Skip to main content
Embate.

Embate.

| Somir | | 14 comentários em Embate.

Ontem à noite aconteceu o primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden, candidatos à eleição presidencial americana. Muita gente estava curiosa para ver a interação entre os dois e quem sairia por cima nessa disputa. Mas talvez por falta de material humano decente ou mesmo uma mudança cultural que parece não ter mais volta, o que vimos foi algo inédito: os dois conseguiram perder o debate.

Sei que a maioria dos brasileiros não se importa com debates, mas aqui é importante estabelecer um pouco da cultura dos americanos: mesmo que o americano médio não seja lá essas coisas quando falamos de erudição e cultura geral, a capacidade de se portar bem numa discussão diante de uma plateia tem um valor cultural especial para o povo de lá. Como diversos outros elementos desse jeito americano de ser, é algo mais relacionado com o “show” do que propriamente com o aspecto intelectual. Jovens entram para clubes de debate como atividades extracurriculares e existem campeonatos em diversas escolas e até universidades.

Nessa modalidade de “debate esportivo”, o tema é secundário à performance do debatedor. É sobre aprender a se controlar numa discussão e conseguir se impor com as palavras e a postura. Pode-se argumentar que isso cria pessoas que tentam ganhar argumentações ao invés de aprender com elas, mas não muda o fato que há um peso maior para o debate presidencial americano do que o brasileiro, por exemplo. E como são sempre dois candidatos dos dois únicos partidos viáveis por lá, a disputa fica ainda mais acirrada. Uma boa performance e a percepção popular de ganhar o debate podem fazer diferença para o povo americano na hora de votar.

Na eleição anterior, Trump pode não ter falado nada muito coerente nos debates contra Hillary Clinton, mas deu ao povo americano o show que eles queriam. Muitos outros elementos contribuíram para sua vitória daquela vez, mas os debates contribuíram para consolidar a imagem do homem laranja como no mínimo alguém que sabia se impor e que não era um absoluto retardado mental como a mídia de massa pintava até ali. Foi o suficiente para o americano médio dar acesso ao botão das armas nucleares para Trump.

Mas o mundo girou bastante entre aqueles debates e o realizado ontem à noite. Girou tanto que parece ter ficado meio tonto… o que se viu na discussão entre Trump e Biden foi considerado por muitos dos analistas americanos como um dos piores exemplos de debates presidenciais da história. Foi uma discussão que me fez duvidar se não estava vendo um reality show por engano. Se o “debate americano” é um esporte, parecia a quinta divisão jogando.

Todo mundo sabia que Trump seria irritante, pois essa sempre foi sua estratégia, mas até ele parecia fora do tom: atropelou Biden e até mesmo o moderador sem parar, não deixando ninguém falar em paz. Sei que muita gente acha que falar alto e interromper te faz parecer mais forte numa argumentação, mas isso é falso: só demonstra sua insegurança. Quem está seguro do que vai falar e confiante na solidez do seu ponto de vista não se altera dessa forma, especialmente num ambiente formal. Trump se deu bem na eleição passada por ser um rolo compressor nos debates, mas não era sobre falar sobre a voz dos outros, era sobre controlar o rumo das discussões para onde ele se sentia seguro e dar seu show quando era a vez dele falar. Ficar interrompendo dessa forma demonstrou uma fraqueza que não era característica dele até então.

Biden, por sua vez, tinha que estabelecer que era uma pessoa controlada e racional, mas ao mesmo tempo demonstrar que não era um banana diante do atual presidente. Com os rumores de uma suposta degradação mental sobre sua campanha, muitos americanos esperavam apenas que ele se mostrasse coerente. Coerente ele foi. O problema é que faltou um pouco mais de força. Sim, muita gente acha que chamar Trump de palhaço, como ele chamou, serviu para estabelecer a coragem de Biden, mas quem viu o debate sabe que foi feito de uma forma chorona, reclamando com o “tio moderador” sobre o amiguinho chato. Biden poderia escolher um caminho de desafio direto ao valentão ou poderia se portar de forma superior, mas não fez nem uma coisa nem outra. Acabou vencido pela chatice de Trump e entrou no jogo da interrupção constante, reclamando em voz baixa de tempos em tempos. Se vai confrontar, faça isso de verdade.

Mas… e os temas? Por que eu estou falando tanto da performance? Oras, estamos em 2020. Os temas já eram subordinados à presença dos candidatos em debates anteriores, hoje em dia eles perderam quase que todo o significado. Nada de novo no fronte, ambos repetiram as opiniões de conservadores e liberais, desviando de responder algo real quando as polêmicas surgiam. Talvez a única informação nova de verdade no debate tenha a ver com o Brasil, Biden disse que vai dar 20 bilhões de dólares para a gente cuidar melhor das florestas, e se não aceitarmos o mimo, vamos tomar sanções econômicas. Vai ser divertido ver o Bolsonaro lidando com o Biden, disso eu tenho certeza.

Os temas não desenrolaram no meio da bagunça que foi a discussão, e no máximo vimos ataques pessoais, alguns baixos até mesmo para o padrão da política: Trump chamou o filho de Biden de drogado, nesse momento parecia que as bolas de Biden iam finalmente descer, mas logo a confusão que foi a tônica do debate todo se rearmou e ninguém conseguiu desenvolver mais nada. No final das contas, os defensores de Biden disseram que ele ganhou o debate, os defensores de Trump fizeram o mesmo com seu candidato. Seja lá o verdadeiro estado da corrida presencial no momento, ele parece o mesmo depois do evento de ontem.

