
Menor internet.
| Desfavor | Ele disse, Ela disse | 11 comentários em Menor internet.
Redes sociais vieram para ficar. Gostando delas ou não, a maioria das pessoas está presente em pelo menos uma delas. E com novas gerações chegando, Sally e Somir discutem como deve ser a introdução delas ao formato. Os impopulares discursam a partir de seus perfis.
Tema de hoje: pais devem permitir que crianças tenham redes sociais?
SOMIR
Sim. Não porque eu sou fã de redes sociais, mas porque eu leio o tema de hoje como uma discussão sobre enxugar gelo. Uma coisa é ter o pensamento crítico necessário para criticar essa cultura virtual que está se formando no mundo, com divisões excessivas, câmaras de eco e competição feroz por atenção, outra completamente diferente é achar que é a tecnologia e não o que as pessoas fazem com ela que deve levar a culpa.
Posso ser crítico com redes sociais e ao mesmo tempo entender que a ferramenta pode ser muito interessante e que já está integrada no funcionamento mínimo da vida da maioria das pessoas com acesso constante à internet. A pessoa tem documento, a pessoa tem perfil de rede social, e a linha entre as duas coisas está cada vez mais borrada.
Por mais que eu entenda a necessidade de proteger crianças da parte ruim da internet, isso hoje em dia tem que ser feito com a presença da internet. Não é mais questão de deixar seus filhos acessarem ou não, é inescapável se você não quiser alienar totalmente seus rebentos. A própria educação está seguindo por esse caminho, considerando que as crianças de hoje já nascem na era digital e não conhecem nada além disso. Quem cresce usando interfaces como smartphones e tablets enxerga o mundo de uma forma bem diferente do que enxergávamos em épocas desconectadas.
O conceito de conexão com outros seres humanos à distância com uma proximidade incrivelmente maior do que as gerações criadas com televisão vai gerar um novo paradigma de relações na sociedade. E não dá pra lutar contra a evolução dessa forma. Tirar seu filho da internet nos dias de hoje é análogo a educar a criança em casa em décadas anteriores: limita a interação social e cria uma visão de mundo muito reduzida, o que vai impactar a vida adulta. Talvez eu e você que fomos crianças em tempos onde falar ao telefone era a experiência de contato mais virtual que tínhamos não precisemos de redes sociais para lidar com o mundo, mas quem já vem inserido no contexto atual, pode ser até um perigo tirar a criança do fluxo natural das relações humanas.
O problema agora é aceitar que redes sociais fazem parte da realidade da criação de um ser humano, e com base nisso fazer a proteção da criança. Se você não deixa uma criança andar sozinha na rua por medo do que pode acontecer, porque deixaria ela solta numa rede social? Faz parte do jogo atual. Crianças ficaram mais caseiras, os pais de hoje tem menos problemas com filhos sumindo na rua, mas vão ter mais com interações perigosas na internet. Nada é de graça na nossa evolução.
Nem estou dizendo que é para forçar a criança a ter uma rede social por pura conformidade, só que quando ela demonstrar o interesse de socializar, mesmo que pela internet, é melhor aceitar que vai dar trabalho e deixar. Os novos seres humanos são mais “autistas” que os antigos, passam muito mais tempo isolados na frente de uma tela, e como somos seres sociais, vão buscar conexões até lá. Muito se engana quem acha que uma criança vai deixar de achar gente perigosa na internet só por não ter um perfil “oficial”. O que parece complexo em matéria de computador para os pais é a segunda língua do filho (talvez até a primeira). A criança vai fazer sua socialização virtual por conformidade, com um perfil sancionado pelos pais ou através de vias mais anônimas.
Melhor deixar a criança ter um Facebook conhecido do que descobrir um Snapchat secreto, não? E outra: o mundo já foi tanto nesse caminho que todas as redes sociais tem alguma forma de tentar mitigar os danos de acessos de crianças. As pessoas pentelharam os canais de TV para não mostrar coisa ruim para seus filhos, e estão fazendo o mesmo com as redes sociais. Tá cheio de filtros e bloqueios. Todos podem ser facilmente burláveis por crianças, mas só de dar mais trabalho do que simplesmente consumir conteúdo automaticamente, já diminui a intensidade dos inputs negativos que ela recebe.
