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Votação do PL das Fake News

Votação do PL das Fake News

| Sally | | 18 comentários em Votação do PL das Fake News

Objetos inanimados não tem culpa de nada. Objetos inanimados são meras ferramentas, que podem ser usadas para o bem ou para o mal. Objetos inanimados não devem ser responsabilizados pelos erros do ser humano. Parece óbvio, né? Racionalmente faz sentido, só que na prática, está institucionalizado delegar a culpa a objetos inanimados e, por ser socialmente aceito, acaba sendo muito fácil cair nessa cilada.

O exemplo mais grotesco é a forma como se trata o universo online: “a internet é perigosa”, “a rede social tal é perigosa”, “jogos de videogame são perigosos”. Não são. Nada disso é perigoso, o perigoso é o uso que se faz disso. O perigoso é expor pessoas sem discernimento a isso. O perigoso é não educar e esperar que, ainda assim, seus filhos tenham sabedoria para diferenciar o que é aceitável do que é perigoso.

Um martelo pode ser perigoso, se você decide bater na cabeça de outra pessoa com ele, entretanto, pode ser uma ótima ferramenta se você o usa para construir uma casa para uma pessoa desabrigada. Esse princípio básico deveria ser aplicado a todos os objetos inanimados. O grande problema é que, se aplicado, gera uma consequência desagradável: todo mundo vai ter que se responsabilizar pelos seus atos e pelos atos de seus respectivos filhos.

Não é uma opção viável querer tornar o mundo um lugar seguro sem qualquer oportunidade de transgressão, risco ou má-influência para facilitar a criação que se dá a um filho. Quem se dispôs a colocar filhos no mundo deveria saber que o mundo está cheio de riscos, influências negativas e perigos. E a responsabilidade de blindar os filhos, na medida em que isso é possível, é apenas dos pais. É preciso criar um filho ensinando-o lidar com os perigos em vez de colocar sua energia em tentar tornar o mundo um lugar seguro.

Este mundo não é nunca será um lugar seguro. É enxugar gelo. É uma luta na qual todo mundo entra derrotado. Melhor usar o tempo, energia e foco para preparar um filho para esses perigos e dar ferramentas para que ele possa enfrentá-los ou evitá-los. É fácil? Claro que não, é bem difícil, mas… é possível. Mas, para isso, quem ensina tem que saber ensinar e tem que estar pronto para ensinar. Quem disse que é fácil ter filhos?

A tentação de colocar a culpa em objetos inanimados é grande, afinal, se eles são os responsáveis pelo problema, a culpa deixa de ser dos pais e passa a ser deles. Mas, spoiler, não adianta nem colocar a culpa em objetos inanimados nem perder tempo fazendo campanha contra eles, buscando sua regulação, proibição ou dificultando seu acesso. Talvez nos anos 80 funcionasse, agora não mais. No mundo online não existe proibição possível ou eficaz.

O que quer se proíba dos filhos de acessarem online, existem programas, aplicativos ou hacks que permitirão que eles acessem escondido. Não adianta lei, é possível postar qualquer coisa de forma invisível, não-rastreável e que não possa ser tirado do ar. O Judiciário não vai se mobilizar por questões pessoais suas, sinto informar. Não tem nem pessoal suficiente para isso.

A educação dos pais é indelegável. Não adianta colocar app espião para vigiar o que seu filho assiste online (ele pode assistir e apagar os registros) não adianta colocar restrição no celular, nãp adianta nem proibir acesso a internet (uma visita a um cyber café ou usar o celular do coleguinha na escola resolvem isso). Não tem outro jeito que não educando, ensinando, alertando, conscientizando.

E a principal forma de educar é pelo exemplo. Então, antes de começar qualquer discurso pedagógico, é preciso olhar para a própria vida e se perguntar: “eu estou fazendo um uso consciente, saudável e positivo da tecnologia?” (ou de qualquer outro objeto inanimado que se julgue perigoso e se queira educar sobre).

Sim, internet mal utilizada não é apenas entrar em site para aprender como se fabrica uma bomba caseira, é qualquer uso que seja contraproducente, como por exemplo, espiar a vida alheia, brigar e trair parceiros. Tem uma lista enorme de coisas que não são uso consciente de internet, mas que muita gente faz e acha que tá tudo bem. O pior problema mental é aquele que você não percebe que tem. E depois criam filhos disfuncionais, que se metem em problemas frequentemente e dizem “eu não entendo o que aconteceu”.

Então, antes de fazer qualquer movimento no sentido de ensinar o bom uso de objetos inanimados, quaisquer que eles seja, observe se você faz bom uso deles. Se não faz, corrija e só depois ensine. Ensinamento precisa de coerência, se você não pratica o que ensina, a lição não será aprendida, ou será aprendida da forma errada.

