pela rede. Sinopse: Em uma cidade inglesa, a polícia invade a casa de uma família e prende Jamie Miller, um garoto de 13 anos, sob suspeita de ter assassinado sua colega de classe, Katie Leonard.


Interessante falar sobre o tema, mas não se você só enxergou cultura incel e masculinidade tóxica. Desfavor da Semana.

SALLY

Tempo de leitura: 17 horas

Resumo da B.A.: feminista escrota querendo que você seja beta.

POWERED BY B.A.

O seriado “Adolescência” da Netflix está repercutindo, mas infelizmente muito distante do que nós acreditamos ser cerne da questão. Então, resolvemos trazer o cerne da questão para o texto de hoje. O objetivo não é falar especificamente sobre o seriado, e sim discutir seu tema, que é algo para que todos nós já deveríamos estar olhando faz tempo.

Mais do que criticar incel ou ser voyeur de crime, o seriado mostra o tamanho do problema: crianças e adolescentes sendo sugados por um pensamento tóxico sem que ninguém que os cerca tenha a menor ideia disso. Família, professores, psicólogos, amigos… é possível que ninguém nem desconfie do que está acontecendo. E mesmo quando sabem, não tem a menor ideia de como solucionar o problema.

É cientificamente comprovado que crianças e adolescentes não têm um desenvolvimento cerebral completo, no sentido de não estarem aptos a fazer sempre as melhores escolhas: avaliam mal, reagem mal, são basicamente burros emocionalmente. Por isso, crianças e adolescentes precisam da proteção de adultos contra si mesmos e suas péssimas decisões de um cérebro ainda em formação.

Quando nós éramos pequenos, nossos pais estavam cientes que quais eram os perigos que encontraríamos na rua e nos preparavam para eles exaustivamente: não aceite doce de estranhos, não fale com estranhos, olhe para os dois lados antes de atravessar a rua e tantos outros mantras que você, assim como eu, deve ter escutado à exaustão. E deu certo, a maior parte de nós sobreviveu.

Hoje, existe uma “segunda rua”. Além dos perigos da rua, temos ainda os perigos online, um mundo que boa parte dos pais de adolescentes desconhece, pois não existia quando eles eram adolescentes. Hoje os pais não têm a menor ideia do que se passa no mundo online, principalmente em sua zona mais obscura, e como isso impacta o cérebro de uma criança ou de um adolescente.

Para proteger, é preciso conhecer os perigos. Pais que não conhecem esses perigos não são capazes de proteger seus filhos. E isso não faz deles péssimos pais e muito menos culpados pelos erros que os filhos venham a cometer. Isso faz deles vítimas, juntamente com os filhos e com quem venha a ser prejudicado pelos filhos. Estamos todos juntos nisso.

Existe essa mentalidade antiga de que se uma criança tem um lar estruturado, com as doses mais ou menos corretas de amor e limites, ele não vai se meter em muitos problemas. Isso era válido para a lógica das ruas, mas, nesta nova realidade, com essa “segunda rua” que é o mundo online, isso não basta mais para proteger seu filho. Na real, um lar estruturado era apenas a base que garantia que os pais pudessem transmitir e fixar os ensinamentos de proteção. Um lar estruturado sem esses ensinamentos de proteção não basta.

“Tá bom, Sally, você já me assustou, grupos tóxicos online podem contaminar o cérebro do meu filho. Agora me diz como resolve o problema”. Pois é, esse é o cerne do texto de hoje e eu vou ter que te pedir muita boa vontade para abrir sua mente e me escutar sem ficar puto. No momento, o problema não tem solução, por erro de todos nós. Vamos ter que construir uma solução juntos.

Boa parte das pessoas, quando pensa em “problema”, busca automaticamente a solução, não solucionar o problema. Reparem que, mesmo quando falamos desse assunto, geralmente as pessoas têm convicções sobre o que seria “a solução”: regular redes sociais, reduzir a maioridade penal, desarmamento e tantas outras medidas únicas que acreditam, solucionaria definitivamente a questão. Gera conforto pensar que existe “a solução”. Mas, ao menos até aqui, ela não existe.

