
Jeitinho argentino – Parte 3
| Sally | Des Cult | 20 comentários em Jeitinho argentino – Parte 3
Agora que não tem mais nome bizarro de candidato para avaliar, nos sobra tempo para mimos como esta coluna! Voltamos a analisar a fascinante cultura argentina!
Como nas outras postagens perguntaram sobre o posicionamento do argentino em questões sensíveis, politicamente corretas e envolvendo minorias, hoje vamos dar um rápido passeio por esse tema.
Não custa lembrar que somos todos amigos e a intenção aqui não é ofender ninguém, apenas expor a cultura do país. Talvez você discorde, talvez você não goste, mas tente lembrar que a sua cultura não é a universalmente correta, cada país estabelece seus limites do que é aceitável ou não.
E tudo é aceitável na Argentina, como as outras postagens já demonstraram. Inclusive quando envolve o próprio argentino. Nenhum povo se autodeprecia com a excelência que nós fazemos. Então, tenha em mente: nada pessoal, nada pejorativo, é sempre um humor muito incompreendido, aplicado a tudo e todos.
Acho que depois de diversas postagens introdutórias explicando sobre nosso mindset peculiar, vocês já estão prontos para adentrar em temas um pouco mais pesados. A conferir nos comentários.
QUESTÃO DE GÊNERO
“Temos arruda macho, fêmea e travesti”
Ruda, para quem não sabe, é uma planta, equivalente à arruda no Brasil. Vamos contextualizar: esta pérola foi confeccionada em um momento que uma militância minoritária começou a reclamar da dualidade de gêneros, dizendo que era ofensivo ter classificações de “feminino” e “masculino”, por exemplo, em banheiros públicos.
A arruda de fato tem macho e fêmea (são diferentes até na aparência) e é importante sinalizar para quem vai comprar se você está vendendo uma planta macho ou fêmea. Era a oportunidade que este argentino médio precisava para atender ao pedido da militância e não se limitar à polaridade de gênero.
Acabou sendo ainda mais ofensivo, pois ele se referiu à arruda como “travesti”? Sim. Isso torna essa foto ainda melhor? Sim. Dentro da sua simplicidade, nosso amigo fez uma crítica profunda: às vezes, sobretudo quando o foco é na anatomia, são só dois gêneros mesmo.
GORDOFOBIA
“Sim, temos todos os tamanhos (de roupa)
Desde tamanho Barbie
Até tamanho Barney
Pode entrar”
Muito se fala de racismo (calma, vamos chegar lá), mas, na minha opinião, quem mais sofre na Argentina é gente acima do peso. E se você for mulher e pesar mais do que uma saca de arroz, está acima do peso. O padrão de corpo é magérrimo e não há tolerância alguma, ou você é magra, ou você não é atraente.
Dito isso, é um diferencial para uma loja ter tamanhos que sejam um pouquinho maiores que o PP. Então, este comerciante, na melhor das intenções, quis expor esse diferencial. Se expressou da melhor forma? Talvez não, mas eu te garanto que quase todo mundo que leu riu.
Ele explicita que tem tamanhos que vão desde Barbie (a boneca) até Barney (o dinossauro roxo). Se quem tem o shape do Barney se ofendesse com isso, esse cartaz afastaria clientes e certamente não seria deixado na porta do estabelecimento. Gordo, na Argentina, está ciente de que o esculacho é parte inerente da sua vida.
FEMINISMO
“Promoção
Muzzarela Wanda
Para comer entre amigos”
Contexto: o cartaz se refere a Wanda Nara, uma subcelebridade argentina que ficou conhecida por se casar com o jogador da Seleção Argentina Maxi López e teria traído/trocado ele pelo também jogador da Seleção Argentina Mauri Icardi, que, por acaso, era amigo de Maxi Lópes.
Como qualquer coisa envolvendo a Seleção Argentina é de extrema importância para o país, a fofoca virou assunto e os objetos da fofoca viraram motivo de piada em qualquer oportunidade disponível. Não apenas Wanda, mas os dois rapazes também.
Uma mulher deve ter o direito de se relacionar com os homens que quiser? Sim. Mas na Argentina, ela que aguente a piada. E fariam piada se fosse o contrário também. No caso, fizeram piadas até mais pesadas com os dois homens envolvidos, chamando, entre outras coisas, um de corno e o outro de comedor de restos. Então, nada pessoal contra mulheres, todos os envolvidos foram alvo do humor peculiar argentino.