As pesquisas continuam colocando Biden como vencedor, mas já vimos esse filme quatro anos atrás. O BLM e a Antifa podem estar criando uma nova onda de “republicanos envergonhados” que só vão falar o que realmente pensam na hora de votar. Foi numa dessas que Trump reverteu uma chance de 98.1% de Hillary Clinton ganhar a eleição passada. E falando em eleição, talvez o tema que mais tenha avançado foi o tema final do debate, talvez pelo cansaço de ambos de discutir como favelados se atropelando por mais de uma hora sem parar.

O sistema eleitoral americano é uma bagunça, com o Colégio Eleitoral e a falta de padronização na forma de votar. A cada quatro anos todo mundo reclama, mas continuam na mesma. A polêmica da vez tem a ver com os votos pelo correio. Sim, por lá a pessoa pode votar num envelope e mandar para a apuração posterior. O que em tese é uma vantagem em tempos de pandemia, mas na prática permite que Trump coloque muitas dúvidas sobre a idoneidade do processo. Trump vem falando há meses sobre possíveis fraudes nesse sistema, apontando que é possível que o usem para manipular os resultados. Biden defende a segurança do processo.

E toda essa polêmica existe porque, novamente, o sistema eleitoral americano é uma bagunça: cada estado tem suas regras. Alguns já mandaram as cédulas para as pessoas que pediram, outros só vão mandar no dia da eleição. São entendimentos diferentes da legislação eleitoral que os estados têm o direito de ter. E isso vai causar um problema: não se sabe quantos votos vão ser feitos pelo correio, porque ainda não terminou o prazo para a população pedir por essas cédulas, e como o voto não é obrigatório por lá, é complicado estimar os números.

Daí, surgem muitas possibilidades: a pessoa que recebeu antes pode mandar seu voto e o correio não entregar antes do dia da apuração inicial. Os votos podem ser extraviados (como já parece ter acontecido) no meio do caminho. Ou, no caso dos estados que só mandam as cédulas no dia, tem o tempo de chegar, de receber de volta e apurar. E, mais bagunça: ninguém é obrigado a votar, então como saber se a pessoa quis votar mesmo ou se foi alguém fazendo isso por ela? Uma coisa parece certa na eleição americana, salvo um massacre de um candidato ou do outro, vai ser muito difícil apurar o vencedor no dia da votação oficial.

E a trama se complica: o país não pode esperar para sempre por esses votos pelo correio. Eventualmente os delegados (as pessoas que votam em nome do povo no sistema de Colégio Eleitoral) precisam tomar a decisão final. E, é claro, o vencedor precisa se preparar para assumir o cargo antes do dia da posse. Num mundo ideal, todos os votos por correio chegam e são apurados antes dos delegados votarem. Num mundo real, é bem possível que ninguém entre em acordo sobre a quantidade de votos que faltam ser apurados. Como não é obrigatório, ninguém vai saber se está faltando ou não até o voto chegar.

Eventualmente, precisam tomar uma decisão de quem vai ser o presidente. E esse tipo de decisão acaba na suprema corte deles. O que nos faz lembrar da polêmica sobre Trump querer colocar sua indicada no cargo antes da eleição na vaga da juíza que morreu e os democratas dizendo que isso não pode acontecer de forma alguma. Quem tiver o controle da suprema corte tem as maiores chances de ter uma decisão a seu favor na hora do aperto da indefinição eleitoral. Ou decidem logo o presidente, ou enrolam para dar mais tempo de votos chegarem. Foi mais ou menos assim que George W. Bush ganhou de Al Gore em 2000. Se contassem todos os votos, o democrata venceria, mas como não contaram por serem apurados depois de uma data limite, Bush levou.

Só que 2020 não é 2000. O grau de animosidade entre republicanos e democratas é muito maior, o povo está muito mais dividido e vários movimentos violentos pipocam entre direita e esquerda. Apesar da caracterização meio bizarra da mídia de “grupos de supremacia branca” de todo mundo menos à esquerda que Lênin, existem sim grupos se formando para enfrentar a Antifa (que Biden continua mentindo que não existe) e mais recentemente, o BLM. E o medo de muita gente que a direita comece a pegar em armas para impor sua vontade não é infundado. Radical é radical, não importa a bandeira que carregue.

E como pudemos ver no debate, a verdade é secundária ao discurso político num grau nunca antes visto. Sem a verdade para mediar as interações de fanáticos de esquerda e direita, com a mídia sem credibilidade e as instituições perdendo valor, algo muito ruim pode acontecer nos EUA a partir de novembro. Algo muito ruim que com certeza vai vazar para outros países, especialmente os viciados em imitar os americanos… conhece algum país assim?

O debate de ontem foi um sinal da deterioração do sistema democrático na democracia mais poderosa do mundo. Dois velhos se portando como crianças inseguras, mais interessados em pregar para seus fiéis do que gerar consenso, e pior: sentados num barril de pólvora estrutural causado pela insanidade do seu sistema eleitoral. Espero estar errado, mas… 2020 parece que ainda não terminou seu serviço.

Para dizer que parecia discussão da Fazenda, para dizer que Trump já foi mais divertido, ou mesmo para dizer que quer sua parte dos 20 bilhões em Playstation 5: somir@desfavor.com


Comments (14)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: