
Tchutchuca.
| Desfavor | Desfavor da Semana | 12 comentários em Tchutchuca.
Se está em dúvida por que escolhemos o tema, releia a chamada da notícia. Desfavor da semana.
SALLY
Eu juro, não queríamos falar novamente de política nacional, está ficando repetitivo, mas aconteceu um episódio tão delicioso que não pode ser ignorado.
O cenário foi uma audiência pública sobre reforma da Previdência realizada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O Ministro Paulo Guedes foi até lá para esclarecer aos Deputados algumas dúvidas e questionamentos sobre a reforma da Previdência.
Eis que um deputado com cabelo alisado e descolorido muito similar ao do He-Man fez uma interpelação, digamos, atípica. O Deputado Zeca Dirceu, filho do criminoso já condenado José Dirceu, provou mais uma vez que só sobra a escória do chorume no PT e, em uma tentativa de acusar Guedes de favorecer privilegiados e prejudicar o povo, solta uma frase muito infeliz usando como referência uma letra de funk do Bonde do Tigrão.
Entre outras coisas, ele chamou Guedes de Tchutchuca (a protagonista feminina da música), ao que prontamente Guedes respondeu com todo garbo e elegância (“Tchutchuca é a sua mãe!”) e depois o chamou de Tigrão. A confusão de instaurou de tal forma que no final das contas pessoas foram parar na delegacia. Enquanto isso, uma Deputada que estava atrás, ao ver que começou treta, colocou uma latinha de Coca-Cola com o logo virado para a câmera, tentando visivelmente fazer uma propaganda. Ê Brasil…
Vocês sabem que eu não sou elitista musical, muito pelo contrário, porém, quando se está em plenário ou em qualquer ambiente minimamente formal, acredito que Bonde do Tigrão não seja a melhor metáfora para expressar sua opinião, sobretudo quando você foi colocado ali por eleitores que pagam seu salário para que você elabore lei para melhorar o país. Então, muito me espanta que o pessoal da esquerda esteja comemorando, achano que o Filhote de Dirceu “lacrou”. Na minha modesta opinião, citar Bonde do Tigrão não é lacre, é vergonha.
Sabemos que o outro lado não é propriamente conhecido por sua erudição. Bolsonaro solta umas pérolas estilo “Não vô, tô cum bolsa de cocô, tá ok?” quando perguntado sobre comparecimento a um debate. Nesta mesma semana tivemos outra pérola: quando perguntado sobre eventuais arrependimentos de declarações mais pesadas que deu no passado ele achou pertinente, como Presidente da República, compartilhar com a nação que lidera que fez xixi na cama até os cinco anos de idade dizendo “Vou me arrepender porque fiz xixi na cama até os cinco anos? Saiu, pô…”. Não é apenas o excesso de compartilhamento, é comparar suas falas com excrementos corporais.
Mas é aí que reside a diferença. Bolsonaro sempre foi isso aí. Péssimo, porém autêntico. A esquerda não, sempre se colocaram no papel de intelectuais, pensadores, bastiões da inteligência, erudição e cultura. E expõe seus argumentos citando Bonde do Tigrão. Eu sinceramente duvido que Dirceu Baby não possua qualquer outra referência para dizer que Guedes é generoso com alguns grupos e rigoroso demais com outros. Foi escolha citar Bonde do Tigrão, o que só torna tudo mais triste. Querer emular o estilo degradante do Bolsonaro é o fundo do poço.
E, que fique claro: absolutamente nada contra citar Bonde do Tigrão, eu mesma devo ter citado aqui ao longo destes dez anos – só que eu não me digo intelectual. Tudo contra tacar pedra no coleguinha por ser bagaceiro, vestir a capa da erudição e depois discutir reforma da Previdência usando Bonde do Tigrão. Isso se chama incoerência, hipocrisia, cara de pau.
E tudo contra dobrado para quem acha que isso é “lacrar”, é “mandar bem”, é digno de aplausos. Sinceramente, se vocês continuarem aplaudindo quem cita Bonde do Tigrão em discussão sobre reforma da Previdência não apenas o PT não se elege nunca mais, como ainda vão começar a sofrer consequências disso no mercado de trabalho. Eu deixo de contratar alguém se vou nas redes sociais da pessoa e vejo que ela aplaude uma coisa dessas. A esquerda desaprendeu a argumentar, no palanque e na vida.
Não importa a merda que Paulo Guedes pudesse estar falando, quando uma Barbie com pênis levanta e o chama de Tchutchuca, quando um Deputado usa Bonde do Tigrão para provar seu ponto, acaba de ofuscar qualquer bosta que eventualmente tenha sido dita. É impressionante como a esquerda não cansa de ofuscar as vergonhas da direita indo lá e fazendo algo muito pior. Custa se portarem de forma digna, ou, se não for possível, ao menos ficarem calados? Basta isso para que o Bolsonaro nunca mais se eleja: ficarem calados, para que as merdas dele fedam sozinhas.
Para completar este circo patético, o grupo de funk Bonde do Tigrão se pronunciou oficialmente sobre o ocorrido, defendendo Paulo Guedes. Sim, Senhoras e Senhores, vivemos em um país onde a discussão sobre a reforma da previdência tem pronunciamento oficial do Bonde do Tigrão. Leandrinho, vocalista do Bonde do Tigrão, lamentou que os termos de suas músicas tenham sido usados dessa forma. A fala dele me deixou assustada, vou transcrever tal qual foi dito:
“a música foi criada como uma brincadeira elogiando as mulheres e não para tornar-se pauta e alusão desconexa sobre um assunto que requer seriedade para nossa sociedade”.
Vocês percebem o que isso significa? Leandrinho, vocalista do Bonde do Tigrão, tem mais bom senso e coerência do que Deputado do PT. Se tem alguém de esquerda com um mínimo de poder lendo isto, faça um favor à causa: extinga o PT, crie um partido de esquerda completamente novo, sem lacre, sem histeria, sem hipocrisia e proíba a entrada de quem já foi PT ou PSOL nele para não manchar o nome. Em três anos vocês estão na presidência novamente.
Como dano colateral, afinal, desgraça sempre vem em bandos, esta fala do Mini Dirceu gerou um boom de buscas e downloads desta e de outras músicas do Bonde do Tigrão, que estava esquecido lá no final da década de 90.
Saldo final: 1) o que foi discutido sobre a reforma da Previdência ninguém sabe, pois Little Dirceu tirou o foco do que era importante falando bosta; 2) Guedes saiu ileso, afinal, não importa as merdas que tenha dito, nada vai explodir com tanta força na opinião pública e na internet como um pseudointelectual argumentando com Bonde do Tigrão e 3) amargaremos um período de retorno do funk carioca no cenário musical.
Brasil… só bomba atômica resolve.
Para dizer que desistiu de se aborrecer e está rindo, para dizer que torce para citarem Polegar na próxima ou ainda para dizer que o melhor cabo eleitoral da direita é a esquerda: sally@desfavor.com
SOMIR
Finalmente a oposição acordou! Na ginástica mental que me fez acabar votando no Bolsonaro também tinha a ideia de deixar o PT fazer o que sempre fez bem: ser do contra. Durante a dinastia do Lula, os únicos tentando lutar contra os descalabros do governo foram o Ministério Público e a Polícia Federal, o Legislativo não estava nem aí, só coletando mensalões e petrolões, felizes por ajudar a saquear o país. Alguém tem que enfrentar o governo no campo político, colocar alguns limites. No mínimo, forçar Bolsonaro e sua equipe a explicar direitinho o que estão fazendo para o país. Eu também desenvolvi horror do PT nessas últimas décadas, mas em tese é saudável para o país ter de volta uma oposição.
Mas, pelo visto, ser oposição não é como andar de bicicleta. O PT esqueceu como fazer, e essa primeira tentativa terminou num tombo. Sim, eu lembro quando o Suplicy leu a letra de uma música do Racionais para seus nobres colegas, mas mesmo ali, o nível era completamente diferente. Não é nem elitismo, é só constatação do óbvio: tem mais Q.I. em um rap dos Racionais do que na produção musical inteira do funk carioca até hoje. Mas estou saindo pela tangente. Seja como for, Suplicy era um idealista, que por mais maluquices que fizesse, sempre soava honesto (deve ser a única pessoa do mundo que acredita de coração na inocência do Lula e não está só tentando defender sua turma a qualquer preço). Mas, os paulistas decidiram que não queriam mais ele por lá.
Seja como for, não é como se fosse a primeira gracinha do PT com cultura popular, mas dessa vez o filho do José Dirceu (a maçã podre não cai longe da árvore) não tinha a mínima estatura intelectual ou propósito para sustentar seu plano de provocação. A discussão era séria, o tema é considerado de importância máxima para o governo, e apesar de Paulo Guedes ter demonstrado uma baixíssima inteligência emocional, como é a marca do governo Bolsonaro, ainda havia um pouco de civilidade ali. Sim, eles estavam trocando farpas e ironias o tempo todo na sabatina, mas ainda tinha uma ilusão de civilidade. Eu quero que os políticos não tenham emoção? Quero. Acredito que é possível? Não. Então, o mínimo é não descambar para macaquice.
Descambou. E por mais que pareça um exagero ficar puto porque um deputado citou a rica história do funk carioca, devemos analisar o contexto: era uma sessão da CCJ sobre a Reforma da Previdência! Paulo Guedes estava lá para fazer uma defesa técnica sobre um trabalho extremamente complexo que deve ter ocupado muita gente por vários meses. Vamos concordar que não é o lugar ou a hora de usar analogias coloridas, ainda mais depois do clima de animosidade instalado por outros deputados que provocavam Guedes constantemente. Não podemos esquecer que eles estavam lá há muitas horas. O barril de pólvora estava tão exposto que até mesmo uma bobagem dessas era capaz de lançar a faísca que faltava.
Zeca Dirceu é um babaca por ter feito o que fez? É. Paulo Guedes é um descompensado por não ter apenas desprezado Zeca? É. Alguém aprendeu alguma coisa com tudo isso? Não. Um dos maiores problemas dessa história toda é que a discussão técnica estava em segundo plano, por definição. O nível médio do Legislativo é vergonhoso, muitos deles incapazes de sequer entender qual o seu trabalho. Foram vencedores de um concurso de popularidade cuja barreira de entrada é dinheiro para pagar a campanha. E até por isso, quando fazem um evento desse tipo, só estão lá para usar o palanque e aproveitar a atenção da mídia. Tenho certeza que Paulo Guedes teve que responder as mesmas perguntas inúmeras vezes, afinal, não importa a discussão, e sim a oportunidade de ser filmado fazendo uma pergunta. Deve ser terrível explicar repetidamente seu plano para um bando de analfabetos funcionais que não tem o menor interesse em sequer entender o que você está falando.
E olha que Paulo Guedes é da turma dos fãs do Olavo de Carvalho. Difícil achar vida inteligente nesse planeta… no final das contas, é isso que nos resta na política brasileira: gente bem limitada brigando sem parar pela oportunidade de exercer poder sobre nós. Por mais que fosse meu desejo instalar uma palhaçocracia no Brasil (honk honk) com o voto no Bolsonaro, o processo ainda é desagradável de se ver. Até o aceleracionista mais ávido tem um coração. Se não sabe o que é aceleracionismo, semana que vem eu tiro a sua dúvida.
Sim, foi ridículo, mas foi uma boa mostra de como funciona o processo político brasileiro (e não duvido que seja assim na maior parte do mundo), gente tentando chamar atenção e ganhar palanque usando o futuro da nação como desculpa. Dirceu demonstrou como não tem maturidade para estar na posição que se encontra, um mínimo de bom senso sugere não botar fogo numa discussão que pelo menos em tese deveria ser tão valiosa para o país. Guedes não conseguiu relevar e deixou suas emoções tomarem conta. No final de tudo, sobra a sensação que ninguém ali realmente se importa com a função que exerce, e sim em quantas manchetes vai aparecer no dia seguinte.
Quase como se fossem… celebridades. Esse é um dos problemas mais sérios do governo Bolsonaro no momento: é tamanha a sanha de “jogar para a torcida” que acabam deixando o país em segundo plano. Entramos num ponto onde direita e esquerda lutam para ver quem consegue lacrar mais, colocando a disputa pessoal acima de qualquer questão coletiva. Eu realmente esperava que a oposição começasse a trabalhar com mais força e tentasse recuperar um pouco da imagem desgastada por anos e anos de corrupção petista, mas não vai ser o caso. Vai ser na base da tchutchuca e estratégias de publicidade baratas.
Uma pena, porque eu ainda não estava convencido sobre a reeleição do Bolsonaro, mas se Zeca Dirceu é o que a oposição tem para nos mostrar, é bom colocar o nariz de palhaço, porque o show vai continuar por muitos anos ainda.
Para dizer que palhaçocracia é a única saída, para dizer que se quisesse ver criança brigando voltaria para a escola, ou mesmo para dizer que em algum momento Zeca Dirceu planejou dizer isso (vergonha alheia): somir@desfavor.com
“a música foi criada como uma brincadeira elogiando as mulheres e não para tornar-se pauta e alusão desconexa sobre um assunto que requer seriedade para nossa sociedade”.
