Skip to main content
Jovem esperança.

Jovem esperança.

| Somir | | 8 comentários em Jovem esperança.

De tempos em tempos surgem artigos e pesquisas sobre como a nova geração não tem muito comprometimento com o trabalho. Jovens que não reclamam, apenas param de trabalhar sem pedir demissão. Que não fazem nada além do mínimo e que não “vestem a camisa” na empresa. Muitos da minha geração e das anteriores dizem que é um problema deles, mas eu vejo diferente.

Tempo de leitura: 10 segundos

Resumo da B.A.: o jovem está perdido e o autor vem passar a mão na cabeça deles com esse papinho comunista!

POWERED BY B.A.

Porque outros artigos e pesquisas demonstram como o ser humano se tornou mais produtivo. O resultado do trabalho do cidadão médio é mais lucrativo para os donos das empresas hoje em dia. E eu sei que isso é resultado dos meios de produção se tornando mais eficientes: computadores, robôs, especializações… todas coisas que não são diretamente dependentes do esforço do funcionário, é que se consegue fazer mais com menos pessoas e menos tempo.

E a renda do cidadão médio não cresceu na proporção da sua produtividade. Esse evolução nos meios de produção concentrou muita riqueza, gerando pessoas excepcionalmente abastadas que podem controlar mais meios de produção e especular com elementos essenciais ao cidadão médio como imóveis.

Como de costume, eu não sou do time conspiração: não me parece um plano de dominação global, mas o resultado é bem parecido. Rumamos a uma distopia oligárquica, com bilionários controlando boa parte do mundo. Se há um funil na produção de valor humana que desemboca direto na conta de poucos, isso começa a acumular e tornar mais fácil ainda essa concentração de renda. Dinheiro gosta de dinheiro.

Então, se o jovem não está com vontade de se esforçar por uma empresa que não é dele, não tem nada de estranho aqui: é a conclusão óbvia de um sistema viciado. A maioria das pessoas não fica pensando nos rumos da sociedade moderna, só reagem ao ambiente de acordo com seus interesses.

Se você sabe que esforço não vai gerar resultados decentes, como se motivar? Não precisa de uma análise profunda para perceber isso. O jovem está menos comprometido com o mercado de trabalho porque o mercado de trabalho já não é tão interessante assim. Um emprego há 50 anos atrás é bem diferente de um emprego hoje. Não só perde-se muita estabilidade, como também os objetivos de vida ficam mais distantes.

Economizar 10 anos para comprar uma casa e economizar 50 anos para comprar uma casa são realidades absurdamente diferentes. O ser humano não funciona com metas tão distantes assim. Não há motivação real para o jovem, não há percepção clara de resultado para o esforço. Então é óbvio que ele não se esforça.

Vejo muita conversa sobre o estado mental desse novo trabalhador desmotivado, mas pouco sobre como as recompensas praticamente acabaram. Quando o incel diz que nem mulher consegue mais com o seu dinheiro, tem um fundo de verdade: embora relacionamentos não sejam baseados em dinheiro, até para formar um casal tem que ter uma previsão de construção de vida. Podemos falar sobre geração mimada, sobre vício em telas, sobre degeneração social… mas o elefante na sala continua o mesmo: se você precisa da renda de duas pessoas comprometida por várias décadas para ter uma casa, não é mais o mesmo mundo que gerou essas expectativas nas pessoas.

A pessoa chega na vida adulta, vê o preço das coisas e percebe que foi enganada. O mundo moderno tem um problema sério de salário. A ideia era criar uma renda para as pessoas consumirem e tocarem sua vida mais ou menos livres. Então a renda tem que ser compatível com esse objetivo.

Eu argumento que ao redor do mundo as pessoas estão ganhando umas cinco vezes menos dinheiro do que deveriam pelo seu trabalho. Não é uma questão de negociar um aumento ou outro, é um problema fundamental da nossa economia: não faz sentido trabalhar pela mixaria que pagam para a maioria das funções, não faz sentido pagar salários altos com as margens de lucro da maioria das empresas.

A economia moderna faz sentido para o Elon Musk e o Jeff Bezos. Eles conseguem alavancar seus recursos para criar muito valor numa escala de tempo que faz sentido para uma pessoa. A economia moderna não faz sentido para quem não está nesse patamar de poder e riqueza.

E é isso que o jovem sente. Pode até não saber articular, mas toda vez que faz as contas de quanto ganha e quanto precisa ganhar, a ideia é reforçada. Você pode acreditar que tem uma geração mais preguiçosa e irresponsável chegando no mercado de trabalho e ao mesmo tempo entender que isso é justificável. Eu fico puto porque o zoomer não cumpre seus prazos e some sem avisar e ao mesmo tempo sei que ele não está perdendo tanto assim com a oportunidade que eu estou dando para ele, financeiramente.

Sim, eu acho importante pagar o máximo possível para quem trabalha comigo, mas o máximo possível ainda sim é uma merda. É uma merda para mim também. Percebam que não é uma reclamação sobre o meu trabalho específico ser valorizado, é sobre a ideia de remuneração vigente na sociedade. Eu ganho menos do que deveria para estar engajado de verdade na sociedade, o gari também.

