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Depoimento: Crise de saúde em Manaus.

Depoimento: Crise de saúde em Manaus.

| Desfavor | | 44 comentários em Depoimento: Crise de saúde em Manaus.

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Depoimento: Crise de saúde em Manaus.

Moro em Manaus e gostaria de compartilhar os fatos que estão acontecendo por aqui. A ampla cobertura pelos meios de comunicação não é capaz de traduzir os sentimentos prevalentes aqui na cidade: medo, desespero e revolta. Todas as comparações realizadas, por mais chocantes que sejam, são apenas uma pálida analogia da real situação. Tudo isso causado por uma mistura da imprudência e da negligência com as quais tanto o governo local quanto nós, manauaras, encaramos a pandemia desde o início.

Não entrarei no mérito de quem é a culpa, do que poderia ter sido feito e não foi. Não, não farei isso. Quero compartilhar os relatos e vivências que chegam até a mim.

A crônica da tragédia anunciada foi escrita por muitas mãos, nos mais diversos setores da sociedade manauara. A caminhada para a beira do abismo que se transformou o colapso da rede hospitalar começou com coisas do tipo:

  1. Houve um evento no Teatro Amazonas, organizado pela Secretaria de Cultura do estado, com um dos Bois de Parintins, cidade essa que é um dos principais focos de ocorrência da doença desde o início da pandemia. Resolveram trazer um número grande de componentes assegurando que todos estavam saudáveis. Resultado: algum assintomático na comitiva proporcionou a contaminação e o óbito de diversos integrantes da agremiação, inclusive o de uma grávida que teve que passar por uma cesárea de emergência para tentar salvar a criança.
  2. O recuo do governador após a passeata para liberarem o comércio na cidade. Ali a sirene do “vai dar merda!” foi acionada. Com a revogação do decreto, muito comemoraram a “vitória” da população (leia-se comerciantes) e do seu direito de ir e vir. Mas a conta chega, ela sempre chega.
  3. Aqui houve uma “epidemia” de rolês aleatórios e clandestinos TODOS os finais de semana desde que proibiram festas na cidade. Para todos os gostos! Funk, forró, “boi” (ritmo regional muito valorizado por aqui) e até gospel… parece que ao saber de que estava proibido de participar desse tipo de aglomeração, a cabeça do manauara explodiu e se tornou questão de honra organizar/participar desse tipo de coisa. E a vontade era tanta que eram blitz todos os finais de semana com vária detenções e eles iam cada vez mais longe, geograficamente falando, para realizar os eventos e cada vez mais lotados…

Apesar de haver muito mais fatos que colaboraram para o panorama calamitoso que atualmente enfrentamos, essa é uma amostra do que nos levou a chegar a este ponto.

Hoje podemos ver em todos os hospitais da cidade, sejam públicos ou particulares (que foram os primeiros a suspenderem os atendimentos, mesmo quando ainda não haviam alcançado a capacidade máxima de internação e cobrando valores exorbitantes de cheque caução para receber os doentes), cenas de desespero generalizadas.

Não adianta ter o melhor plano de saúde, ter dinheiro em espécie nas mãos (e, acreditem, rolaram muitos casos de tentativas de suborno para comprar leitos e furar a fila de internação com as pessoas literalmente se engalfinhando nas portas dos hospitais – isso a mídia não mostrou) se não há o que “comprar”. Aqueles com posses ainda buscaram mandar seus parentes para fora do estado, mas a maioria não conseguiu.

Como as pessoas estão sem a opção de socorro médico nas instituições de saúde, são forçadas a ficarem em casa, aumentou consideravelmente o número de óbitos domiciliares. Estava conversando com uma amiga, contando sobre o falecimento de um colega de trabalho, quando ela começa a chorar dizendo que a mãe estava morrendo na frente dela em casa. Eu acompanhei em tempo real isso acontecer, pude escutar ao fundo os gritos dos demais familiares, a angústia através da ligação…foi surreal… nunca imaginei passar por essa experiência macabra… NUNCA!

Houve também os casos de falecimento nas unidades hospitalares por falta de oxigênio medicinal, amplamente divulgado nas mídias, o que por si só já é de um absurdo sem precedentes. Falando com uma amiga médica, ela disse que o nível de depressão entre os profissionais de saúde aumentou e que muitos pensam em desistir não pela rotina extenuante, mas pelo fato de que não tem insumos básicos, não apenas oxigênio, para executar os procedimentos. Disse, ainda, que na tentativa de manter os pacientes até os auxiliares de limpeza se ofereciam para “ambuzar” (ventilar manualmente) os pacientes. Pessoas próximas a mim presenciaram isso. Não escutaram falar…

Ou receber mensagens como “Acabei de perde meu tio por parte de pai. Minha tia falou que estão morrendo em serie sem oxigênio. Cena de filme. Acabou o oxigênio. Meu tio foi um desses. Mana tô em Pânico. Agora vai ter toque de recolher. Eu vou fica em casa por esses tempo. Não vou sair pra nada nada. Vou me resguarda com a meninas.. Se cuide mana.. tá tenso por aqui” (sic).

Ainda há a questão do sepultamento dos corpos. O maior cemitério em funcionamento, conhecido como Parque Tarumã, é localizado em uma área verde da cidade. Dia após dia tem sido necessário derrubar as árvores da mata interna para abrir clareiras e escavar as valas coletivas onde os caixões são colocados empilhados. Os cortejos só podem ser de até três pessoas e apesar disso sempre há congestionamento de carros funerários com longas filas na estrada que lhe dá acesso. Todos os que enterram seus familiares dizem que não conseguem esquecer a cena da retroescavadeira em ação…e para complicar mais a situação dramática, estamos em épocas de chuvas torrenciais na região norte, o que aumenta o risco de as “sepulturas” recentes serem destruídas ou levadas pelas águas já que a maioria está localizada em áreas declivosas com solo recém revolvido…

Quando eram apenas NÚMEROS as pessoas não se importavam, não havia caído a ficha…mas agora que se transformaram em NOMES, tudo saiu do campo do abstrato.

Lamentável é que tenhamos tomado consciência da necessidade de ficar em casa apenas após tantas perdas. Mais lamentável ainda é que essa consciência ainda não chegou a toda a população daqui.

Não sejam como nós. Observem e aprendam pelo o exemplo, pois o ser humano costuma aprender pelo amor ou pela dor. E a segunda opção é infinitamente pior.

Se cuidem. Fiquem bem.

Por: Saloli


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