“Mas Sally por qual motivo você me fez ler um texto angustiante se não vai me dar a solução? Você é sádica?”. Não. Estamos falando sobre este assunto justamente para te dizer que uma solução só vai aparecer se todo mundo se engajar nessa conversa, compreender o que está acontecendo e começar a trabalhar por ela. Nem sempre solução é algo que vem pronto, de cima para baixo, criada pela lei ou por alguma autoridade. Muitas vezes é preciso conversa, estudo, troca de ideias para que, todos juntos, possamos construir uma solução.

E essa solução construída nunca é algo mágico, único, rápido: basta fazer tal coisa que o problema se resolve. Isso é conversa de coach estelionatário. Problemas complexos demandam soluções complexas, que envolverão uma série de mudanças, providências e adaptações. Sempre que alguém te apresentar uma solução fácil e única para um problema complexo, desconfie da pessoa e da solução.

E discutir, debater, compartilhar experiências faz parte da solução. Não é perda de tempo. Por isso acreditamos que este texto seja válido, mesmo sem trazer “a solução”. As coisas não surgem do nada, elas são uma construção – e quanto mais pecinhas a gente tem, melhor fica o que a gente constrói. Então, olhar para o assunto, falar sobre o assunto, compartilhar conhecimento sobre o assunto é parte do processo saudável para se chegar em uma solução.

Não é possível, viável ou exequível controlar a quantidade de informação que circula online. Eu adoraria que fosse, pois resolveria o problema. Mas não é. Algum tipo de regulação pode ajudar, mas não vai resolver. Também é injusto jogar toda a responsabilidade nos pais, assim como é impossível pretender que a polícia ou o Judiciário consigam impedir estes crimes.

É uma situação nova e complexa e para solucioná-la serão necessárias medidas novas e complexas. E quando mais gente se engajar nessa discussão de forma produtiva (trazendo informação, sugestões e conhecimento que ajudem em vez de julgar), antes chegaremos em uma combinação de ações que levem à melhor solução.

Eu pessoalmente sempre acreditei na solução e evolução pelo conhecimento, pela informação, tanto é que me dedico há mais de uma década a escrever de graça aqui. Então, minha contribuição é através da informação. Como você pode contribuir? O que você está fazendo para contribuir?

A nossa parte para tentar colaborar com o problema sai na semana que vem, quando vamos fazer uma semana temática só sobre esse assunto, não com “soluções”, pois não as temos (ninguém as têm), mas com ferramentas que talvez ajudem a um dia construir uma solução realmente eficiente para o problema. E o problema, meus amigos, não é só grupo de recrutamento incel, é qualquer lavagem cerebral com cara de seita online. E tem dos mais diversos.

Acredite, só de você estar efetivamente ciente do problema e pensando nele, já está muito à frente da maior parte das pessoas, que não tem a menor ideia do que realmente está acontecendo.

Dica: leiam com atenção os textos do Somir, pois ele conhece na prática esses ambientes tóxicos que estão desgraçando a vida de tantas famílias.

Nos vemos na semana que vem, com este tema desagradável, porém necessário.

SOMIR

Tempo de leitura: 13 anos

Resumo da B.A.: se não quiser ser incel é só pegar uma cabra bonitinha…

POWERED BY B.A.

Se todo homem fosse como os lacradores dizem e toda mulher fosse como os incels dizem, simplesmente não teria sociedade de pé. Evidente que é importante combater essas culturas que pregam ódio contra o outro, com ou sem verniz de justiça social.

Mas eu argumento que essa não é a verdadeira discussão que precisaríamos ter ao redor da popularidade dessa série. Vulnerabilidade é a palavra-chave aqui. Temos jovens sendo criados em praças públicas online e adultos que ainda não entenderam de verdade os riscos envolvidos. Mais do que culpar internet, incels, machismo, é essencial entender o ambiente que nos cerca e a armadilha na qual as gerações que passaram pela revolução digital se enfiaram.

Há uns 100 anos atrás, crianças também eram criadas em praças públicas. Na verdade, com exceção de algumas gerações do meio do século passado até o começo deste, a norma sempre foi criança viver bem solta em relação à sociedade. Meu avô contava histórias de antes dos 10 anos de idade, pegar carona em carroças para ir para outra cidade e passar uns dias lá com um bando de amigos, e seus pais nem ligavam muito. Alguém daria comida e abrigo, e virtualmente todas as vezes voltavam numa boa.

Esse tipo de liberdade tem mil perigos diferentes, é claro, mas forma pessoas diferentes do modelo vigente de proteção constante à criança. Eu não sou do tipo que glorifica o passado, nem é meu objetivo aqui dizer que o jeito do passado era o melhor, é só dizer que existem consequências para todo tipo de comportamento.

Essas crianças mais “ferais” do passado eram selecionadas e moldadas por um ambiente de grande interação social. Elas viviam entre elas, saiam de casa cedo para brincar com o bando e voltavam só para dormir. Psicologicamente mais adaptadas a lidar com o diferente e menos dependentes dos pais. Eu entendo que eram menos suscetíveis aos adultos até, porque eu tive uma “fase feral” na minha infância, sorte de ter uma turma grande e muito espaço livre, a gente não dava a mínima para eles.

E eu realmente acho que essa fase da vida serviu como vacina para me manter protegido do pior da internet anos depois. O ponto de hoje é que em algumas gerações, as crianças começaram a ficar mais e mais isoladas: os pais aprenderam a ter medo de deixar as crianças nas ruas, as cidades se tornaram mais perigosas e menos confiáveis com tanta gente desconhecida aparecendo em poucas décadas. Eu tive a fase bicho do mato convivendo com um bando de crianças selvagens, e logo depois eu tive a fase de criança isolada, só que na era da televisão. Por isso sei um pouco mais do que estou falando sobre esses contrastes.

Na fase da criança isolada, você passa muito mais tempo convivendo com “seus adultos” e as outras crianças são mais eventos sociais do que sua tribo (de verdade, a gente se pintava e saía para caçar jacaré, não tinha jacaré onde eu vivia, mas as crianças acreditavam que tinha e era suficiente para fazermos lanças e estilingues). O lado positivo: tem um tipo de desenvolvimento intelectual da mais consumo de conteúdo e mais introspecção com esse tipo de criação mais isolada, encontrando outras crianças mais na escola e em lugares “protegidos” com hora marcada.

E não é por nada não, mas se eu pudesse escolher agora, eu teria passado mais tempo caçando jacaré. A era pré-internet não era tão grandes coisas assim para alimentar a curiosidade intelectual de uma criança. Eu dei meu jeito com televisão e livros, mas depois que a internet apareceu, mesmo da forma limitada como eu tive quando estava saindo da infância, era absurdamente melhor. Eu entendo de coração quem se vicia no mundo online, porque se você não sabe na prática o que é “caçar jacaré” com sua tribo de moleques, a internet é imbatível em atração para uma criança. É tão melhor que a socialização travada com adultos próximos e outras crianças em eventos supervisionados que é até covardia comparar.

Tudo isso para dizer que vivemos numa época muito bem otimizada para crianças isoladas. Um tablet entrega compensação gigantesca para o estímulo mental que uma criança quer, as redes sociais e comunidades online oferecem uma forma de compensação para a deliciosa sensação de ser parte de uma tribo quando você ainda está em formação.

Os pais dessas gerações atuais de jovens online provavelmente não viram muito mais do mundo que a infância isolada. Eles entendem que criança tem que ficar protegida da rua e que a vida online é uma alternativa segura. O problema é que não é. Rua é rua. A rua de verdade tem riscos físicos, mas a rua digital tem todos os riscos da socialização sem a presunção de risco por esses pais, afinal, para eles ficar isolado em casa é ficar isolado mesmo.

A bolha de segurança de quem viveu a era da televisão e o começo da internet não existe mais. Como eu já disse, está muito otimizado para entregar o que apela para os desejos humanos mais primais. Criar um filho hoje com internet do jeito que está é criar alguém que vai ser exposto a basicamente tudo o que as crianças “ferais” do passado eram em matéria de boas e más influências humanas. Mas sem o feedback instantâneo de bater e apanhar ao vivo, seja por palavras ou fisicamente.

Vamos fazer uma semana temática só sobre o que se deve saber sobre a “aldeia digital”, para justamente informar quem está criando alguém nessa era o que está acontecendo. Mas sem pânico, sem lacração (de um lado ou de outro), apenas informações que podem ser úteis para você ou para suas pessoas queridas.


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