É fundamental. O comportamento do jovem é resposta direta ao ambiente no qual eles foram criados. Tem a culpa dos pais, que permitiram que seus focos de atenção e tolerância ao tédio desaparecessem, mas é a realidade que o trabalho simplesmente não compensa da mesma forma que compensava em gerações passadas. Tudo que perde valor é menos… valorizado.

Podemos resolver isso multiplicando os salários por 5? Sim em tese, não na prática. Economia é um sistema interligado, evidente que todos os preços subiriam 5 vezes. A minha reclamação aqui não é por uma lei que force todo mundo a pagar mais, é burrice fazer dessa forma. A quantidade de valor na mão do cidadão médio precisava aumentar consideravelmente para termos qualquer chance de recuperar a vontade honesta do jovem contribuir.

A solução para muita gente é empreender. Eu fiz isso porque não queria chefe (me fodi, porque agora tenho vários, cada cliente é um), mas hoje pensam em ter suas próprias fontes de renda porque trabalhar para os outros não paga o suficiente… e vai muito além de dinheiro, não paga o suficiente em projeto de vida.

Porque mesmo que o trabalho autônomo não seja garantia de bons rendimentos, no mínimo ele mantém viva uma esperança de chegar em algum lugar. É claro que a pessoa prefere ser Uber do que engenheira, um emprego mantém suas oportunidades em aberto, o outro te esconde do mundo num trabalho que raramente vai desembocar num padrão de vida muito melhor.

O meu ponto aqui é que não é só pagar mais ou condicionar o zoomer a ser mais responsável, é que não estão dando esperança para ele. A esperança no mercado tradicional foi engolida pela inflação e pela especulação, ela existe mais no fuckin’ Jogo do Tigrinho do que num diploma de curso superior. A crise é de esperança.

O ser humano aguenta muita pancada se tiver um sonho. Se você tira o sonho do jovem, ele é bem inútil. O jovem paga sua inexperiência com energia, se ele não sente nada que o faça usar essa energia, dá no que estamos vendo: gente cada vez mais inútil no ambiente de trabalho. Não sabe o que fazer e não quer aprender.

Tanto que eu começo a pensar que talvez a única coisa segurando um colapso ainda maior seja a ideia de ganhar dinheiro na internet, seja como influencer, apostador, especulador de criptomoedas… é alguma coisa para sonhar. E o sonho é baseado numa expectativa de conseguir sucesso numa faixa de tempo razoável. Eu disse que comprar uma casa em 10 anos e em 50 são coisas completamente diferentes, e é por isso.

O sonho tem que caber na mente da pessoa. O cérebro nem foi feito para planejar a vida tanto tempo assim no futuro. Ele não vai te recompensar com nada se o seu plano depender de trabalhar que nem um burro de carga para ter alguma felicidade na velhice. Repito, a crise é de esperança.

Dê esperança para o jovem e ele vai vestir a camisa, vai se esforçar. Vai ter elementos de personalidade diferentes de gerações anteriores, porque isso sempre acontece, mas nada que muda a natureza do ser humano. O nosso sistema econômico está viciado em acúmulo de dinheiro na mão de poucas pessoas, não é algo que se resolva rapidamente. E não adianta mentir para o jovem dizendo que se ele se esforçar no trabalho vai dar certo, ele vive no mesmo mundo que a gente.

Nesse meio tempo, enquanto a gente não consegue derrubar os populistas de esquerda e direita que vivem nos bolsos de bilionários, podemos tentar entregar mais esperança para os jovens. Não com planos de 50 anos para se aposentar de forma confortável, mas com planos de participação no crescimento de empresas que os façam pelo menos sonhar com alguma coisa concreta na vida enquanto são jovens. A gente oferecia empregos estáveis em décadas passadas porque eles tinham a capacidade de manter um sonho vivo.

Acabou. Pode demorar mais muitas décadas para sairmos desse sistema que paga tão pouco por tanta produtividade, enquanto as coisas não melhoram, a única forma de manter as novas gerações engajadas no mundo real é permitir algum sonho.

O seu zoomer incompetente não precisa de sofrimento para aprender a ser um bom trabalhador, ele precisa de esperança. É isso que eles perderam. Muitas promessas (que você pode cumprir) num período de tempo razoável (máximo uma década) são o suficiente para manter esse povo produtivo. Sim, a responsabilidade é dos mais velhos que estão contratando-os.

Só faltava querer botar nas costas de um bando de moleques a responsabilidade pela sociedade que nós estamos tocando até agora, né? Não tem atalho, tem que cuidar do jovem, porque ele está reagindo exatamente como se esperaria de alguém que começasse agora na sociedade em que vivemos. É culpa da criança que os pais não conseguem viajar nas férias? Claro que não.

Eu reclamo do jovem porque é um passatempo divertido para quem fica mais velho, mas não dessa parte. Essa parte não foram eles que criaram, foi a gente que deixou um mundo sem esperança para eles. O zoomer pode ser um péssimo profissional, mas eu provavelmente seria também se tivesse nascido na mesma época que eles.

Bata neles por tudo, menos pela falta de esperança.


Comments (8)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: