
Longo caminho.
| Somir | Somir Surtado | 4 comentários em Longo caminho.
Você aparece num descampado próximo de uma floresta, totalmente nu, apenas com os instintos que a natureza te deu: fome, sede, frio, calor, sono… avisos básicos sobre algumas coisas que você precisa fazer para não morrer e nada mais. Junto com você, mais um punhado de seres parecidos.
Tempo de leitura: milênios
Resumo da B.A.: o autor é inteligente e não acredita nessas mentiras de aquecimento global!
O pacote básico te ajuda a fazer o que a maioria dos animais fazem: procurar por alimento, seja coletando ou caçando. De tempos em tempos você tem vontade de fazer sexo, o que é suficiente para gerar filhos num volume que cobre o número de mortos. Quando você vê esses pequenos seres parecidos, é natural tomar conta deles até que possam se virar sozinhos.
Mas você tem um bônus que nem todos os outros animais têm: um impulso natural a formar grupos, procurar força e validação em números. Cooperação aumenta suas chances de sobrevivência e vai fazendo com que as tarefas básicas de procurar recursos e abrigo mais fáceis. Predadores existem aos montes, mas eles não tem tanta vantagem assim se você estiver acompanhado.
E por mais que pareça contraproducente, você começa a imaginar coisas que não estão lá. O que acontece depois da morte? Talvez você seja o primeiro a pensar nisso. Você começa a se preocupar com coisas como enterrar seus mortos não só para esconder a carcaça de predadores, mas começa a colocar objetos junto com os corpos, seja como memória, homenagem ou ajuda no que vai acontecer depois, seja lá o que acontecer depois. Você começa a desconfiar que a luz no céu pode ter uma mente como a sua, que seus antepassados estão por perto, que tem algo a mais que não podemos ver.
Você começa a usar sua curiosidade, um atributo discutível do ponto de vista evolutivo, afinal, te coloca em riscos não obrigatórios. Ela faz com que você comece a perceber padrões e experimentar com combinações diferentes de elementos ao seu redor. Pedras lascadas conseguem trabalhar com materiais muito duros.
Eventualmente, você aprende como utilizar o assustador fogo. Ele serve para gerar luz, calor e transformar alimentos difíceis de mastigar em fontes rápidas e seguras de energia. Ficar ao redor do fogo durante a noite impulsiona sua socialização até a ideia de conversar virar norma. Os seus grunhidos passam a ter significados. Sua comunicação deixa de ser presumida e passa a ser definida.
E você começa a entender a relação entre sementes e plantas. Isso te permite chegar num ponto onde basicamente só algumas formigas tinham chegado antes: agricultura. Mas a sua vai muito além com grande variedade. Em algumas gerações, o conhecimento é acumulado e repassado ao ponto de você e seus companheiros conseguirem se assentar num só lugar. Você e seus animais, cada vez mais domesticados.
O que é muito interessante: você tem um território que pode ser protegido, com acesso aos recursos que precisa. Isso começa a gerar alimentos suficientes para nem todo mundo da tribo precisar focar apenas em caça e coleta, e aí, a complexidade explode com a popularização dos especialistas.
Com o tempo, você aprende a fazer melhor todas as atividades que sua tribo precisa, ao invés de ser capaz de tudo, você é muito capaz em pouco. Sozinho, você pode ser mais fraco que seus antepassados, mas em grupo? Você se vê no topo da cadeia alimentar, sem ter um corpo que demonstre qualquer capacidade de enfrentar outros animais de grande porte. E isso reforça a ideia de que… ideias são o diferencial.
A especialização e o foco em ideias começam a transformar a forma como você trabalha. A primeira coisa que encaixa na sua cabeça é a vantagem mecânica: como usar outros objetos para multiplicar sua força. Alavancas, rodas, rampas e tudo mais que você pode encontrar na natureza ou dedicar seu tempo para fazer.
E para passar essas especializações para a frente, você percebe que os rabiscos usados para se comunicar em paredes de cavernas podem se tornar ainda mais poderosos: a sua comunicação não depende mais da sua presença, você inventou a escrita. Você pode se especializar num nível nunca visto antes e deixar seu conhecimento para as próximas gerações.
E você aprende a lidar com metais, construção de casas, aperfeiçoa a agricultura, criar profissões novas todos os dias. Você aprende a cuidar das dores dos outros, a fazer roupas para protegê-los melhor dos elementos, a construir máquinas que carregam a força dos ventos e das águas para onde você precisa delas.
Cada nova ideia abre um leque interminável de possibilidades. Os sistemas de governo se desenvolvem, tribos se unem, começam a trocar excedentes de produção por especialização e conhecimento. Mais profissões. Alguns começam a se dedicar a ensinar crianças e adultos. Rapidamente, o novo ser humano na cidade é muito mais útil do que os jovens jamais foram. Ele começa mais forte, mais inteligente e mais habilidoso que seus pais na maioria das vezes.
Você se beneficia desse aumento de capacidade todos os dias. A natureza não é mais perigosa que outras pessoas, você vive numa bolha de segurança e fartura em relação aos outros animais. Essas condições te fazem pensar e pensar. Você enxerga a filosofia, a fé, a matemática, a geografia, a história, a química, a física… tudo que começou misturado agora é uma parte bem definida.
E mesmo diante das crises mais avassaladoras, você sempre dá um jeito. Algumas vezes é sorte, mas a sorte só vem para quem está preparado para aproveitar suas oportunidades. Você resiste guerras, fome, doenças… se algo dá muito errado num lugar, outros continuam funcionando. Ao redor do mundo, cada vez mais ocupado por seus semelhantes, sempre tem alguém pensando em algo novo.
Os navios trazem o poder dos ventos para nos levar mais longe, a pólvora torna nosso poder destrutivo em algo incompreensível para os outros animais. Construímos monumentos para nossas ideias. Levamos plantas de um lado para outro do mundo, permitimos que mais e mais povos compartilhem tecnologias.
A matemática te torna preciso. A lógica te faz manter o foco. A religião te inspira. A sociedade te molda da forma mais eficiente para tornar a sociedade mais forte. Você ri e chora com as ideias de outras pessoas. As ideias são impressas em papel e começam a chegar em todos os lugares. Elas são de verdade agora. Você desconfiou que o Sol tinha vontade própria milênios atrás e agora consegue fazer com que ideias sejam objetos.
A sua inteligência explode. Em questão de centenas de anos, você começa a entender que está numa pedra redonda voando livre num espaço muito maior. Você consegue calcular o movimento das outras pedras. Aqui embaixo, você descobre como transformar água em movimento. Vapor! Suas máquinas se tornam poderosas, começam a unir toda a complexidade de vários campos de conhecimento em objetos mais e mais práticos para a vida. Você criou a indústria. Um lugar onde todo o conhecimento e o esforço de milhares de pessoas se une num só objetivo.
Você descobre como voar. O único animal que não foi feito especificamente para voar e consegue o feito. Suas máquinas começam a te transportar para todos os lugares e modificar o mundo do jeito que você imaginar. Você se torna capaz de transformar a natureza em energia elétrica, muito mais fácil de transferir entre locais. Você ilumina suas cidades, muda os horários nos quais o ser humano funciona.
A prosperidade é sem qualquer precedente. E ao mesmo tempo, você descobre que o universo é incontáveis vezes maior do que imaginava, com o seu planeta todo sendo apenas um grão de poeira; e descobre também que existe um mundo minúsculo bem debaixo dos seus olhos.
As doenças são explicáveis! Existiam seres invisíveis ao olho nu. E ao reconhecer esses seres, desenvolvemos tratamentos muito mais eficientes. Você descobriu a penicilina, que destrói as bactérias! Em questão de poucos anos, você salva a vida de quase todo mundo. A expectativa de vida fica muito maior. Passamos por guerras horríveis e decidimos arrumar boa parte dos nossos sistemas de governo para aumentar um pouco a qualidade de vida das pessoas.
E veja só, você consegue. O mundo não fica perfeito, mas é completamente diferente ter direitos e alguma reação contra autocratas. E um mundo mais aberto significa mais comunicação: você começa a trocar ideias e produtos com diversos outros países. É tudo muito rápido. Quando você percebe, é normal pensar em pessoas do outro lado do planeta.
Mas enquanto isso, você preparava mais uma revolução. Uma máquina que… pensava. Um computador que transformava dados da forma como você quisesse. Primeiro gigantesco e sedento por energia, mas a cada iteração da tecnologia, ele se tornava exponencialmente menor e mais capaz. Sem muito alarde, você desenvolve um jeito de transmitir informação na velocidade da luz.
Com a internet, você dá o passo final para a conexão das mentes de bilhões de pessoas, e cria um repositório de conhecimento que acelera mais uma vez o desenvolvimento de novas tecnologias. Essa união de ideias desemboca em computadores capazes de simular o pensamento humano e produzir conteúdos que antes só nós conseguíamos.
Cada vez que você pega o seu celular para ver as últimas atualizações, está se comunicando através de várias camadas de abstração: a máquina na sua mão transforma zeros e uns em imagens, a rede transfere esses dados num emaranhado sem fim de caminhos, por cabo ou pelos ares, até encontrar uma agulha num palheiro há milhares de quilômetros de distância. Tudo isso numa velocidade que nem registra mais na sua mente.