Não digo isso com alegria, mas… as pessoas já estão deixando suas crianças tanto tempo na internet que a tendência é existirem mais e mais ferramentas por lá para criá-las. Vejam o que aconteceu com a TV, no meu tempo tinha desenhos e mulheres com pernas de fora de manhã e depois disso só as baixarias tradicionais. Hoje em dia tem uns 50 canais 24 horas para ser babá de criança. Quando o mercado nota que os pais só querem algo para distrair seus fedelhos por algum tempo, começam a pipocar produtos e ferramentas para deixá-los mais em paz com sua “desistência”.
E, porra, criança é inocente, mas cada geração é menos. A noção de perigo aumentou, eu mesmo nunca fui informado que não era pra entrar em carros de estranhos. Não tinha defesa nenhuma contra isso, porque simplesmente ninguém pensava nisso. Atualmente crianças são informadas de muito mais coisas desse tipo, inclusive com as babás eletrônicas da TV paga. A Xuxa não me dava conselhos mais complexos do que tomar café da manhã. Podem apostar que mesmo sendo muito mais inocentes que adultos, as crianças de hoje não são tão indefesas contra o mundo como as gerações que vieram antes. Não é pra soltar na rede social e dizer se vira, mas também não se pode confundir crianças de tempos pré internet com as atuais. São bichos diferentes.
E já que tudo isso vai acontecer diante dos olhos dos pais ou pelas costas, que pelo menos esteja sob um mínimo de controle. Afinal, gostando nós ou não, esse povo vai crescer num ambiente cada vez mais virtual e quanto mais cedo souberem lidar com outras pessoas na internet, melhor.
Para me chamar de velho, para dizer que internet faz mal e eu sou a prova, ou mesmo para dizer que prefere não se decepcionar com seu filho tão cedo assim: somir@desfavor.om
SALLY
Pais devem permitir que crianças tenham redes sociais? Não.
Perceba que não estamos falando de adolescentes (entre 12 e 18 anos), estamos falando de crianças, de 0 a 11 anos de idade. Crianças não tem o discernimento necessário para gerenciar uma rede social e, o mais importante, para compreender os riscos que elas implicam. No gerenciamento os pais podem até ajuda, mas na parte da compreensão de riscos não. Não é algo ensinável, crianças com menos de 12 anos podem acabar fazendo coisas que custarão caro, talvez para o resto de suas vidas, por não conseguir antever as consequências negativas de seus atos.
Não existe uma criança que só mexa em redes sociais na presença dos pais, a menos que ela não tenha coordenação motora para fazê-lo sozinha. Crianças são espertas e dão seu jeito de mexer sem que os pais saibam: redefinem a senha quando não a sabem e depois retornam à senha antiga para que os pais não desconfiem, acessam de lan house ou da escola para não deixar provas no navegador de casa e muitos outros recurso que eu já escutei da boca das próprias crianças para navegar livres por suas redes sociais. Acreditem, crianças são melhores do que homens para esconder as bostas que fazem na internet.
Eu não preciso dissecar aqui os perigos ao qual se expõe uma criança sem supervisão em redes sociais, né? Desde acesso precoce e distorcido a temas adultos até pessoas mal intencionadas que podem manipulá-las a fazer coisas que podem prejudica-las para o resto de suas vidas. Não falo apenas de pedofilos que convencem sua filha de dez anos a tirar a roupa e ligar uma camera como parte de uma brincadeira, a precocidade de informação pode causar estragos significativos na cabeça de uma criança, que reverberam para o resto da vida.
A ideia de total controle do que uma criança faz é ilusória, mesmo antes das redes sociais. Quem nunca aqui fez uma besteira que não chegou ao conhecimento dos pais quando era criança? Criança mente mal, mas omite bem. É possível que uma criança omita algo por dias, meses. Não fosse assim, não existiram crianças sexualmente abusadas, pois contariam tudo ou deixariam transparecer logo no primeiro abuso. Então, não seja arrogante de pensar que seu filho é incapaz de mentir ou omitir. Uma vez aberta essa porta da rede social, se trabalha com o conceito de risco.
É ruim que todos tenham redes sociais e só o seu filho não tenha? Deve ser chato sim, mas ao ponderar os dois desgostos, acho que o que prejudica menos a criança é a exclusão pontual por não ter rede social. Obviamente a criança não vai achar isso, mas justamente por esse motivo criança precisa de pais: não sabem o que é melhor para eles. O preço de escolher criar um filho no Brasil é esse: se você quiser que a criança cresça saudável, parte da premissa que vai ter que vetar muitas coisas que são liberadas de forma irresponsável para crianças neste país.
