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Antigo normal.

Antigo normal.

| Desfavor | | 36 comentários em Antigo normal.

Mais de dois anos de pandemia… apesar de muita gente teimar, precisamos mudar vários hábitos para nos proteger. Sally e Somir tiveram sorte e juízo para lidar com o isolamento social, mas algumas coisas fazem falta. Os impopulares reclamam junto.

Tema de hoje: qual hábito mais te fez falta durante a pandemia?

SOMIR

Essa é engraçada… eu sou caseiro com orgulho, e raramente me incomodo de ficar sozinho. Durante a pandemia eu brinquei várias vezes que tinha nascido para isso, mas dado tempo suficiente, até eu comecei a sentir falta de sair e ver meus amigos. Boa parte da minha vida já estava adaptada ao gosto pela introspecção, até por isso eu demorei bastante para perceber que sentia falta disso.

Não porque eu gosto de sair, sempre começo a reclamar (mesmo que internamente) antes de ir fazer alguma atividade na rua. Não ligo pra bar, para clube, para basicamente nada, mas depois de tanto tempo, eu comecei a notar que tinha uma graça especial em estar fora de casa nesse contexto de diversão, uma que só deu para notar depois de muito pensar.

O texto vai parecer meio arrogante agora, mas eu não sei explicar de outro jeito: o jeito como eu falo e as coisas que eu sei costumam intimidar as pessoas. Não porque eu sou agressivo, mas porque eu projeto uma imagem de alta inteligência e segurança sobre o que falo. Não, eu não falo exatamente como eu escrevo, mas é evidente que o meu vocabulário e capacidade de falar sobre inúmeros assuntos com a pose de especialista começam a deixar outras pessoas inseguras ao meu redor.

Não à toa, as pessoas que acabaram ficando mais próximas de mim são justamente aquelas imunes a esse tipo de intimidação. Sally é um excelente exemplo disso: é uma das poucas pessoas que tem “culhão” de me chamar de idiota e dizer que eu estou errado ao vivo. Ela normalmente sabe do que está falando quando está falando, e nunca tentou fazer pose de inteligente. Todo mundo é corajoso na internet, mas na vida real quase todo mundo tem medo de passar por burro. Alicate é um exemplo de pessoa imune por outros motivos: ele tem zero preocupação em dizer algo e ser desmentido, eu acho a falta de vaidade intelectual dele fascinante.

Mas é claro, esse não é o padrão do resto das pessoas. Antes da pandemia, eu saía um pouco mais e encontrava pessoas em situações onde esse meu jeito não causava barreiras comunicativas. Num encontro casual, ou mesmo numa situação alcoolizada, as pessoas perdem a inibição e tendem a ser muito mais fáceis de conversar. E pra mim, isso faz diferença. É muito mais fácil de lidar com outros seres humanos quando eles não estão medindo palavras na minha frente.

Coisa que fatalmente acontece quando o contexto muda, e o contexto está bem mudado desde que eu entrei em quarentena: são muito mais instâncias de comunicação à distância, por texto. E aí eu realmente fico mais “assustador”, porque o grau de erudição sobe exponencialmente. Não tem gíria e sotaque caipira para aliviar a tensão, não tem eu fazendo piadas horríveis para parecer um idiota, só tem a forma extremamente formal como eu tendo a escrever, e o maior perigo: eu tenho tempo de pensar antes de me expressar. Eu falo muito menos bobagem porque posso tirar a dúvida rapidamente na internet antes de dizer alguma coisa.

E aí, eu sinto essa intimidação acontecendo numa proporção muito maior. Fica mais complicado ter conexões com outros seres humanos. Eu chamo de intimidação porque já aprendi a não ser escroto e arrogante ao escrever, como costumava ser no passado. Claro que podem me achar chato, todo mundo pode ser chato para alguém, mas ou eu sou universalmente chato, o que tornaria meio irreais as amizades que já fiz, ou tem um elemento de incômodo alheio na forma como eu me expresso.

“Somir, você está reclamando que é muito inteligente para conversar com outras pessoas? Não é à toa que não têm paciência para você!”

Calma, calma. Não é isso. É uma forma de se expressar que parece distanciar pessoas recém-conhecidas. Forma que fica muito mais severa quando eu converso com pessoas em contextos mais formais, como o da escrita. Eu tenho muita vaidade intelectual, sei que é um defeito, mas é um pouco mais forte do que eu consigo controlar, para tentar demonstrar que eu sou uma pessoa interessante e realizar conexões com outras pessoas, eu tendo a exagerar na exibição do meu conhecimento e capacidade de raciocínio.

Eu já tentei controlar isso antes, mas infelizmente eu viro um babaca condescendente quando tento. E não tem jeito, todo mundo percebe! Acho que não seria um bom ator. Se é para ser chato, que eu seja chato fazendo a coisa que me deixa mais feliz: pedir aceitação demonstrando inteligência. Eu não faço por mal, e só sofre com isso quem é mais inseguro ainda. Eu até fiquei em dúvida sobre falar sobre isso aqui, mas eu sou só um fantasma na sua internet, não vai impactar minha vida.

“Fale com seu terapeuta, isso não tem a ver com o tema!”

Tem sim. Eu sinto falta de sair e beber um pouco, mesmo não ligando nem um pouco para estar bêbado, porque nessas situações eu me sinto mais bem ajustado e tenho muito mais facilidade de interagir com outras pessoas. Não porque eu fico mais corajoso, mas porque desliga temporariamente essa vaidade intelectual e facilita conversar com as pessoas. O ambiente mais descontraído e a superficialidade de conversas com recém-conhecidos me fazem sentir um pouco mais humano. O que de tempos em tempos, não é um sentimento tão ruim.

Com a pandemia, eu acabei dentro de uma fortaleza de vaidade intelectual, o que matou inúmeros primeiros contatos com outras pessoas, que talvez tenham achado que era difícil falar comigo, ou talvez tenham achado arrogância e/ou frieza mesmo. Eu acho que melhorei nisso com o passar dos anos, mas não existe isso de melhorar 100%.

Quando as coisas melhorarem, eu vou querer sair um pouco mais. Não porque o ato de sair me faça tanta diferença assim, mas porque eu tenho mais chances de começar novas relações e me sentir mais aproximável. Eu queria ser robô, mas não sou.

Outro motivo pelo qual eu resolvi falar do tema por esse ângulo é porque eu acredito que tenha mais gente parecida comigo nesse tema lendo, gente que possivelmente nunca tenha pensado nisso. Vaidade intelectual é algo que eu vejo pouca gente considerando, achando que é só sobre sua aparência física, mas ela existe em diversos contextos. Importante: vaidade não é uma coisa necessariamente ruim, mas faz bem prestar atenção para ver se ela não está exagerada.

Fica a dica, caso você seja do mesmo time que eu. Às vezes é bom se permitir ser mais estúpido, porque no fundo, no fundo, todos somos um pouco. A pandemia não está ajudando com isso, vale a pena considerar.

Para dizer que seu maior defeito também é ser perfeccionista, para dizer que é só malhar que eu melhoro, ou mesmo para dizer que vai cobrar a consulta: somir@desfavor.com

SALLY

Qual o hábito do “antigo normal” que mais te faz falta?

Exercício de força resistida (musculação, pilates etc), que, no meu caso, teria que ser com aparelhagem própria. O resto eu posso fazer virtual. Eu me planejei para essa pandemia, eu sabia que seria demorado. Eu adaptei minha vida e minha casa para isso em tudo que podia, mas, para a parte de atividade física não foi possível. Calhou do tipo de exercício que eu entendo como o melhor para mim não ser viável de executar em casa. Do resto não sinto falta de nada.

Encontrar amigos? Teria que ser online de qualquer forma, não posso culpar a pandemia por isso, pois mudei de país. Não usar máscara? Para quem não sai de casa, ou sai muito raramente, não chega a ser um incômodo significativo. Sair de casa? Não sinto falta, usei esses dois anos de pandemia para fazer da minha casa o lugar mais confortável possível.

Nunca fui uma pessoa de muito contato físico com amigos, por sinal, com quase ninguém. Não gosto que fiquem me pegando e tenho horror a amigas que se encontram, gritam e se abraçam. Se fizer isso comigo, viro as costas, finjo que não conheço e vou embora. Então, amigos desempenham uma função intelectual na minha vida: conversar, trocar ideias, dar e receber conselhos, falar barbaridades e rir disso. E, para isso, não precisa de presença física.

Família eu nunca tive perto mesmo, moravam todos fora do Brasil, então, não é como se fosse um grande sofrimento repentino não poder ver a minha avó ou meus primos. Minha vida sempre foi assim. Nada mudou.

A pessoa com a qual eu me relaciono mora comigo desde antes da pandemia, então, juntos estávamos, juntos continuamos. Nada mudou. E quem era importante na minha vida veio morar comigo também durante a pandemia, pois eu sempre soube que essa porra ia demorar muito para passar. Quem é realmente importante está debaixo do meu teto desde o dia 1 da pandemia.

Trabalho? Eu já estava em Home Office antes da pandemia e funciono muito melhor em Home Office. Espero nunca mais na minha vida precisar me deslocar para ambiente de trabalho e ter que conviver com colega de trabalho. Então, essa pandemia, nesse ponto, só jogou a meu favor me assegurando ainda mais esta realidade deliciosa.

A única coisa que eu realmente não posso fazer e me faz falta é me exercitar da forma que eu escolhi, da forma que mais saúde me proporciona, da forma que estou acostumada: com aparelho de academia. Nestes dois anos de pandemia eu não cheguei a cogitar nem por um segundo, nem nos melhores momentos, pisar em uma academia.

“Mas Sally, você pode fazer outros exercícios em casa”. Posso, posso sim. Um exercício escroto e triste e muito menos eficiente é o que me resta. Zero sofrimento, tá tudo bem, não malhar é o menor dos problemas. Mas, ainda assim, é o que mais me faz falta. Das outras opções, poucas valem o esforço pois acho aviltante a prática e o resultado deixa muito a desejar.

Atividade física ao ar livre é coisa de gente das cavernas. Faz séculos que os seres humanos aprenderam a construir tetos e não ficam mais à mercê de intempéries. Quem quiser regredir esse tanto e se expor a calor, frio, vento, chuva ou o que mais vier, fica à vontade. Eu mantenho a minha civilidade e quero um ambiente com temperatura estável e sem chuva ou neve caindo na minha cara enquanto me exercito.

Esportes nunca fiz. Tenho horror. Tenho medo da bola, não tenho espírito de equipe e tenho horror a empurrão, contato violento e gritos. Nem tenho físico para isso. Exercício aeróbico eu tenho ojeriza, pois além de fazer cair tudo, até a pele do rosto, é um esforço inútil que só queima gordura: é enxugar gelo o resto da vida. Luta muito menos, essa agarração com estranhos transpirados e trocação de porrada eu passo longe. Como vocês podem ver, eu fiquei meio sem opção.

E nem venha tentar me convencer dessas doenças tipo “treino funcional” que eu não sou cachorro de agility. Muito menos cross fit que eu não sou uma degenerada que atenta contra o próprio corpo. Meu exercício é solitário, no meu tempo, no meu ritmo, sem professor lunático gritando.

O que eu poderia fazer com prazer como forma de atividade física que não fosse exercício de força resistida seria qualquer dança, coisa que desde os 15 anos faço aos montes. Mas, infelizmente dança, que para mim era também saúde mental, está fora da mesa. A menos que eu queira ficar dançando sozinha, o que não é o caso, pois não sou maluca nem tenho prazer em pagar de.

Seja dança ou qualquer outra atividade, ambiente fechado com outras pessoas eu não me arrisco, nem tanto por mim, mas por medo de me contaminar e matar as pessoas que me cercam. Quem, como eu, convive com grupo de risco não pode se dar ao luxo de contar com a sorte. Não tem “com todos os protocolos de segurança”, eu sou bem-informada o suficiente para saber que não existe protocolo de segurança suficiente para impedir contágio em ambiente fechado, ou seja, em academia.

Resta fazer em casa. E fazer exercício de força resistida em casa pressupõe fazer precário, pois eu não sou rica (nem perto disso) e não tenho nem espaço nem dinheiro para montar uma academia para mim. Para fazer precário eu prefiro fazer outra coisa, o que mais se aproxime do custo-benefício que eu desejo. A porra da Yoga, que eu não gosto, mas, entre as opções disponíveis, é o melhor custo-benefício.

Exercício de força resistida em casa é para gente rica ou para gente que faz malfeito. Teria que comprar alguns aparelhos (nem tudo é peso e caneleira) e mesmo que gambiarre forte e decida fazer tudo livre, teria que comprar muitos tamanhos de halter e caneleiras, para cada região do corpo, que, quem treina sabe, devem aumentar de carga a cada 15 dias. Não há qualquer condição.

Isso quer dizer que exercício de força resistida, que é o que eu realmente acredito que gera saúde e estética eu não posso fazer. Tá tranquilo, é um preço muito baixo a se pagar em uma pandemia. Tem gente que perdeu o emprego, tem gente que perdeu a vida, tem gente que perdeu uma pessoa amada. Eu perdi apenas músculos.

E esta provavelmente vai ser a minha realidade nos próximos anos: Yoga. Repito: um preço muito, mas muito barato a se pagar por uma pandemia, mas como perguntaram do que eu sinto mais falta, respondi a verdade.

Eu não sinto falta de estar fisicamente com amigos, eu acho um alívio não ter convite para sair. Eu não sinto falta de festa, barzinho ou reunião. Eu acho tudo isso um saco. Eu sinto falta de ter o corpo que eu quero com a saúde que ele me proporcionava.

Enfim, é isso. Esse é meu White People Problem. Repito: zero sofrimento, a maior parte das pessoas perdeu muito mais do que músculos nessa pandemia.

Para dizer que sou fútil (só estou respondendo à pergunta), para me indicar bons vídeos de Yoga ou ainda para dizer que sedentário estava, sedentário continua: sally@desfavor.com


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