
Guerra política futura.
| Somir | Des Cult | 8 comentários em Guerra política futura.
Eu gosto de ler livros e ver vídeos sobre Warhammer 40K, um jogo de tabuleiro bem nerd, simulação de guerra com bonecos coloridos. O curioso é que eu nunca joguei o jogo e francamente, tenho zero interesse em jogar. Toda a graça para mim está na história por trás do jogo. Porque ela é um poço sem fim de complexidade e contradições, além de um prato cheio para quem quer politizar as coisas.
Tempo de leitura: 40 mil anos
Resumo da B.A.: se os lacradores não gostam deve ser bom, eu prefiro fazer sexo do que acompanhar essas coisas, mas se votar na direita eu topo, tá okay?
Eu estou prevendo que a história vai ganhar mais e mais popularidade com o passar dos anos, porque é uma das franquias mais maduras para virar série ou filme que ainda não foi explorada pela mídia americana. Com a fama atual, já causa algumas discussões na internet, pode ficar muito maior, e quando eventualmente chegar no Brasil, você já vai ter alguma noção do que está acontecendo, e se possível, ignorar mais uma isca jogada pela guerra cultural moderna.
Para entender sobre o que estou falando: a grande sacada do pessoal que criou o jogo foi caprichar no “lore”, que é uma palavra do inglês que se traduz como tradição ou conhecimento, mas que no contexto usado na língua original quer dizer “o conjunto de informações sobre um mundo imaginário onde acontece uma história”. Enquanto faziam as caixas do jogo, os bonecos e os livros de regras, começaram a publicar muitos livros, contos e artigos explicando a história do mundo onde o jogo se passava.
Décadas depois, Warhammer 40K tem centenas de livros publicados (todos esgotados de tanto vender) sobre personagens e facções da história. Tem todo um ecossistema de produtores de conteúdo que só falam disso, porque existem pessoas como eu: que não ligam para o jogo, mas ficaram fascinadas pelas histórias por trás dele. E eu acredito que os fãs da história que consomem livros, vídeos e todo tipo de conteúdo baseado no lore já é bem maior que o de jogadores.
E qual é a história? Bom, eu acabei de dizer que são centenas de livros, 462 e contando. Impossível te dar uma noção completa da coisa em um ou cinquenta textos aqui… mas eu posso te adiantar alguns pontos de pressão que são politizados e tendem a vir para o fronte da guerra cultural.
O 40K no título significa o tempo em que acontece a história: 40 mil anos no futuro. A humanidade é um das maiores forças da galáxia, se autoproclamando O Império. Convivemos com raças alienígenas poderosas e numerosas por todos os lados, e por convivemos eu quero dizer travamos guerras.
“No distante, escuro futuro… Só há guerra.”
Essa é o slogan da história. Nesse futuro, a humanidade, apesar de ter população na casa dos quintilhões e estar espalhada por toda a galáxia, vive num estado de regressão tecnológica e social, comandada por uma teocracia baseada na figura do Imperador da Humanidade, um grande líder supostamente imortal que está apodrecendo num trono dourado na Terra, e que foi alçado à posição de deus único dos humanos.
A maioria desses incontáveis humanos vive em condições precárias, em cidades superpopulosas, poluídas e violentas, comandadas por nobres corruptos sem nenhuma ilusão de democracia ou direitos. A humanidade está numa espécie de economia de guerra, produzindo armas e munições sem parar há mais de 10 mil anos.
O Imperador da Humanidade, que só tem esse nome, foi um líder militar poderoso que reunificou a humanidade depois que uma rebelião das inteligências artificiais destruiu boa parte da humanidade. Antes de enfrentar os “homens de ferro”, a espécie vivia sua Era de Ouro, com tecnologia e poder sem rivais na Via Láctea.
O Imperador apareceu durante a fase mais desesperadora da história humana, com tudo em frangalhos depois de uma vitória discutível contra as IAs: elas sumiram, mas a humanidade estava destruída além da capacidade de recuperação. Quando o Imperador consegue unificar as tribos de uma Terra pós-apocalíptica, avança para reconquistar os planetas perdidos.