UNIVERSO TRANS
“Me identifico como PAREDE
Por favor, use a outra porta”
Aqui também se deu em resposta a uma entrevista com militantes que viralizou, na qual eles afirmavam que todos tem que ser tratados como aquilo que se identificam. O argentino achou bastante graça e fez piada nesse estilo (ainda faz) a torto e a direito, por exemplo, trocando os cartazes das frutas nos mercados, escrevendo “Me identifico como Morango” no caixote de maçãs e cobrando o valor de morango por maçãs (muito mais caro), fazendo com que nenhum cliente pegue as maçãs daquela prateleira.
Aqui era uma mera questão de interdição temporária, essa porta estava indisponível para o uso. Isso poderia ser sinalizado da forma convencional, mas não seria afrontoso, então, qual é a graça? Se, podendo fazer uma piada, o argentino deixar passar, ele perde sua cidadania.
Então resolveram pintar que a porta se identifica como parede, portanto, por mais que seja uma porta, você não pode utilizá-la, pois ela deve ser tratada como se sente. Novamente, em uma simples brincadeira se expõe o ridículo de defender que o querer de uma pessoa pode mudar a forma física.
BÔNUS
AFRICANITOS
Senhoras e Senhores, lhes apresento os Africantos, um doce que você encontra em padarias argentinas. Certamente muitos acharão uma prova cabal de racismo, mas aqui é super normal. E não é nada pessoal, visto o tratamento que todo o resto recebe, inclusive os auto-esculachos do argentino para consigo mesmo. Não há qualquer intenção de desrespeito, somos assim com tudo e todos.
E a graça é: cada lugar tem um layout de Africanitos (em alguns lugares chamam simplesmente de “Africanos”). E são todos muito divertidos. Obviamente o argentino olha para os limites e pensa “Como posso ir além? Como posso ir muito além?”. Então, com o passar do tempo, foram criando derivações dos Africanitos, como esta:
O Nigeriano, assim como o Africanito, é recheado com doce de leite como padrão, mas… ele tem adereços! Chapéu, um moicano… são infinitas possibilidades. Mas ainda não estava bom o bastante, ofender um continente e um país? Dá para fazer melhor. Vamos tornar isso pessoal?
Eu lhes apresento “Pelé”, a derivação personalíssima dos Africanitos. Não vou apontar as similaridades pois sei que é um assunto sensível para vocês e a intenção dos argentinos e desta coluna não é magoar. Só gostaria de pontuar que vi uma padaria que colocou um cartaz brincando com “a vingança do moleque”, dando a entender que a primeira vez de Pelé foi com um moleque no vestiário e agora moleques poderiam comer o Pelé de volta.
Ultrapassamos os limites? Ultrapassamos. Encerramos a postagem por aqui.
Para dizer que está ofendido com tudo, para dizer que agora entende os votos no Milei ou ainda para dizer que quer morar na Argentina: comente.
Sally conseguiu algo que eu julgava impossível: me fez amar os argentinos. Agora já quero me mudar pra Argentina e exercer todo meu humor peculiar e duvidoso (e no Brasil até criminoso) à vontade.
Expectativa: ser xingada
Realidade: leitor amar
O DESFAVOR É BOM DEMAIS!!!
Estou decepcionado! Comecei a assistir o “Casamento às cegas – Argentina” do Netflix achando que ia encontrar uns tipos com comportamentos semelhantes aos descritos pela Sally nesta e nas duas outras colunas anteriores sobre o tema e tudo que vi até agora foram uns bundelhos sem cor e sem alma! A única quase pseudo-briguinha chocha foi a do casal em que ele torce pelo River e ela pelo Boca.
Acho que escolheram mal os personagens (ou, sob o ponto de vista do Netflix, escolheram bem, pra não dar bafão depois com gênero, fobias e “ismos” junto aos espectadores floquinhos de neve/alecrins dourados de outros países).
Netflix tem um padrão bem cauteloso
Eu achei os docinhos africanitos um charme! Podiam fazer japonezitos e mongoloidezitos também!
E antes que algum brasileiro se ofenda, que morda a língua, pois temos um doce chamado Teta de Nega e o Bolo Nega Maluca, que inclusive são muito bons.
