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Sobre a Crise da Ucrânia.

Sobre a Crise da Ucrânia.

| Desfavor | | 22 comentários em Sobre a Crise da Ucrânia.

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Sobre a Crise da Ucrânia.

A guerra da Ucrânia contra a Rússia vem nos deixando apreensivos e não é à toa. O conflito surpreendeu a quase todos, tanto por ter rebentado abertamente numa invasão quanto pela velocidade da escalada. Até ameaças nucleares estão sendo discutidas, menos de uma semana depois de Vladimir Putin jurar que não tinha interesse em invadir sua vizinha. Em tempos assim, de excesso de informação e pouca filtragem, é difícil saber quais riscos são reais e no que devemos acreditar. Muito bem, comecemos pelo que mais interessa aos cidadãos médios.

Como o Brasil será afetado pela guerra russo-ucraniana? Qual posição assumiremos?

De imediato, com aumento nos preços de combustíveis e alimentos, já que importamos muitos insumos agrícolas da Rússia. Apesar do BR não ter aderido às sanções, a Rússia está fora do sistema SWIFT agora e isso dificulta muito as transações.

O Brasil é um país com vocação diplomática (apesar de certos políticos quererem fingir que não) e dificilmente fará mais do que condenar a invasão com palavras na ONU. O fato de que Bolsonaro demonstra ser solidário à Rússia e a nossa participação no BRICS torna essa posição mais ambígua, mas isso pode até ser melhor a longo prazo. Se tivéssemos outro governante, poderíamos até sonhar em participar de uma negociação de paz (como foi feito anteriormente e de forma bem sucedida). No momento, o único risco de termos um conflito com a Rússia é se o Putin quiser colocar armas na Venezuela, que fica no nosso quintal e seria uma ameaça. Mesmo assim, é uma possibilidade muito remota, já que temos relações mais cordiais com a Rússia e seríamos intimados… ops, ajudados pelos EUA. Você, que mora no interior de São Paulo, não precisa se preocupar em montar um bunker no porão ou ser convocado pra lutar.

O que a Rússia quer da Ucrânia e como essa bagunça começou?

Tecnicamente, a Rússia quer a Ucrânia de volta à sua órbita de controle e sem influência ocidental, além de reconhecer a soberania russa sobre a Crimeia e, possivelmente, a independência de Donetsk e Luhansk. O que o Putin quer, especificamente, é deixar um legado como grande estadista que restaurou a influência e a grandeza da Rússia – ele chegou a dizer que a queda da URSS foi a maior tragédia política do século XX anos atrás.

Lembram quando a Crimeia foi anexada pela Rússia em 2014? Então, um pouco antes disso, a Ucrânia estava trabalhando em se aproximar da União Europeia e era governada por um “fantoche” do Kremlin, um cara chamado Viktor Yanukovich, que barrou a aproximação com uma canetada. Em seguida, ele foi deposto por um movimento da população. Este movimento recebeu o nome de Euromaidan pela importância da Praça Maidan durante as manifestações.

Depois, um governo interino assumiu, eleições foram realizadas e novos governos sem influência russa foram eleitos – Poroshenko primeiro, depois o atual presidente Zelensky. Isso fez com que o Kremlin perdesse o controle sobre a política ucraniana e começasse a “apadrinhar” os dissidentes das regiões com maior número de russos étnicos e simpatizantes do Putin. A anexação da Crimeia já é história e o Donbass (as partes de Donetsk e Luhansk controladas pelos rebeldes pró-Rússia) mergulhou numa guerra civil que perdura até hoje.

Antes que alguém diga que o Euromaidan é neonazista, explico o motivo da associação (mentirosa): um dos personagens mais conhecidos pela luta pela independência ucraniana, Stepan Bandera, chegou a colaborar com a ocupação nazista por acreditar em suas promessas de libertação da URSS. O fim dessa história está na internet, para quem quiser saber. Algumas poucas pessoas levaram retratos de Bandera para as manifestações, mas difamar o movimento inteiro por isso é o mesmo que querer prender quem usa Chanel por apologia ao nazismo, já que Coco Chanel também era colaboracionista. Russos étnicos não foram perseguidos pelo Euromaidan, a não ser que você queira chamar a revogação do uso do idioma russo como oficial de perseguição.

Como a imprensa russa é controlada pelo governo, Putin começou a difamar o Euromaidan como um movimento neonazista e adotou um discurso cada vez mais conservador e anti-Ocidental (para que quiser saber mais, dê uma olhada nos escritos do Aleksandr Dugin). Poderia falar horas sobre o que isso causou internamente, mas o que interessa aqui é que a Rússia se sente ameaçada pela existência da OTAN e pelo fato de estar cercada de países-membros do grupo. A Ucrânia sempre foi vista pelo Kremlin como sua última fronteira com o Ocidente – a título de curiosidade, Украина (pronuncia-se “Ukraína”) quer dizer “sobre a bordinha/fronteira” em russo – e teria sido a gota d’água. Por isso, a mídia russa tem se esforçado para retratar a invasão como “desmilitarização e desnazificação” de um pedaço roubado da Grande Rússia.

