
Pior covardia?
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Começam as comemorações da Semana Nacional do Bullying aqui na República Impopular do Desfavor! Covardia é a palavra da semana. E para começar com o pé quebrado, Sally e Somir se dividem entre mente e corpo. Os impopulares atacam uns as opiniões dos outros.
Tema de hoje: qual a pior covardia, a física ou a emocional?
SOMIR
Eu vou apostar na versão emocional. Não que eu ache agradável o prospecto de perecer na mão de uma pessoa muito mais forte, não sou masoquista. Mas tem algo de mais nefasto ainda na covardia psicológica: é uma especialidade humana.
A Lei da Selva é algo do qual devemos nos afastar em busca de um mundo mais justo e civilizado, mas é a lei base da realidade. Tentamos ficar acima dela, mas é nela que caímos quando tudo mais falha. A Lei da Selva presume algo que consideramos covardia: o mais forte pega o que quiser do mais fraco. Eventualmente todo mundo forma algum conceito de presa e predador.
E isso começa a fazer parte da nossa visão de mundo. Você pode até achar feio e covarde que um leão ataque um filhote de zebra, mas há a compreensão intrínseca de que é como a natureza funciona. Não precisa gostar, é muito nobre evitar usar a força bruta para conseguir o que se quer na vida, mas é algo que está lá no fundo da sua cabeça. Todos nós podemos ficar fisicamente agressivos dada a circunstância certa.
Isso é para dizer que covardia física é algo que entendemos. E a vida se encarrega de nos ensinar várias coisas relacionadas: desde criança você se machuca e vê seu corpo se recuperando. Você odeia sentir dor, mas com o tempo, ela passa. A marca na pele muda, desaparecendo ou deixando uma cicatriz: de qualquer jeito, o sofrimento físico é algo que tem começo e fim.
O psicológico é bem diferente. Uma covardia emocional como manipulação e ameaça de abandono não faz parte do pacote natural de defesas da nossa versão primal. Não é à toa que tanta gente fica com problemas mentais sérios depois de uma infância traumática. Ou que um medo muito forte pode desencadear traumas de longo prazo.
Muitos soldados que voltaram da guerra com o emocional devastado não precisaram ser feridos pelo inimigo. A simples vida de ficar com medo de ser morto a qualquer momento já desgasta a mente de qualquer um. Soldados saudáveis eram retirados das linhas de frente depois de um certo tempo, porque mesmo com o corpo intacto, a mente estava destruída. Na verdade, muitos dos que voltavam feridos voltavam felizes por finalmente escapar daquele inferno.
É por isso que eu coloco covardia emocional num grau mais danoso que a covardia física. Não só as marcas de sofrimento emocional são muito mais difíceis de perceber, como quase ninguém tem preparo para lidar com isso. Se você volta da guerra com uma ferida, todo mundo ao seu redor sabe o que fazer para te ajudar. O clima é esperançoso, de recuperação. Se você volta com estresse pós-traumático, é muito complicado resolver. A pessoa se sente isolada, incompreendida, um estorvo sem prospecto de melhora.
Você sabe quando uma ferida física fecha, mas não uma emocional. Covardia de fundo psicológico é uma especialidade de seres complexos como nós: só o humano sabe como entrar dentro da cabeça do outro e causar o caos. Te ensinaram a prever sofrimento quando alguém muito mais forte quer te fazer mal, e de uma forma ou outra, a pessoa tem algumas ferramentas para enfrentar aquilo.
O abuso emocional costuma vir sem um aviso claro, a pessoa de aparência mais inofensiva pode ser a mais cruel nesse sentido. Você só costuma perceber que sofreu com covardia emocional depois do fato consumado, e muita gente descobre que lidou com a situação toda de peito aberto, apanhando sem nenhuma tentativa de se defender, quanto mais revidar.
E tem mais: covardia física é muito mais clara na sua definição de abusador e abusado. Você sabe que sofreu uma covardia, é mais simples lidar com algo óbvio como um adulto batendo numa criança, homem em mulher. Continua sendo horrível, mas salvo quem tem problemas ainda maiores, é natural entender que estava do lado injustiçado.
No campo emocional, o grande perigo é a pessoa acabar acreditando que é cúmplice do crime. A pessoa muitas vezes acha que deu motivo para a covardia. Manipuladores são especialistas nisso: são emocionalmente covardes e ainda por cima fazem com que suas vítimas acreditem piamente que elas estão erradas. O simples fato da pessoa que sofreu uma covardia ficar em dúvida se foi uma covardia já é sinal de problemas.
É mais óbvio se afastar de quem é fisicamente covarde, sim, infelizmente tem quem não faça, mas pelo menos as posições ficam mais claras. Tem gente que vai sofrer covardia emocional a vida toda e nunca vai cair na real. Não dá para entrar em negação sobre um osso quebrado ou um olho roxo, a ginástica mental para defender o agressor ainda existe em casos de mulheres e seus maridos, mas a prova física é inegável. Ela precisa ser escondida, ela força o assunto de volta sem parar.
