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Dá licença?

Dá licença?

| Desfavor | | 19 comentários em Dá licença?

Uma mulher tem direito a alguns meses de licença maternidade após dar a luz. Um homem, bem menos. A ideia discutida hoje já faz parte da lei de alguns países e está em estudo em vários outros. Sally e Somir não se afastam da discussão. Os impopulares pedem licença.

Tema de hoje: homens deveriam ter o mesmo tempo de licença paternidade do que a mulher tem de licença maternidade?

SOMIR

Não. E eu nem vou tentar amaciar a argumentação do meu ponto de vista, vai ser desagradável mesmo: o mercado de trabalho já está bem ineficiente como está, e mexer na lógica que governa a insanidade masculina com trabalho é arriscar demais. Meu ponto é o seguinte: esse mundo só é minimamente possível porque homens trabalham muito mais pra fora de casa do que pra dentro. Pode-se discutir se isso é bom ou ruim, mas não que dependemos demais disso pra manter o mundo funcionando agora.

E por mais que o meu lado humanista esteja tentado a permitir mais cuidado com as novas gerações, vamos ser realistas, acima de tudo: o mundo não funciona de forma ideal, e não vai mudar tão rapidamente. Os países que aplicaram a equiparação entre as licenças de homens e mulheres passaram por séculos e séculos de preparação para isso, e mesmo assim, ainda não mudaram completamente a lógica do funcionamento humano: de forma genérica, homens são mais focados em objetos e mulheres em pessoas.

Quer dizer que todas as pessoas são assim? Claro que não. Mas na média você vai encontrar muito mais homens bitolados com trabalho do que mulheres. E nem estou usando isso como um grande elogio para os homens, apenas como uma realização. Quem tem menos foco em família trabalha mais e rende mais para o mercado. Tanto que a famigerada diferença entre salários de homens e mulheres não só desaparece como inverte quando comparamos mulheres que não são casadas ou tem filhos a partir de uma certa idade. O foco em família pode ser saudável para a espécie, mas não gera o grau de exploração necessário para manter a economia rodando.

Se tentáramos fazer essa coisa bonita de igualdade, vamos ver uma queda violenta na produtividade e ainda aumentar problemas familiares. Homens não foram feitos para dedicar tanto tempo assim a outro ser humano, esse não é o forte deles. Quer dizer que todos os homens são assim? Claro que não. Mas não se faz políticas públicas para fugir da média. Um homem forçado a tirar seis meses de licença vai pirar. Não foram feitos para tanto tempo de foco em família assim, logo vão arranjar algo pra fazer pra fugir de casa. Se mulher que tem dez zilhões de hormônios feitos para agüentar uma criança remelenta quase enlouquece nesses primeiros meses, o que dizer de um homem?

Pode até ser triste essa realização se você for mulher, mas homem não serve pra isso (em média). Pais tem que ser presentes, mas a imensa maioria deles não tem capacidade de fazer o mesmo que uma mulher, nem a genética colabora. Homens são focados em objetos e funções.

Dar seis meses de licença paternidade pode ser ainda pior para a família. Se cidadão não puder se livrar por pelo menos oito horas por dia daquela situação desgraçada, o número de divórcios pós licença vai crescer exponencialmente. A mulher sem condições de nada além de cuidar do bebê, com outro em casa? Vamos criar relações de ódio entre os casais. Pode até achar que todos tem que sofrer juntos, mas cada um é mais preparado para um tipo específico de sofrimento.

Grandes coisas se você acha que homem é vagabundo e não ajuda em casa, não é uma canetada que resolve essas coisas. Todos os homens ditos relapsos com a família não vieram de chocadeiras. Viemos de milhares de anos de evolução onde homens saiam de casa para cuidar das coisas desse mundo e mulheres cuidavam de pessoas em casa. Estamos lentamente vendo a sociedade se reorganizar para dar mais liberdade para homens e mulheres inverterem esses padrões, mas isso não muda magicamente a disposição natural e o treinamento que tiveram durante toda a vida.

Mulheres tem hormônios para isso e uma lavagem cerebral social desde a infância para achar cuidar de criança uma coisa linda. Todas as mulheres são assim? Não, mas na média funciona desse jeito. Homens tem um foco humano menor de nascença e são treinados para trabalhar fora de casa. Vai mudar isso com uma lei, é? Enfia um cidadão em casa por seis meses com uma mulher que não pode fazer sexo e uma criança que exige atenção constante e você vai ter uma receita de desastre.

E azar se você achar isso correto ou não, é o que vai acontecer. A licença paternidade tem que ser maior do que ridículos 5 dias, mas é terrível para a sociedade que seja do mesmo tamanho que a da mulher. Deixa o cidadão em casa um mês pra segurar o pior, e depois salva esse casamento mandando ele de volta pro trabalho! E outra, a produtividade já é uma merda neste país com metade da força de trabalho passando meses fora a cada rebento, imagina com dois? Esse gentalha faz filho até não poder mais. E até parece que essas regras diminuiriam a natalidade: ou vocês acham que esses filhos são planejados?

Forçar igualdade não dá certo. Estamos vivendo literalmente a era onde percebemos isso! Foi mal que ter filho dá mais trabalho pra mulher, mas nenhum homem é diretamente responsável por isso. É a natureza, a mesma natureza que deu mais ferramentas para mulheres agüentarem isso. E sorriam que o mundo está tão mole que mulheres tem licença maternidade, antigamente tinha que ser mulher, trabalhar, ter filho durante o trabalho e continuar.

Quer igualdade forçada? Não tenha filhos.

Para dizer que adora quando eu fico machista, para dizer que detesta a realidade, ou mesmo para dizer que não pediu para ter um útero: somir@desfavor.com

SALLY

Homem deveria ter o mesmo tempo de licença paternidade que a mulher tem de licença maternidade? SIM.

A licença é pensada para bem estar da criança. Não é possível que alguém ache que uma criança com uma mulher sozinha, privada de sono, de uma refeição decente e de um mínimo de higiene está na melhor das condições. Seria, no mínimo humano, permitir que esse pai fique em casa ajudando essa mãe. Uma mulher que passou por mil desconfortos por nove meses, por um parto e agora vai encarar a rotina de cuidados de um recém-nascido realmente precisa de ajuda.

Existem coisas que são indelegáveis, como amamentação, por exemplo. Ou seja, partimos da premissa que a mulher vai ter que acordar de duas em duas horas para que a criança coma por vários meses. Se ela ainda tiver que fazer todo o resto, fica meio puxado, não? Depois de mamar tem que colocar o serumaninho para arrotar, processo que pode demorar mais de vinte minutos. Depois, possivelmente vai ter que trocar a fralda do serumaninho, pois como entrou comida, a que estava dentro acaba saindo. Depois tem que tentar colocar o serumaninho para dormir, processo que também pode demorar. Resumindo: esta pobre coitada quase não dorme.

Uma mãe precisa da ajuda do pai da criança por meses, até eu que sou uma idiota sem a menor noção de nada sobre bebês consigo perceber isso. O estado de perda total que a mulher fica nos primeiros meses de vida do bebê é lastimável. Entendo que na época em que a lei foi criada homem era provedor e mulher era parideira e que nessa mentalidade a mulher que se foda. Mas hoje, com tanto pseudoempoderamento, muito me espanta que um prazo arcaico de apenas alguns dias continue sendo aceito.

Igualar esse prazo também regularia o mercado de trabalho, pois mulheres não seriam mais vistas com receio, por causa da licença maternidade. Todo imbecilóide que quisesse ter filhos seria mal visto, o que, em última instância, é muito mais justo: botou filho no mundo? Comprometeu sua carreira com meses de afastamento. Nada a ver o filho estragar a vida de apenas uma pessoa do casal, estrague de ambos, digo, por mera questão de equidade.

Babaquinha isso de homem poder meter o pé e trabalhar. Se eu ganhasse um real por cada homem que já vi ficando até mais tarde no trabalho sem qualquer necessidade, só porque não aguenta mais cuidar de bebê… Chega a ser feio: ligam para as esposas, fazem um discurso indignado do quanto queriam estar em casa e sentem falta dela e do bebê, mas infelizmente terão que trabalhar até tarde e… quando desligam ficam contando piada com os colegas.

Mas olha, eu queria ver se com uma mudança dessas, que fodesse diretamente com a carreira deles, teríamos tanto homem cuzão tendo filho só porque a mulher está insistindo. Quando o caldo entornar para o lado deles, aí sim a decisão será tomada como deve ser: bem pensada, conversada e discutida, e não pressão desvairada de um cérebro marinado em estrogênio. Se a licença paternidade tiver obrigatoriamente o mesmo prazo da licença maternidade, aposto que a taxa de natalidade cai.

Nem todo mundo tem mãe, sogra ou família perto e/ou disponível para auxiliar. Muitas mulheres de fato estão sozinhas com uma criança. E, mesmo que tivessem, porra, a responsabilidade é, antes da mais nada, do pai.

A verdade verdadeira, que as pessoas não admitem nem para elas mesmas, é que o pai, apesar do discurso de amor e saudade do filho, sente um puta alívio quando volta a trabalhar. Alívio por retomar sua vida, por não ficar trancafiado na mediocridade de fralda, mamada e vômito dia após dia. Só que é escroto, é cruel com a mãe. A criança estaria muito mais bem cuidada se esta pobre coitada desta mãe pudesse dividir as tarefas com o pai durante todo o período da licença maternidade.

Os homens vão querer? Não vão querer, como bem podemos ver pela opinião do meu indigníssimo parceiro de blog. Lógico, a gente sabe, na frente das esposas o discurso muda, afinal, homem tem mais medo de DR do que de perder o controle remoto da televisão. Mas cá entre nós, conversei com muitos homens antes de escrever este texto e todos me confidenciaram que não gostariam de ter essa obrigação/incumbência, ponderando o que poderia acontecer com suas carreiras. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Assim é bem fácil fazer filho.

Percebam que não quero ferrar com a vida dos homens. Quero dividir as tarefas de forma mais justa. Se hoje mulher se ferra muito e homem se ferra pouco, quero que a mulher se ferre um pouco menos e o homem passe a se ferrar um pouco mais, para equilibrar o mundo. Então, não estou desejando mal nem nada do tipo: ter filhos é uma escolha, tem quem quer.

A palavra da vez não é igualdade? Então vamos ver se é de verdade e vamos igualar de uma forma que prejudique os homens profissionalmente. Mas olha… acaba o discurso igualitário na hora! É consenso social que homem tem que ajudar em coisas muito menos importantes como lavar a louça (experimenta você se negar, dizendo que quem tem que fazer isso é mulher!), mas não tem que ajudar em algo muito mais importante, que é cuidar 24 horas por dia do serumaninho que colocou no mundo? Tá errado isso aí.

Direitos iguais? Deveres iguais. Muito feio isso de colocar filho no mundo e três dias depois sair saindo. Deixar uma mulher cujo corpo é uma rave de hormônios, já cansado de uma gestação e suas privações, cuidando o dia todo de um bebê que demanda muitíssimo. Ah vá! Não vomitou, não ficou sem dormir por nove meses, não passou por um parto! Tá muito mais inteiro do que a mulher, tenha vergonha e fique em casa pelo mesmo tempo que ela ajudando com a cria!

Para dizer que meu texto consegue ser ofensivo e protetivo ao mesmo tempo, para dizer que prefere conversar e socializar com pessoas adultas no trabalho do que trocar fralda ou ainda para dizer que se homem engravidasse a raça humana estava extinta faz tempo: sally@desfavor.com


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