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Insanidade Temporária do Viajante

Insanidade Temporária do Viajante

| Sally | | 18 comentários em Insanidade Temporária do Viajante

Existe um fenômeno fascinante que pude perceber tanto no meu povo, como no povo de vocês: um surto de falta de educação quando saem de férias. É assustadoramente comum ver brasileiros e argentinos passando vergonha quando viajam a descanso. Se transformam, parecem possuídos, se tornam pessoas odiosas. Eu chamo de Insanidade Temporária do Viajante, mas é apenas um nome que eu dei.

Tempo de leitura: 15 minutos

Resumo da B.A.: é só bobagem esse texto, umas frescuras implicando com coisa que todo mundo faz quando viaja. É normal pô!

POWERED BY B.A.

E não estou falando de diferenças culturais que fazem a pessoa parecer sem educação. Estou falando de falta de educação genuína. Estou falando de pessoas em tese bem-educadas, que provavelmente não fariam nada daquilo em suas casas, em seus bairros, sob olhar dos seus vizinhos, mas se transformam em monstros sem noções básicas de convivência e civilidade quando viajam.

E não é por desconhecer as normas. São pessoas que sabem muito bem que não se deve falar aos berros, que não se devem roubar objetos e que não se deve urinar no chão. Ainda assim, o fazem quando estão longe da sua casa. Não sei que disritmia cerebral é essa que ataca o viajante, mas é feio demais.

Eu não tenho a menor ideia das razões que levam a isso, e, francamente, se a psicologia e zé ninguém, a arriscar um palpite. Quero apenas falar das faltas de educação mais recorrentes para que você, leitor, se policie e se corrija caso sofra desse surto quando se afastar de casa.

Vamos começar falando do mal-educado arrogante. Aquele turista que se acha o ser mais importante do planeta e não admite se contrariado, trata mal os outros e reage pior ainda quando alguém tenta lhe colocar limites.

Já vi pessoas respeitosas em seu habitat natural que, basta subir em um avião, começam a se incomodar e se ofender com restrições e ordens da tripulação. Parecem achar um desaforo que lhe coloquem regras. Não sei se é uma sensação de injustiça por estar pagando caro uma passagem e a falsa sensação de que quando se paga tanto dinheiro você pode fazer o que quiser ou se é algum tipo de efeito físico da altitude. O ponto é: cada vez mais comum ver uma pessoa supostamente sã despirocando em um avião.

E essa síndrome de grandeza e importância pode continuar quando chegam ao seu destino. Exigem ser atendidos imediatamente, não admitem fazer filas e chegam ao absurdo de não aprender o idioma local, falando apenas o seu, e reclamar que os nativos locais não o compreendem, taxando-os de burros ou coisa pior. E ai de quem repreender, chamar a atenção ou reclamar, esses turistas costumam ficar superagressivos.

É bastante irracional pensar que todo um país deve aprender o seu idioma assim, caso um dia Vossa Majestade decida visitá-los por 15 dias, as pessoas podem melhor atendê-lo. Não acredito que uma pessoa minimamente adequada à sociedade pense assim. Mas, vira alguma chave no cérebro e as demandas absurdas se instauram.

Temos ainda a pessoa que perde a noção de certo e errado. Ela furta coisas, ela alimenta animais onde não pode, ela tira foto onde é proibido, ela mete a mão em obras de arte. Por estar longe do seu país, ela se sente em uma terra sem lei. Ao contrário do anterior, não é por arrogância. Ela não pensa na proibição e diz “Eu sou mais importante que o resto, eu não vou me sujeitar a isso”. Ela pensa na proibição e diz “Isso é besteira” e quebra a regra.

É como se a pessoa perdesse o parâmetro de certo e errado. Essa linha fica nublada e ela não vê problema em fazer nada do que faz. Não é uma escolha infringir a lei, as normas ou as regras de civilidade, a pessoa simplesmente não consegue ver o quão errado é o que ela está fazendo. É como se ao desligar o modo “trabalho” por causa das férias, também desligasse o modo “cumprimento de normas”.