O dano psicológico da covardia emocional some numa “personalidade difícil”, em escapismo, em depressão, ansiedade, etc. Apanhar fisicamente é horrível, jamais vou negar isso, mas é explícito no corpo e na mente. Apanhar emocionalmente é uma possível armadilha que pode ficar te atrapalhando pelo resto da vida.
O pior inimigo é o que você não vê.
Para dizer que o pior é acontecer com você, para dizer que eu nunca apanhei de verdade para falar uma merda dessas, ou mesmo para dizer que pior é covardia econômica: somir@desfavor.com
SALLY
Esta semana comemoramos o Dia do Bullying, feriado nacional na República Impopular do Desfavor. Para celebrar a data, vamos falar toda a semana sobre o princípio básico do bullying: a covardia. Começando por hoje, convidando o leitor a opinar sobre qual é a pior covardia: a física ou a emocional?
Ambas são muito ruins, mas a pior para mim é a física, pois pode te matar rapidamente e é muito mais difícil de se defender.
Não nego o estrago que uma covardia emocional pode fazer, inclusive gerando até a morte da pessoa alvo da covardia, porém é algo mais lento, demorado e para o qual qualquer um pode se blindar se procurar ajuda. Covardia física não. Bastam alguns segundos para te matar, para te deixar aleijado o resto da vida e, na maior parte dos casos, não é possível se blindar contra ela.
Eu entendo que receber apelidos pejorativos, ser desrespeitado, ser desmerecido seja muito doloroso, sobretudo vindo das pessoas que amamos e que deveriam ajudar na construção da nossa autoestima. Mas, levar um monte de porrada (e, em sendo covardia, seriam porradas se alguém muito mais forte) é pior.
Danos emocionais são pesados, mas podem ser manejados. Danos cerebrais são piores. Para trauma emocional tem terapia, tem autoconhecimento, tem volta por cima, para sair de uma cadeira de rodas por uma coluna fraturada não.
Como os danos emocionais são muito mais frequentes na atual sociedade, todos nós nos identificamos e nos revoltamos com eles, mas, pense bem na merda que é a covardia física. Contra ela você não pode se blindar tendo autoestima, desconsiderando o que a pessoa fala ou se afastando. A pessoa te procura onde você estiver e te bate, te aleija ou te mata.
Quem é mulher vai entender melhor o que estou dizendo, pois mulher, no Brasil, sempre vive com algum receio de covardia física. Pode ser uma simples mão na bunda no transporte público, pode ser um estupro quando está inconsciente em uma mesa de cirurgia, pode ser até mesmo um estupro violento em um beco escuro. São possibilidades que existem e contra as quais aprendemos a tomar alguns cuidados desde pequenas.
Por ser mais fraca fisicamente, mulher sabe bem o peso que uma covardia física tem. Francamente, eu prefiro ser chamada de feia, de gorda, de burra ou de qualquer outra coisa do que ser estuprada ou levar uma baita surra.
Talvez homens não tenham desenvolvido o real sentido dos danos de uma covardia física por ser muito mais improvável que se encontrem nessa situação: é mais difícil achar um homem que seja mais forte. Mas, quase todo homem é mais forte do que uma mulher, ainda que ela esteja em plena forma.
Quem, efetivamente, pode bater em um homem médio hoje de forma desigual? Mulheres não. Crianças não. Idosos não. Deficientes não. Outros homens mais fracos não. Outros homens igualmente fortes não. Percebem? Um homem mais forte do que o homem médio é uma pequena parcela da população que não chega a configurar uma ameaça preocupante pois seria muito azar esse homem cruzar com você e implicar com a sua cara. Na cabeça do homem, é só não mexer com ele, é só não afrontar, que não apanha.
Mulher apanha por queimar feijão, por dizer “não” em balada ou sofre violência pelo simples fato de estar inconsciente e alguém ver ali uma oportunidade. Desculpa, mas homens no geral não sabem fazer esse cálculo de qual violência é pior pois tratam a violência física como um evento raro e improvável.
O que estou falando é tão básico que nem precisaria ser dito, mas o Somir é um homem grande e forte, com mais de 1,80m e com cara de mafioso russo. Eu duvido que ele tenha se sentido ameaçado mais do que uma meia dúzia de vezes em toda a vida. Então, quando você não tem essa preocupação constante pairando na sua mente, ela se torna menor. Ela não existe até que o risco efetivamente apareça, o que a torna muito mais leve e suportável, dando a impressão de ser algo menos impactante do que a covardia emocional. Quando a covardia é algo muito distante de acontecer ela parece menos grave.
Por exemplo, se eu disser a uma pessoa que mora em uma cidade que não tem praia o quanto é preocupante um ataque de tubarão, ela pode até concordar comigo em tese, mas seu foco, sua preocupação e seu medo provavelmente estarão mais voltado para um ataque de cobra, que é algo mais provável em sua vida, mesmo que apenas 1% dos ataques de cobras levem efetivamente a óbito. O fator “pode acontecer comigo” faz com que demos mais peso equivocadamente ao que está próximo.