Usando equipamentos que precisam de matéria-prima de vários países diferentes construídos em fábricas complexas basicamente indiferenciáveis de mágica para uma pessoa de poucos séculos atrás. O mundo é organizado e previsível o suficiente para pessoas desenvolverem esses sistemas.
E tudo isso começou com um ser humano pelado no meio do mato. Muitas gerações atrás, mas era você lá. Se você fosse um bebê há uns 70.000 anos atrás, criado por aqueles humanos, não teria nada que reconhecesse como humanidade. No máximo alguma ordem familiar. Sua vida provavelmente seria bem parecida com a de animais selvagens mais inteligentes hoje. E vejam só: sem se tornar outra espécie, o ser humano conseguiu chegar aqui.
A mesma espécie com o mesmo cérebro é praticamente um chimpanzé sem o pacote de milhares de anos de evolução “interna” da humanidade. Imagine só… alguém sem nem conceito de linguagem chegar ao ponto de ler um texto na internet. Muito se brinca com a ideia de voltar ao passado com o conhecimento moderno, mas vejo pouca gente falar sobre como seria estar lá sem esse conhecimento. Você tem alguma ideia de quanto estava faltando para a gente ter qualquer noção de familiaridade com a vida que levamos hoje? Um bicho que subia em árvore para fugir de predador acabou viajando para a Lua.
A natureza é fascinante, mas não podemos nos esquecer: chegamos aqui subvertendo o natural. Desenvolvemos inteligência artificial desde o começo da nossa jornada no planeta, porque a natural não tem nada a ver com o mundo insanamente complexo que criamos. Do ponto de vista do chimpanzé, nós somos a IA fora de controle, a superinteligência incompreensível que mudou todas as regras do que deveria ser.
Isso quer dizer que eu acho que somos criados por inteligências superiores, vulgo deuses ou alienígenas? Não. Não é impossível, mas não é uma conclusão razoável para as informações que temos. O que eu entendo disso é que temos o que temos porque viramos uma esquina fora do roteiro dezenas de milhares de anos atrás e isso acumulou até a aberração natural que somos. O ser humano não evoluiu em comunhão com o planeta, evoluiu virando tudo de ponta-cabeça, distorcendo paisagens e animais de acordo com nossos gostos.
Aquecemos o planeta, enchemos o oceano de microplásticos, extinguimos várias espécies. Não é o mais bonito, mas compare a vida de um humano com a de um orangotango e comece a pensar em quem fez mais com os recursos disponíveis. Não foi à toa. O impulso natural era se alimentar e reproduzir, o resto foi invenção nossa mesmo. Já passamos por várias crises com tecnologia, e não tem muito para onde correr: vamos escapar das próximas assim também. É isso ou acabar.
Não tem volta à natureza, porque a natureza nem tem mais tanta conexão com a gente. Somos macroplásticos. Não vamos dissolver pacificamente na floresta, não era o nosso plano e duvido que vá ser no futuro. Acredito que vamos passando por fases de empolgação e desencanto com a tecnologia, muita gente está numa onda conservadora ou rebelde com o mundo moderno porque a desigualdade social está muito grande.
Mas uma hora ou outra, você vai ter que voltar a querer dobrar esse mundo na marra, com máquinas gigantes e bizarrices que nenhum outro animal jamais pensou. E de verdade, esse me parece o único caminho que funcionou até hoje. E não se engane… funcionou. Você veio pelado e sem saber o conceito de linguagem, está lendo um texto na internet agora.
Esqueceu de falar que, logo no começo, fizemos questão de exterminar os demais hominídeos existentes (afinal, coincidente demais que todos os outros tenham desaparecido há 100 mil anos).
Também em lembrei disto aqui:
Il était une fois… l’Homme – Le Générique: https://www.youtube.com/watch?v=igSecV-wUj4
Deixa ver se eu entendi, Somir: o Homo Sapiens, apesar de ser parte da Natureza, não surgiu para se integrar a ela, mas sim para, ao evoluir, compreendê-la, dominá-la e subvertê-la (pelo menos até certo ponto) conforme seus interesses e necessidades. É isso? Também é curioso notar que justamente a espécie que, a princípio, era a menos fisicamente “apta” a enfrentar predadores munidos de garras, presas, chifres, espinhos e venenos foi a que acabou sendo a dominante no planeta. “Mind over muscle”, né? Ah, e lendo o seu texto, eu me lembrei deste vídeo do Spotniks, cujo link já tinha mostrado aqui antes:
https://www.youtube.com/watch?v=9m7k1x9AetU
Tá, mas a pergunta que ninguém responde é… Por quê?