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Crenças e regras.

Crenças e regras.

| Somir | | 8 comentários em Crenças e regras.

Ano passado, o submarino Titan da OceanGate sofreu uma falha catastrófica durante um mergulho aos destroços do Titanic. Morreram cinco pessoas, uma delas o dono da empresa. Nos últimos dias, estamos vendo as audiências públicas para a investigação sobre o que realmente aconteceu, inclusive com imagens inéditas dos destroços do acidente. Mas o mais revelador até aqui é o conjunto de conversas gravadas entre a equipe, especialmente as ideias de Stockton Rush, CEO da empresa.

O então diretor de operações marítimas, David Lochridge, teve longas conversas com Rush sobre problemas que se acumulavam com o submersível. Numa delas, gravada, podemos ver claramente o quão irresponsável foi o CEO. Lochridge avisava vez após vez que a forma de trabalhar da OceanGate estava errada, que os testes mais importantes não estavam sendo realizados, que toda sua experiência de décadas com o assunto dizia que as coisas iam terminar em tragédia…

E ouviu de volta do CEO que era necessário quebrar regras para inovar, que se eles ficassem pensando como os outros nunca avançariam, claramente em negação sobre os riscos que corria. Para a surpresa de ninguém, foi justamente o ponto de maior discussão entre os dois que causou o acidente. A cápsula de fibra de carbono, que David dizia que não tinha sido testada o suficiente, falhou e fez com que os cinco tripulantes fossem transformados em patê instantaneamente (pelo menos não deu tempo de ninguém sentir dor, os corpos provavelmente deixaram de ser corpos antes do primeiro sinal de dor chegar no cérebro). A única parte quebrada nas fotos do destroço é a cápsula de fibra de carbono.

E o que se pode tirar de aprendizado disso? Com certeza vários detalhes técnicos vão ter alguma utilidade para engenheiros e inspetores de segurança, mas era uma tragédia anunciada. Profissionais da área dificilmente precisam do exemplo da OceanGate para revisar seus parâmetros de segurança. Estava obviamente errado e deu no que deu.

Mas tem uma lição aqui que parece óbvia, mas muita gente não consegue articular: inovar não é sinônimo de quebrar regras. Usamos muitos chavões para falar sobre criatividade e assumir riscos para fazer algo novo, mas temos uma mania de misturar a ideia de regras com a ideia de conservadorismo. Esse tipo de confusão pode gerar mentalidades suicidas como as de Rush em seu submarino.

Regras não são a mesma coisa que crenças. Crenças são coisas como achar que não tem mercado para um produto e que nem vale a pena tentar. Sim, você provavelmente precisa vencer alguma crença para evoluir, mas tem que saber identificar o que é uma crença e o que é uma regra.

Regras são baseadas em conhecimento prévio de outras pessoas. Uma regra vai ter uma definição clara do que pode ou não pode fazer, e uma consequência igualmente bem definida para quem não a seguir. No caso da OceanGate, uma regra de produzir submersíveis era fazer um teste de pressão não-tripulado até literalmente explodir. O CEO não queria fazer isso para não ter que gastar dinheiro fazendo mais um modelo depois de explodir o primeiro.

Isso deixou o diretor de operações marítimas incomodado, porque a regra existe por um motivo: quanto tem tanta pressão envolvida, qualquer falha pode criar uma reação em cadeia e transformar um veículo seguro numa bomba em frações de segundo. É por isso que sempre afundam uma versão não tripulada antes e aumentam a profundidade dela até ela literalmente ser destruída. Porque pode estar tudo bem a 999 metros e implodir a 1000.

Você não é obrigado a fazer sempre dois de cada submersível, mas desde que o seu modelo seja baseado em designs que foram comprovados na profundidade que você pretende descer. James Cameron desceu no Titanic e até mesmo no ponto mais profundo de todos os oceanos com equipamentos que já tinham sido testados sem ele dentro diversas vezes. Por isso está vivo.

A crença que uma empresa não poderia oferecer viagens comercialmente viáveis até o Titanic estava lá para ser derrubada. A regra de como fazer um equipamento que consiga isso sem matar as pessoas não. É aí que os fios se cruzam. Na cabeça de Rush e provavelmente na cabeça da maioria das pessoas. Crenças são diferentes de regras. Se você tratar crença como regra fica estagnado, se você tratar regra como crença, se arrisca mais do que poderia.

Pessoas inovadoras não quebram regras. Regras não se importam com nossos sentimentos. Regras são resultado de método científico, coisas que foram medidas para definir o que funciona e o que não funciona. Tem regras para construir submarinos, muros e até mesmo bolos. Não adianta colocar uma cenoura crua no forno para fazer aparecer um bolo de cenoura. Regras são objetivas, crenças são subjetivas.

Eu acho muito bacana quem arrisca ir contra as crenças da sociedade (se não for crime) para explorar novas possibilidades. Se o cidadão da OceanGate estivesse inventando um monte de loucuras, mas estivesse seguindo as regras de segurança, seria uma força positiva no mundo. O submarino de fibra de carbono teria implodido vazio no fundo do mar e coletado um monte de informações que ele provavelmente conseguiria transformar em mais investimento para uma nova tentativa, aplicando o conhecimento.

Muitos falam de ganância e irresponsabilidade, o que não deixa de ser verdade. Mas dá para perceber nas falas de Rush uma negação doentia sobre o quanto de risco estava correndo de verdade. No começo ele desviava das críticas dizendo que era ele que ia testar e morrer sozinho, mas mesmo que isso fosse aceitável (ele tinha família e os que estavam junto seriam responsabilizados, ou seja, não era aceitável), foi justamente isso que o fez seguir em frente no risco até começar a colocar mais gente naquela bomba-relógio.

Eu apostaria nessa mistura mental entre crença e regra mesmo. Ele morreu e levou junto mais 4 pessoas por achar que a regra de segurança era crença e que a crença de que inovadores precisam quebrar regras era… regra. Na verdade, os grande inovadores não só não quebraram regras como criaram mais. Ao pensar no diferente, encontraram novas formas de prever o que acontece.

Quanto mais você avança no conhecimento, mais informações sobre as regras naturais encontra. O universo só existe porque mesmo nas escalas mais diminutas da matéria, existe um padrão de funcionamento. Descobertas científicas são descobertas porque as coisas já funcionavam daquele jeito, só a gente que não tinha entendido como ainda. Ao nosso redor, nada além de regras naturais.

E dentro das nossas cabeças, crenças. Crenças que nada mais são do que uma aproximação (muitas vezes preguiçosa) do que entendemos do mundo, sem dados para comprovar. Deus é crença, gravidade é regra. E mesmo que nossas melhores teorias científicas ainda fiquem confusas sobre o que é a gravidade, é bem simples de entender a regra: a maçã sempre cai em direção ao chão. Já Deus… esse funciona de formas misteriosas.

Crenças podem e devem ser questionadas, porque no cerne delas existe uma indefinição natural. Se fosse algo comprovado, seria uma regra. E sim, existem regras erradas, regras que podem ser melhoradas ou mesmo derrubadas com o passar do tempo, mas regras só caem quando você tem argumentos criados pelo método científico para tal. Todo mundo está livre para provar que a velocidade da luz é diferente do que calculamos até hoje, mas tem que provar de uma forma que outras pessoas possam replicar e confirmar independentemente.

A regra é mais forte que a crença porque a regra só existe enquanto for comprovável, ela só virou regra porque passou pelo processo difícil de se provar. A crença só aparece, às vezes com alguma base lógica, outras não. A regra foi feita para ser testada, a crença não.

A ideia de sair testando ideias inovadoras e quebrando coisas para evoluir é baseada em desafiar regras, não quebrar regras. Você não vai quebrar a gravidade ou a pressão do fundo do oceano. Essas coisas vão continuar lá independentemente do que você acredita. O CEO da OceanGate claramente foi contaminado pela confusão entre os dois conceitos.

Morreu por isso. Matou por isso. Toda vez que você estiver diante de um desafio, é muito importante separar o que é crença e o que é regra. Regras podem ser testadas, crenças não. Regras tem suporte científico, ou seja, algum estudo ou experiência comprovada que prevê muito bem o que vai acontecer se for quebrada. Crenças são ideias que muitas vezes são até impossíveis de testar, como divindades, superstições e hábitos herdados numa população. Mulheres muçulmanas são mais felizes quando cobrem o cabelo? Ninguém fez o estudo. Ninguém vai fazer esse estudo, até porque é basicamente impossível ter um resultado científico. É crença disfarçada de regra.

Boa parte das leis de países democráticos, regulamentos de segurança e a maioria do conhecimento reprodutível desse mundo são regras. Independem de vontade pessoal, são apenas informações compiladas para nossa conveniência. Regra não tem sentimento, regra não se ofende, regra não liga se for respeitada ou não, é só a relação entre causa e consequência de alguma coisa descrita para outras pessoas sem experiência pessoal com o tema.

Como quase todo gênio inovador desse mundo poderia te dizer: só fizeram o que fizeram por utilizar conhecimento de outros que vieram antes deles. Newton disse que se apoiava no ombro de gigantes. Você pode e deve desafiar crenças, mas regras? É dar murro em ponta de faca. Ou, descer até o Titanic numa cápsula de fibra de carbono que nunca foi testada até o limite.

Para dizer que eu estou numa daquelas fases chatas de novo, para dizer que quer o detalhes de como eles morreram (morreram antes de perceberem que iam morrer), ou mesmo para dizer que a regra é clara: comente.


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