E por alguns milhares de anos (o Imperador é imortal) ele consegue recuperar boa parte do poder humano. Até que um de seus filhos o trai (essa história sozinha tem uns 50 livros), na batalha ele é ferido mortalmente e colocado numa máquina especial de suporte a vida que também protege a Terra da invasão de demônios (pois é, tem isso).
O Imperador é um morto-vivo num trono dourado, e a humanidade o venera como um deus, sem conseguir se comunicar com ele de verdade. Sim, tem toda a parte dos demônios, que não são demônios de religião e sim manifestações de sentimentos extremamente poderosos que vivem num universo paralelo… mas como eu disse, cinquenta textos para eu arranhar o que é a história. Eu pulei basicamente tudo para só te falar da parte política da coisa.
Porque é nessa parte que a confusão mais grave sobre a obra acontece. Por causa do Imperador da Humanidade e a mentalidade obsessiva sobre guerras, tem toda essa pegada de poder absoluto e vitória pela violência. Muitos acusam Warhammer 40K de ser glorificação de autoritarismo, conectando-o com tendências fascistas nos seus fãs.
Não ajuda nada as inspirações óbvias no Império Romano, com basicamente tudo humano sendo baseado nisso, inclusive a língua oficial do império, que é basicamente latim. Num resumo porco, são as aventuras de César com robôs no espaço. Essa linguagem, inclusive a visual, não valoriza sentimentos, amor ou liberdade de ser quem é, só há guerra. Quem é bom de guerra sobrevive, quem não é sofre.
Então, sim, tem esse jeitão masculinidade tóxica com doses cavalares de autoritarismo. O ambiente da história valoriza força e foco acima de tudo. Mas se fosse só isso, eu não teria achado tanta graça. E o que os críticos do Warhammer 40K não costumam perceber é que por trás de toda essa história de violência, tem um cinismo crítico enorme.
A história foi desenvolvida por ex-hippies e Geração X entre os anos 70 e 80, gente que plantou várias sementes de rebeldia contra o sistema e deboche das estruturas de poder. O Império é caótico, um pesadelo burocrático kafkaesco que só se importa de verdade com explodir a cabeça de alienígenas. As pessoas vivem muito mal, a desigualdade é absurda, a mão de ferro dos líderes esmaga mais o povo do que os inimigos na maioria das vezes.
Estão descrevendo um poder disfuncional, estão criticando severamente a ideia de ter um deus imperador, e ainda tirando sarro de religião, porque nessa história Deus está funcionalmente morto. A ideia de passar mais de dez mil anos em guerra contra a galáxia toda é um pesadelo. Mas como é uma história que não foi escrita pelo povo de Hollywood, não ficam fazendo palestrinha de cinco em cinco minutos, você percebe o horror pelo contexto.
Sim, as descrições das batalhas e os feitos de heroísmo criam personagens carismáticas mesmo que sejam basicamente psicopatas gigantes armados até os dentes. Tem sutileza: são uns bárbaros posando de iluminados, defendem um sistema opressivo, mas na hora de sair na porrada contra uma horda de alienígenas carnívoros, eles brilham. Porque independentemente da sua afiliação política, tem uma graça universal ser ou ter um guerreiro poderoso.
Ser fã da história não tem nada a ver com sonhar com um Imperador da Humanidade na vida real, é interessante acompanhar uma série de livros basicamente infinita falando de um futuro terrível onde a esperança está moribunda. São centenas de personagens que entregam diversão para quem só quer uma história de ação e para quem quer pensar na sociedade humana através da ficção.
Pode ser tão simplório quanto uma criança batendo dois bonequinhos de super soldados um contra o outro e pode ser uma análise profunda sobre como uma sociedade pode apodrecer debaixo de uma teocracia corrupta. Em Warhammer 40K, a humanidade está perdendo. Alienígenas atacam de todos os lados, demônios tentam invadir a mente de todo mundo, disputas internas enfraquecem o sistema… quem acompanha a história e entende uma glorificação do autoritarismo não entendeu nada.
O Imperador da Humanidade é considerado a personagem principal da história, e faz parte da brincadeira interna entre os fãs falar sobre ele como as pessoas são obrigadas a falar dele dentro da história. A religião do império é compulsória, todo mundo sofre lavagem cerebral desde a infância para adorar o Imperador acima de tudo, heresia é crime com pena de morte e uma das facções mais poderosas do Império é literalmente chamada de Inquisição. E algo da história que não é aparente para quem começa a acompanhar: o Imperador era um ateu raivoso, literalmente matou todo mundo que não quis abandonar religião sob seu comando. Ele queimava igrejas e executava sacerdotes.
A ironia da história é justamente essa: a pessoa que queria proibir religião na galáxia toda acabou adorada como um deus. Os planos de iluminação dele foram por água abaixo, tornando o seu Império num inferno teocrático sem fim. A história fala muito sobre ídolos, santos, pegando bastante inspiração no catolicismo com uma religião centralizada. Como não é nada esfregado na cara do leitor dizendo que religião é ruim, tem gente que acha que Warhammer 40K é uma defesa da direita religiosa moderna. É tudo menos isso. A humanidade só piorou com religião. As pessoas dentro da história não tem contexto para pensar diferente.
Quanto mais essa história for se popularizando, mais vamos ver gente entendendo-a errado: seja a turma que vai ignorar a crítica e ver ali glorificação da extrema-direita religiosa, seja a turma que vai ignorar a crítica achando que realmente a solução é ter um Imperador da Humanidade.
A minha impressão é que se Robocop saísse hoje, as pessoas iam se dividir entre ver defesa de violência policial ou ódio pelo capitalismo. Parece que não se pode mais confiar no público para entender alguma coisa sem deixar explícito com panfletagem. Como Warhammer 40K vem de um tempo em que deixavam as pessoas perceberem sozinhas o que é a história, pode ser que gere bastante discussão, especialmente entre lacradores (de esquerda ou direita) em redes sociais.
E se você for pego no meio desse tiroteio um dia desses, nem se dê ao trabalho, só discute isso quem não sabe nada sobre a história. A crítica é bem óbvia quando você começa a se aprofundar; e sim, é toxicamente nerd e masculino, zero romance em mais de 400 livros, e as únicas mulheres que lutam são freiras do Imperador (e nós fãs gostamos delas). Ninguém transa, só se espanca. Acho que até por isso os zoomers estão gostando mais e mais da história.
Seja como for, fica a dica se você quer subir de nível nerd. E se não quiser, só se lembrar que é “puta crítica social foda, mêo”, e nada de glorificação de autoritarismo.
“Parece que não se pode mais confiar no público para entender alguma coisa sem deixar explícito com panfletagem”. Não “parece”, não, Somir. Temo que, hoje em dia, seja realmente assim. Não conseguir enxergar a profundidade de nada e adorar ou odiar coisas e pessoas – reais ou fictícios – baseados apenas em percepções rasas e superficiais impregnadas de visões de mundo ideologizadas, infelizmente, é uma das “especialidades da casa” nos nossos tempos.
Arch fan spotted…
Pra ser algo numa vibe de Game Of Thrones e isso numa hipótese bem otimista? #SemTempoIrmão
Já assistiu Tropas Estrelares (ou conhece o jogo Helldivers)? Eleva à décima potência a vibe totalitária.
Eu sou fã do Verhoeven! Não à toa falei do Robocop no texto. Mas sim, esse filme tem muito da pegada do Warhammer 40K, mas com o sarcasmo muito mais explícito. O Helldivers eu nunca joguei, vou dar uma olhada.
Não preciso dizer mas… Evite engajar demais com os jogadores. Assim como quando saiu o filme Tropas Estrelares, maioria é tapada demais pra perceber a mensagem (sutil igual um elefante).
(…) “Maioria é tapada demais pra perceber a mensagem (sutil igual um elefante).” Fiquei até triste por ler isso…
Tem coisas parecidas com o Game of Thrones sim. Mas ao invés de 5 livros, são quase 500. Por isso tem coisas parecidas com quase todas as séries de ficção e fantasia existentes…