“Mas Sally, meus filhos não sabem o que eu faço em redes sociais, posso ensinar o certo mesmo sem colocar em prática”. Não, não pode. É postural. Não tem como fingir 24h por dia ser uma coisa que você não é. Em algum momento a contradição aparece, no dia a dia, na sua conduta, na sua postura. E isso passa uma mensagem muito errada e confusa.

Meu ponto é: é preciso estar mentalmente são para criar filhos mentalmente sãos. Uma pessoa que precisa de remédios para dormir não está mentalmente sã. Uma pessoa que precisa de uma bebida alcoólica para relaxar não está mentalmente sã. Uma pessoa que não consegue tirar ex da cabeça não está mentalmente sã.

O fato de a sociedade endossar, permitir ou tolerar uma série de sintomas não significa que a pessoa está mentalmente sã. O padrão para determinar se existe ou não problema mental não pode ser a tolerância/aceitação social, pois a sociedade está doente.

Então, antes de ensinar ou corrigir, observe se você, na sua vida, segue essa regra, independente do que a sociedade acha. Se não seguir, seu ensinamento provavelmente não será eficiente. E a culpa não é das armas, da internet, das drogas ou jogo de videogame. Objetos inanimados não são responsáveis por aquilo que você faz com eles.

Todo objeto inanimado pode ser usado para o bem ou para o mal, é responsabilidade dos pais preparar os filhos para que eles façam o melhor uso possível de cada objeto e é responsabilidade de cada um de nós zelar pela própria saúde mental e tomar uma atitude quando ela se mostrar afetada.

Provavelmente a maior parte das pessoas vai continuar tomando o caminho mais fácil e culpando objetos inanimados por tudo que dá errado em suas vidas e nas vidas das pessoas à sua volta, pois, além de ser muito mais fácil não assumir responsabilidades, também coloca no papel de vítima, um papel que gera inúmeros benefícios na sociedade atual.

O idiota que faz algo por burrice é ridicularizado. O negligente que faz algo por descuido, é ridicularizado. O ignorante que faz algo por desconhecimento, é ridicularizado. Basicamente, na sociedade atual, os erros são ridicularizados, criticados e repreendidos – e em rede social, que é para todo mundo ver. Só escapa disso… a vítima!

A vítima não pode ser ridicularizada, pois isso é considerado cruel. Então, a chave para não ter que assumir responsabilidade por suas escolhas nem ser publicamente avacalhado por elas é se colocar como vítima. E existem infinitos recursos para fazer esse “upgrade” de otário para vítima.

Pode ser distorcendo a situação, mentindo um pouco aqui, outro pouco ali, até que pareça que a pessoa não tinha escolha a não ser se colocar naquela situação. Pode ser chorando copiosamente e, obviamente se filmando, de modo a que cause constrangimento em futuras críticas (a pessoa que se filma chorando desce o último degrau possível de dignidade e saúde mental). Pode ser ainda tirando fotinho de si mesmo no hospital com soro na veia… o céu é o limite.

Vilanizar objetos inanimados é apenas uma extensão desse mecanismo de se fazer de vítima para não assumir responsabilidades. Toda vítima precisa de um algoz, nem que ele seja um objeto inanimado. E muitas pessoas abraçam essa mentira com tanta força, acreditam nela com tanta cegueira, que fazem de suas vidas uma cruzada contra esses objetos inanimados, achando que assim estão se protegendo e protegendo a sociedade.

A bola da vez é a internet, mas você pode guardar este texto, pois a premissa dele provavelmente vai servir para muitos outros “vilões” que surgirão. Tem uma horda de pessoas enfurecidas que tem a certeza de que 1) é possível controlar o conteúdo online e 2) o mundo será melhor se esse controle for colocado em prática.

Eu tenho certeza de que essas pessoas estão agindo na melhor das intenções, elas realmente acreditam nisso, seja por não conhecer verdadeiramente o funcionamento do mundo online, seja por precisar desesperadamente de uma solução prática para o problema. O tempo vai passar, as coisas não vão se resolver, provavelmente vão até piorar, mas, não se iludam, as pessoas vão continuar sem entender que não é o caminho. Vão pedir mais e mais leis.

Dá raiva, né? Quando a falta de consciência alheia atrasa a evolução social. Dá vontade de esfregar a verdade na cara das pessoas. Só que não adianta. O fato de ter a percepção de que são as pessoas que fazem cagada, portanto, é nas pessoas que temos que focar, já te coloca na frente da maior parte das pessoas. Não use esse conhecimento para pregar, antagonizar ou ameaçar ninguém. Coloque-o em prática, sem precisar falar sobre ele. Seja ele. Isso sim faz a diferença.