Então, não se deixem enganar: mesmo que não seja provável que você sofra uma covardia física, ela é pior do que a emocional, pois para a emocional é mais provável que você se recupere.
Por mais difícil e doloroso que seja superar uma covardia emocional, ao menos existe essa chance. A covardia física nem sempre te dá essa possibilidade. Maria da Penha, a mulher que inspirou a lei que deveria proteger as brasileiras, ainda está em uma cadeira de rodas por causa de um parceiro agressor e não importa quanta terapia ela faça, dificilmente vá voltar a andar. Um coração partido o tempo pode curar, uma coluna partida não.
“Mas Sally, a tia da prima da irmã da minha amiga ficou sofrendo abusos emocionais do marido por 30 anos e hoje está um hospício gritando que é perseguida por esquilos alienígenas”. Sim, covardia emocional pode fazer estragos irreversíveis também, porém, leva tempo. E nesse tempo, a vítima pode fugir, pedir ajuda, se afastar, fazer terapia ou usar de qualquer outro recurso. Está nas mãos da vítima não dar importância às crueldades que o outro diz. Na covardia emocional, as grades são invisíveis, cabe a você ter a força para abrir essa porta.
Na covardia física, não tem muito o que fazer. A pessoa pode até procurar ajuda, mas, no Brasil, provavelmente o agressor irá caçá-la e matá-la, como vemos todos os dias nas manchetes de jornal. É mais difícil de se defender. Existem menos recursos, menos ferramentas, basicamente a defesa não depende da pessoa agredida e sim do Estado. E quem é que confia no Judiciário brasileiro? Se houvesse prevenção e proteção, o país não teria mais mortes por ano do que países em guerra civil.
Eu acho “menos pior” a violência contra a qual eu posso procurar ajuda e me blindar. Hoje é possível conseguir essa ajuda até online, de graça, em vídeos do Youtube, nos quais profissionais te ensinam como fortalecer sua autoestima e sair de situações de abuso emocional. Contra a covardia física, eu basicamente não posso fazer nada, a não ser esperar que terceiros me protejam. E depender dos outros, meus amigos, é uma merda.
É pior a violência da qual você não consegue se defender sozinho. É pior a violência que gera consequências graves de forma rápida, às vezes em uma fração de segundos. É pior a violência que gera danos irreversíveis. Tanto é que a lei combate com muito mais força a violência física do que a emocional. Para conseguir se preocupar com covardia emocional, você precisa não estar lutando pela sua vida.
Para dizer que concorda com ambos em um texto no qual a opinião de um é excludente da opinião do outro, para dizer que ser chamada de gorda é pior do que ficar em cadeira de rodas (vai bem à merda) ou ainda para dizer que não quer divagações, só quer que o bullying comece: sally@desfavor.com
Vou de física.
Brasil é um país no qual você considera ter um relacionamento com homem apenas pra ter proteção. E ainda assim, quem vai te proteger desse homem, se ele resolver te atacar? Enquanto números de violência doméstica são imensos (e ocorre até entre casais lésbicos), números de homicídio e estupro também. Você não está segura em casa, nem na rua. Homem pode falar que mora sozinho. Mulher precisa mentir, e muito. Ter uma arma não é uma opção, e mesmo que você aprenda lutas, truques com canivete, etc, o corpo masculino por si só é uma arma, quando contra uma mulher.
Violência emocional é complicada, mas dificilmente pode custar sua vida num excesso de raiva, e você ainda pode revidar batendo boca de volta, pelo menos. Você ouve um monte de merda que machuca? Sim. Mas um excesso de raiva num ataque físico…
Como mulher, sou obrigada a concordar com a Sally. Homens simplesmente não vivem no mesmo mundo que nós vivemos quando falamos sobre ameaças físicas.
Eu sou uma mulher bem pequena de estatura e aparência mais delicada de maneira geral, mesmo na época em que estava no auge da dedicação à musculação. Embora goste da minha aparência, já tive diversos problemas por causa dela, porque era o alvo mais óbvio em um local. Já sofri violência em relacionamentos também – e saí deles muito antes da situação se tornar irreversível – mas a sensação de andar na rua sabendo que preciso me manter alerta e tentar compensar a aparência na postura e no modo de vestir é desgastante demais. O mesmo pedinte que chegou perto demais e segurou meu braço pra pedir dinheiro não ousou nem se aproximar quando meu parceiro alto e forte estava junto comigo. Eu tenho sorte que os homens da minha vida compreendem essa limitação e me protejam, mas depender das pessoas é horrível e nem sempre a gente pode contar com elas. Fora que o fato de precisar de proteção simplesmente por existir já é um absurdo.
Violência psicológica tem um potencial maior de cura, reversão e proteção que violência física. Além de não ter o poder de te matar, machucar feio ou mutilar em questão de minutos.