Hoje, 28/02/2022, as exigências russas para parar a invasão foram exatamente uma declaração de neutralidade em relação ao Ocidente pela Ucrânia, a desmilitarização do país e o reconhecimento formal do controle russo sobre a Crimeia. Acredito que exigirão o reconhecimento da independência das províncias de Donetsk e Luhansk também, mas duvido que estes termos serão aceitos.

O que vai acontecer agora? Preciso construir um bunker no porão de casa?

Não precisa de bunker se você estiver no Brasil, essa briga não é nossa e dificilmente seríamos alvo de uma arma nuclear russa no presente momento. Se estiver na Europa ou nos EUA, o risco continua muito remoto, mas mais possível do que nunca neste período pós-Guerra Fria. Pode ler sobre segurança e o que fazer na situação, mas não precisa entrar em pânico ainda. E espero que não precise nunca.

Hoje, dia 28 de fevereiro, as negociações entre a Ucrânia e a Rússia recomeçaram, mas não houve avanços. A Ucrânia pediu por um cessar-fogo e pelo fim da invasão. A Rússia exigiu que a Ucrânia fosse desmilitarizada, se declarasse neutra e o controle russo sobre a Crimeia fosse reconhecido internacionalmente. A invasão continua, as tropas russas já estão quase chegando a Kiev e os ucranianos continuam resistindo. Dentro da Rússia, a população não ficou feliz e milhares de pessoas tem sido presas por protestar. Numa terra em que falar mal do governo ainda pode te levar para um campo de trabalho forçado (pesquisar sobre o que aconteceu no caso Pussy Riot caso queira saber mais), isso é algo bem expressivo.

Duvido que um país que já foi invadido, abandonado pela UE e pelos EUA, e teve terras tomadas pela Rússia aceite a desmilitarização, é uma exigência inaceitável. Isso já foi usado na I Guerra Mundial para criar um casus belli, e é o que eu acho que o Kremlin está tentando fazer agora. Mesmo se um cessar-fogo for assinado, duvido muito que a região fique em paz por muito tempo. Podemos ter mais da mesma guerra híbrida de Donbass ou uma breve pausa antes de outro conflito. UE talvez admita a Ucrânia em um regime especial, OTAN deve se manter reticente quanto a Ucrânia, mas admitir a Suécia e a Finlândia.

Um grande desafio para tentar prever o que vai acontecer é que Putin já provou que não estava blefando em nenhuma das ameaças que fez. Inclusive, já chegou a dizer em um documentário que “não é necessário que exista um mundo no qual a Rússia não exista.” Além disso, o Ocidente sabe muito pouco sobre o grau de prontidão e rapidez do arsenal nuclear russo. Nenhum especialista está se atrevendo a dizer que o risco é nulo, porque aparentemente não é mais. Fora que invadir um país que está flertando com a OTAN é um péssimo jeito de demonstrar que esta é desnecessária, que não deve se expandir e que a Rússia não é uma ameaça.

Acredito que a melhor chance deste conflito não se tornar uma guerra total é a queda do Putin. Não dá pra entender isso sem falar dele em particular, mas long story short: ele foi o único governante pós-soviético capaz de oferecer estabilidade e segurança econômica aos russos e por isso (e por se apropriar da máquina do Estado inteira) está se segurando no poder há tanto tempo. Entre 40% e 60% da população trabalha em estatais ou semi-estatais. Se as sanções causarem um efeito forte e rápido o suficiente para tirar isso dos russos, os protestos irão aumentar muito e causar muito mais comoção. Em algum momento, não poderão ser contidos mais e pode ser que ele caia, principalmente se a OTAN decidir levar liberdade e democracia a Moscou.

Daria para falar da história do Holodomor, daria para falar sobre a contradição que é chamar o governo ucraniano de neonazista e perseguir homossexuais ao mesmo tempo, daria para falar sobre a própria personalidade do Putin e como isso se reflete na política externa russa, mas acho que o que expus aqui já traz mais entendimento sobre a crise.

Por fim, para quem quiser dar uma olhada no que a mídia russa tem dito sobre a guerra, tem o Ria Novosti (em russo) e o Sputnik (disponível em português), ambos do Kremlin. Para quem não está interessado nas fake news russas, a Deutsche Welle, o G1, a Vice e a Al Jazeera estão fazendo boas coberturas. Além disso, para quem se interessa por geopolítica e relações internacionais no geral, um antigo professor meu falou da crise em seu canal “Redes e Poder no Sistema Internacional”.

Ass: Paula


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