A parte da Wanda admito que perdi tudo. E antes que alguém se ofenda também, temos aqui no Brasil inúmeras piadas de loiras, uma delas é: Qual a diferença entre uma pizza e uma loira? A pizza só dá pra quatro.
Claro, tem também as piadas de português, japonês pau pequeno, judeu ganancioso, freira piranha… Brasileiro não é santo não pra ficar se ofendendo com piada dos hermanitos.
Eu super compraria na loja do tamanho Barbie ao tamanho Barney. Talvez entrasse pedindo tamanho Tyrion, baixinhas sabem que falta de altura dificulta um bom caimento mesmo quando você é magérrima.
Porta trans também foi uma ótima ideia, quem fez foi visionário. Sei que militantes iam chiar se fizéssemos no Brasil, mas não consigo entender por que alguém acharia piadas assim preconceituosas.
Nunca tinha ouvido falar dos Africanitos, e provavelmente não poderia experimentar por causa da alergia a leite, mas imagino que não muitos BRs saibam a respeito justamente porque seria considerado racista aqui e traria um cancelamento só de se usar o nome. O Africanito temático do Pelé foi uma ideia muito boa, será que já fizeram do Diddy com ar de presidiário? Tipo mugshot?
Se encontrar o Africanito Diddy posto a foto aqui!
Acabo de encontrar isso, um brasileiro indignadíssimo com os Africanitos! Gostoso demais!
https://www.diariojornada.com.ar/343361/magazine/brasileno_entro_a_una_panaderia_en_la_argentina_y_se_indigno_racismo
Pergunta prática: os Africanitos são gostosos?
Eu acho os Africanitos um pouco enjoativos, muito doce de leite me enjoa
Certamente uma tíbia por aí, não encontraria muita difuldade em escalar para esse jeitinho.
Eu já tava chorando de rir com a porta trans e aí me vem o africanitos…
Acabo de encontrar um Africanito versão albina.
Eu amo meu país.
https://www.reddit.com/media?url=https%3A%2F%2Fpreview.redd.it%2Fun-yankee-va-a-ver-esto-y-se-le-va-a-zafar-un-tornillo-v0-61e12aqkygza1.png%3Fwidth%3D1080%26crop%3Dsmart%26auto%3Dwebp%26s%3D35b6b936cba0ade63c102ce75c183d469ad9ffcd
Agora entendi completamente a questão dos limites, ou a falta deles. E o brasileiro se achando o descolado da turma…
Tem coisa pior. Estou molhando os pulsos e a nuca de vocês antes de jogá-los na piscina, para que não tenham um choque térmico
Se “o passeio” for ainda “maior/+ pesado” a partir da parte 4, estarei esperando.
Apoiada!
Sally, sobre os “Africanitos”: aqui no Brasil nós temos o doce “teta de nega”, também chamado de “Nhá Benta” em algumas partes do país. O doce, coberto de chocolate, tem uma aparência que lembra um seio de mulher negra e o nome “Nhá Benta” veio a substituir o anterior, “Sinhá Moça”, que provavelmente era uma referência ao livro homônimo, que depois virou até novela de época na Globo, em duas versões. Ah, e os gaúchos chamam o brigadeiro de “negrinho”.
“Teta de Nega”:
https://www.reddit.com/media?url=https%3A%2F%2Fexternal-preview.redd.it%2F55T-w3e3fv5U64pYm_lag1v2qWYmRf6IJrkp8m32MtM.jpg%3Fauto%3Dwebp%26s%3D08305c2c305ad91d058679c78e8fb71fd62f4e6f
“Negrinho”:
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Acho que o problema com os Africanitos nem é a referência e sim é o estereotipo descarado dos traços
Confesso que eu fiquei surpreso com os Africanitos. Nunca tinha ouvido falar neles antes. Doce argentino, pra mim, sempre foi “alfajor” e “dulce de leche”. E os Africanitos de moicano, se fizessem uma expressão zangada nas carinhas deles, bem que poderiam ser vendidos como “Clubber Lang”, o beligerante boxeador vilanesco do filme “Rocky III”.
https://totalrocky.com/wp-content/uploads/2015/09/mr-t-clubber-lang-rocky3.jpg
Desenterrou.
Essa é mais velha que eu.
“I pity the fool!”