Isso aí foi obviamente redigido pelo advogado da entidade “Bonde do Tigrão”, pois “alusão”, “pauta” e “desconexa” são palavras extremamente distantes do vocabulário de um favelado médio funkeiro. Achei bom deixar essa observação aqui.
Ainda que seja, dói bastante que o adEvogado do Bonde do Tigrão tenha mais bom senso do que quem nos governa
Vocês estão sendo muito negativos com essa citação do Bonde do Tigrão. O mundo mudou, século XXI, temos que inovar! Em vez de partidos políticos vamos ter Bonde do Lula, Bonde do Bolsonaro, etc. Em vez de direita e esquerda, que são muito século XIX, vamos ter lado A e lado B. Aí eles podem transformar o Congresso em um grande baile de corredor e se matarem lá dentro, olha que bom!
Se estão trazendo de volta Sandy e Jr, Bonde do Tigrão pode também, tudo porcaria.
Para dizer que na próxima sessão vão citar Lacraia e MC Serginho, para dizer que da próxima vez vai ser MC Créu e para pedir Romulo Costa como deputado federal.
Mc Loma Presidente!
Nossa! O cenário político brasileiro se reduzindo a uma nota sensata de Leandrinho. Ainda há tempo de devolver essas terras aos índios.
Ou dar para funkeiro governar…
“Para dizer que palhaçocracia é a única saída” Acho que, no fundo, nunca deixamos de viver em uma, Somir…
Horroroso seu comentario.
Eu sei que foi errado e falta de decoro, mas ri quando estava assistindo a live e o Baby Dirceu disse isso
A esquerda brasileira está em farrapos, primeiro aquele episódio com a Gleisi roubando a pasta e dizendo “Vem buscar!”, depois isso
sabe que eu não duvido que o lula seja anistiado “pela história”, e com ele ainda vivo pra ver, se hoje já existe adolescente de 14 anos que não viu seu governo mas endeusa o cara… virou culto nortecoreano mesmo…
foi mal mas não consigo sangue frio pra dialogar com gente quem me chama de fascista sem nem me conhecer e quer mais é que eu morra ou fique sem emprego, só ignoro mesmo e não me contamino e já passou da hora de criminalizar ou pelo menos tornar socialmente inaceitável apologia dessas merdas de comunismo, socialismo, fascismo, revolução, nenhum “bem maior” justifica acabar com a vida de inocentes… 2030 tá chegando mas parece que essa discussão nunca vai acabar.
Carai nunca vamos ser levados a sério. Também rolou uma porradaria na Câmara do Macapá durante uma sessão, provavelmente discordaram da divisão do dinheiro roubado, político é tão ruim que nem eles mesmos se aguentam.
Sinceramente alguém tranca as fronteiras deste país e começa a borrifar raid até morrer todo mundo
“Para dizer que desistiu de se aborrecer e está rindo”. Pois eu fiz exatamente isso, Sally! Li o seu texto entre risos. Mas era aquele riso meio nervoso de quem está desconfortável, sabe? É cada absurdo que acontece nesta pocilga que fica difícil de acreditar, mas nós, que estamos aqui todos os dias, sabemos que, infelizmente, é assim mesmo. Eu ri tanto do fato em si quanto da sua descrição, mas o que pasmo mesmo, boquiaberto, estupefato, foi este trecho:
“Para completar este circo patético, o grupo de funk Bonde do Tigrão se pronunciou oficialmente sobre o ocorrido, defendendo Paulo Guedes. Sim, Senhoras e Senhores, vivemos em um país onde a discussão sobre a reforma da previdência tem pronunciamento oficial do Bonde do Tigrão. Leandrinho, vocalista do Bonde do Tigrão, lamentou que os termos de suas músicas tenham sido usados dessa forma. A fala dele me deixou assustada, vou transcrever tal qual foi dito:
“a música foi criada como uma brincadeira elogiando as mulheres e não para tornar-se pauta e alusão desconexa sobre um assunto que requer seriedade para nossa sociedade”.
Vocês percebem o que isso significa? Leandrinho, vocalista do Bonde do Tigrão, tem mais bom senso e coerência do que Deputado do PT.”.
É de fazer cair o cu da bunda mesmo… E não foi só você que ficou assustada com o fato de o cara do Bonde do Tigrão ter sido mais sensato nessa história que o deputadinho petista filho do Zé Dirceu, viu? Pois é, esse é o paiseco em que a gente vive… Que merda, hein?