Esta semana vi uma notícia sobre um infeliz que resolveu tomar banho na Fontana di Trevi em Roma. Se você não sabe o que é, clica nesta foto. É uma fonte repleta de esculturas de valor incalculável, enorme, que vive cheia de gente tirando foto. Imagina o grau de confusão mental que uma pessoa tem que ter para ver isso e achar que ela, só ela, é merecedora de entrar na água?

Mesmo sem más-intenções, esse tipo de turista pode ser muito destrutivo. Imagina o que aconteceria se cada turista pegasse uma plantinha do lugar que visita. A pessoa acha que é ok só ela fazer, perde a noção de coletividade, de respeito, de adequação.

Eu só torço para que esse devaneio passe antes dessas pessoas embarcarem de volta para suas casas, pois aeroportos, controles de fronteiras e Polícia Federal não ligam a mínima para sua insanidade temporária. Já vi gente saindo algemada por tentar embarcar uma mudinha de planta que queria levar para o seu país. Uma hora o limite chega.

Temos ainda o tipo que não destrói nada, mas se comporta sem limites. Tira a roupa, canta alto, bota o pé na mesa, bebe até cair. São pessoas que não fariam isso em suas casas, mas parece que todo e qualquer senso de repressão fica em seu país natal.

Gritam, fazem piada com a aparência física dos outros, beliscam a comida do prato dos outros, se comportam como verdadeiros lunáticos. Não parece haver gradação entre relaxar e se soltar um pouco por estar de férias e se comportar como um completo símio sem regras.

O mais triste é que geralmente não são muito bons nas coisas que decidem fazer. Os que pior cantam são os que sobem em um palco e arrancam o microfone da mão do vocalista da banda que cantava música ao vivo. Os que pior dançam são os que puxam pessoas aleatórias para dançar. O semancol entra em coma e a pessoa perde qualquer sendo mínimo de repressão.

Temos ainda o turista destemido, aquele que perde completamente o senso de perigo. Ele não dá vexame nem importuna os outros, como os anteriores, mas seu psicológico parece bloquear qualquer instinto de autopreservação e a pessoa perder a noção do que é perigoso e do que não é. Eu não acho que a pessoa queira desafiar a morte, ela realmente acha que nada vai acontecer.

Aí vai mergulhar com tubarões, pula se penhasco em direção ao mar sem saber se tem pedras debaixo d’água, vai fazer tour por favela, experimenta um comprimido que um completo estranho deu a ele em uma festa. Salvo uma grande sorte, isso acaba no necrotério, no hospital ou na prisão.

É a pessoa que não segue as instruções de segurança em um safári e estica a mão para encostar em um predador. É a pessoa que quer escalar uma montanha muito acima da sua capacidade física do dia para a noite. É a pessoa que fica torrando 10 horas ao sol sem passar protetor solar ou se hidratar corretamente. É a pessoa que não coloca colete salva-vidas em um barco pois ela sabe nadar. Parece que ao desligar o senso de responsabilidade profissional dá um bug no cérebro e ele desliga qualquer senso de responsabilidade.

No Rio de Janeiro tinha muito desse tipo. Turista que se mete a nadar no mar do Rio de Janeiro, a menos que seja um exímio nadador, está com parte do cérebro comprometida. Temporada de férias o helicóptero de salvamento trabalha o dia todo pescando os idiotas irresponsáveis com aquela redinha. São recebidos com aplausos debochados na areia.

Agora falemos do Turista Instagram, aquele cujo único propósito parece ser conseguir fotos e vídeos instagramáveis do local. Ele não parece querer viver a experiência, conhecer a cultura ou se divertir, sua meta é coletar material que fique bonito em fotos e vídeos. E, para isso, meus queridos, ele pode se tornar todos os outros acima.

Pode ter um surto de raiva se algum lugar o proíbe de filmar ou tirar foto. Pode se colocar em risco por uma foto perfeita (toda semana a gente vê um caso assim na coluna A Semana Desfavor!), pode desrespeitar pessoas e cultura e fazer todo tipo de atrocidade. Se sua viagem não culminar em belas fotos e vídeos, ela não terá valido nada.

Eu já vi pessoas em restaurante que decidiram não escolher prato pelo sabor e sim pela estética, perguntando ao garçom qual ficaria mais bonito em uma foto. Já vi gente pendurada de penhasco, de trem, de janela de hotel para conseguir uma “boa” foto para redes sociais.

São pessoas que fazem Story de tudo que fazem, não tem um minuto de quietude para vivenciar aquilo. Assistem a show, pôr do sol ou o que quer que seja pelas lentes do celular. O importante é documentar do jeito certo para ganhar muitos likes, a viagem em si acaba se tornando secundária. Não são viajantes, são coletores de material audiovisual. Meus pêsames para quem viaja com esse tipo de turista chato e fútil.

Temos também o turista sexual, aquele que faz da sua viagem uma empreitada para fazer sexo. Conhecer lugares, culturas e comidas é secundário, ele mira em sexo o tempo todo e tem orgulho disso. Pode ser com funcionário do hotel, com nativo local ou com outro turista, não importa, a prioridade é sexo.

E fazem questão de dizer ao mundo que querem sexo, que só pensam em sexo, que sexo é muito importante e indispensável para que uma viagem seja boa. É quase uma obsessão. A pessoa acha bonito ser monotemática. Homem se acha muito macho e pegador e mulher acha que esse postura pseudo-ninfomaníaca é muito sexy aos olhos dos homens. Não e não. Todos fazem papel de idiotas.

O curioso é que não são assim em seu país natal. Por algum motivo o cérebro abraça a crença de que sem sexo não há diversão e a pessoa foca nisso. E muitas vezes a pessoa cruza algumas linhas para conseguir o que quer, com comportamentos libidinosos que podem ser, na melhor das hipóteses, ofensivos e na pior crimes.

Por fim, temos o turista que odeia o hotel. É o turista que se comporta bem na cidade que visita, mas quando chega no hotel vira o ser mais mal-educado, golpista e abusado do planeta. Ele parece ressentido por estar pagando aquele hotel e está disposto a reaver seu dinheiro, seja dando extra trabalho, seja com bens.

Ele limpa a bunda com a toalha branca, pega comida do café da manhã e guarda em saquinhos, deixa o quarto um lixo e faz todo tipo de atrocidade pois ele “está pagando” e vai fazer valer ao máximo o seu dinheiro. Parece que esquece que nesse hotel trabalham pessoas, que são filhas de alguém, que são mãe de alguém, que são seres humanos que não tem por que subir em escada para pegar a camisinha que ele jogou no lustre.

Essa ideia de se exceder por “estar pagando” é uma mentalidade muito ruim. Se estou pagando pelo bufê vou comer até passar mal. Se estou pagando pela limpeza do quarto vou fazer a maior bagunça possível. Se estou pagando pela piscina vou usar ela o máximo que puder. Em vez de se preocupar em curtir a viagem e fazer o que tem vontade, a pessoa parece focada em dar prejuízo ao hotel.

E às vezes dá. Leva tudo que pode quando vai embora. O que é brinde e o que não é. Potinho de shampoo e condicionador é só o começo. Já vi gente levar roupão, toalha e até lâmpada que tirou do abajur. Uma vergonha. Ninguém colocou uma arma na cabeça da pessoa e a obrigou a pagar aquele hotel, se ela achou caro, poderia ir a outro. Ir ao hotel e ficar tentando recuperar o dinheiro levando itens é o cúmulo da pobreza de espírito.

Certamente existem muitos outros tipos de turistas inconvenientes, e vamos adorar ouvir mais sobre eles nos comentários, mas, não importa quantos existam, a mensagem deste texto é: não seja um deles.

Quando estiver viajando e resolver fazer algo, se pergunte se você faria isso na sua casa, no seu bairro, na frente dos seus amigos, vizinhos, familiares. É algo que você encorajaria seus filhos a fazerem? É algo que você acharia aceitável se um turista fizesse na frente da sua família? Se a resposta a qualquer dessas proposições for “não”, sufoca a vontade e não faça. Você está tomado pela insanidade temporária do viajante, lute contra ela.

Suponho que todos nós estejamos sujeitos a essa Insanidade Temporária do Viajante, que nos faz perder algo dos padrões, do bom-senso e da educação. Mas, somos racionais e podemos nos observar e ajustar nosso comportamento para ser turistas agradáveis, educados e civilizados.

Reparem em vocês mesmos quando viajarem. Sejamos melhores.


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