Não vamos conseguir impedir violência exterminando tudo que oferecer perigo à incolumidade física de alguém (pessoas matam até com tesoura e faca de cozinha). Não vamos conseguir impedir estupros com castração química (estuprador continua tendo boca, língua e muitos até usam pedaços de pau quando estão impossibilitados). Não vamos conseguir impedir abusos online regulando o ambiente online, pois não é humanamente possível fiscalizar tudo que é feito ali. O que nos resta? Aceitar que temos que proteger quem precisa de proteção, não via proibição e sim via educação.

Repito: o problema são as pessoas, logo, o foco deve ser nelas, inclusive de forma preventiva. Cuidar da saúde mental da população. Problema mental não é apenas comer fezes, falar sozinho ou entrar em uma escola atirando. É possível ter um problema mental e ser totalmente funcional. É possível ter problema mental e não ser completamente louco. É possível ter problema mental e ser até aplaudido por isso socialmente.

Vai e vem em uma relação conturbada? Você não está mentalmente bem. Incapaz de manter um relacionamento? Você não está mentalmente bem. Briga com quase todo mundo que conhece? Você não está mentalmente bem. Tudo dá errado na sua vida? Você não está mentalmente bem. Tudo de ruim que te acontece externamente, tem origem interna. Hora de parar de culpar objetos inanimados, inclusive planetas. A Astronomia agradece.

É hora de conscientizar a população de que também tem problema mental a pessoa que é agressiva online, que briga com desconhecidos, que ameaça, que se descontrola por causa de política, por exemplo. Muitas condutas que são normalizadas no Brasil e no mundo são sim problema mental e mereceriam mais atenção. São sintomas, que, se não tratados, podem crescer e se tornar um enorme problema. Não tem que esperar um problema mental ser grande, incapacitante ou perigoso para fazer algo a respeito.

Assim como mudamos os hábitos para melhorar a saúde de um corpo que está adoecendo (comemos melhor, fazemos exercícios etc.) deveria ser ensinado à população como cuidar da sua saúde mental: o que ajuda, o que prejudica, como prevenir, hábitos que fazem mal, sintomas de que algo está mal, quem pode te ajudar, como e quando.

A pessoa precisa saber o que fazer para manter a saúde mental bem. Também precisa saber o que fazer para melhorar se ela começar a deteriorar. Os pais precisam entender o que devem fazer se seus filhos apresentarem sinais de problemas. Professores, educadores, policiais, funcionários públicos no geral também precisam ser educados para identificar pessoas com problemas mentais e como interagir com elas.

Enfim, sabemos que nada disso vai acontecer tão cedo, mas, enquanto isso, você pode melhorar a sua vida observando e corrigindo cada vez que coloca a culpa de algo em um objeto inanimado.

Você também pode fazer a diferença tentando propagar a ideia de que para ensinar, é preciso dar o exemplo. Um ensinamento é como um presente que damos a alguém e, para dar um presente, você precisa tê-lo. Ninguém pode dar o que não tem. O que nos leva à próxima contribuição que todos podem dar: observar se seus atos condizem com aquilo que ensinam e, primeiro corrigir a si mesmos e só depois ensinar aos demais.

Não sei qual será o resultado da votação de hoje, sobre o projeto de lei que acha que pode controlar fake news (este texto foi escrito ontem), mas, seja lá qual for, a questão não vai se resolver com lei. Como já repetimos um milhão de vezes aqui, lei não educa. Lei é para pessoas que foram educadas das mais diferentes formas e, mesmo assim, não conseguiram ou não quiseram aprender.

Sei que boa parte da população deve estar pensando que o problema se resolve (ou ao menos se atenua) com essa (ou com alguma) lei. Deixemos estas pessoas com suas crenças, o tempo vai mostrar a realidade. Enquanto isso, você que sabe que não se resolve com lei, visto que problemas internos não se resolvem com remédios externos, continue investindo na sua saúde mental e atento à saúde mental das pessoas que te cercam.

E não caia na tentação de culpar objetos inanimados por problemas, nem de assumir (ou permitir que te coloquem no) papel de vítima para, de alguma forma, receber uma compensação. O papel de vítima é indigno e nenhuma compensação do mundo vale a sua dignidade.

Não importa qual seja o resultado da votação do projeto de lei hoje, o problema não vai se resolver. E você não pode resolver a situação de um país inteiro. Então, não se aborreça, não se estresse, não discuta. Faça sua parte: cuide da sua saúde mental e observe a saúde mental das pessoas que são importantes para você, ajudando, quando for possível, na medida em que for possível. Do resto, o tempo vai se encarregar.

Para dizer que tudo isso dá muito trabalho e prefere culpar objetos, para dizer que a culpa não é de objetos e sim da inveja ou ainda para dizer que a culpa é sua e você coloca em quem quiser: sally@desfavor.com


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