Não nego que navegar pela internet gera um aprendizado sobre seus perigos e que alguém privado deste aprendizado vira um adulto bobo e presa fácil das maldades online. Porém o período para este aprendizado não é na infância e muito menos em redes sociais. É após os 11 anos, ainda com supervisão dos pais. Terão toda a adolescência para aprender. Infância é período de proteção, não de aprendizado sobre os perigos da pedofilia, sexualidade precoce, estelionato e violência. Uma criança pequena ainda não tem estrutura para aprender esse tipo de coisa, muito menos na própria pele e com imagens ilustrativas da internet.
A cultura do que se faz em casa é um dos principais determinantes sobre o caminho que seu filho vai seguir. Não é o que se diz, é o que se faz. Não adianta que sua mãe te diga mil vezes que o cigarro faz mal se ela fuma, grandes chances do filho fumar também. Além disso, quando certos valores e comportamentos fazem parte da cultura da casa, eles são assimilados sem qualquer sofrimento pela criança, por ser algo normal.
Vou me usar como exemplo: na minha casa nunca entrou refrigerante. Não era proibido, simplesmente não havia a cultura de consumir em casa. Se eu quisesse, poderia beber em eventos fora de casa, mas meus pais nunca beberam. O resultado é que eu simplesmente não gosto de refrigerante e nunca sofri por isso. Não foi um sacrifício ou privação, cresci em um ambiente onde não se consumia esse produto, logo, não fiz nenhuma associação afetiva com ele. Hoje não bebo refrigerante sem esforço, apesar de ter crescido cercada por crianças que sempre consumiram essa bosta química.
Isso se chama Walk The Talk. Faça o que você prega. É o método mais eficiente de educação que existe. Mais do que conversa pura, mais do que castigo. Então, em uma casa onde os pais não prestigiem redes sociais e não passem horas do seu dia na frente do computador, não será um sofrimento para uma criança não ter rede social. Ela será entretida e estimulada de outra forma pelos pais, com brincadeiras, esportes, jogos de tabuleiro, jogos de montar, conversa e leitura. Não existirá na criança o desejo extremo de ter rede social.
O problema ocorre quando os pais não seguem o que pregam. Dizem que rede social é perigoso mas passam boa parte do dia no computador e dão importância a redes sociais, comentando coisas do “Face” ou do “Insta” (gente que se refere com intimidade a nome de rede social merece uma surra com uma meia cheia de pilhas). Aí obviamente a criança sente que aquilo é algo legal, importante e que ela está excluída. O desejo da criança é ser como os pais, ela observa os que os pais fazem e tende a assimilar aqueles comportamentos como algo natural ou desejado. Se comporte de forma decente que metade da criação do seu filho já estará resolvida.
Outro problema ocorre quando o espelho para os filhos não são os pais, que vivem muito ocupados ou muito ausentes em função do trabalho. Pais que ficam com os filhos uma hora no café da manhã e duas horas depois do jantar não criam o vínculo necessário para ser espelho para seus filhos. Assim, a criança se mira na babá, no coleguinha da escola ou até em personagens da ficção. Os valores dessa criança serão pautados por aqueles em quem elas escolheram se espelhar e muito provavelmente ter rede social será uma parte importante para sua aceitação, gerando uma frustração terrível não tê-la. Sejam pais presentes e cultivem uma cultura saudável dentro de casa, dando o exemplo que tudo vai ser mais fácil e menos sofrido para as crianças.
Expor seus filhos a riscos e traumas só para não lidar com a encheção de saco e frustração de dar um “não” é inadmissível. Uma boa criação implica em proteger seu filho e arcar com a putez dele diante de uma negativa de tempos em tempos. Pais não são amigos dos filhos, são, antes de mais nada, pais e são eles quem sabem o que é melhor para a criança. Uma pequena frustração certamente é melhor do que um grande dano ou trauma irreversível, mesmo que seu filho não entenda isso hoje, um dia ele vai te agradecer.
Para dizer que eu não posso opinar por não ter filhos, para dizer que não confia em quem não bebe refrigerante ou ainda para jurar que sabe tudo que seus filhos fazem: deixe seu comentário.
Concordo com o Somir. Crianças são facilmente influenciáveis, de propagandas a criminosos. Até porque dar a oportunidade de criar uma rede social implica também na postagem de fotos e informações desnecessárias e que podem ser perigosas se acabarem nas mãos erradas.
O próprio facebook é fonte inesgotável de fotos para pedófilos. E estamos falando de postagens feitas por adultos! Imagina ao que uma criança sem maldade estaria sujeita na internet, mesmo com a supervisão de adultos. Outro dia saiu no jornal que um fã-clube de uma atriz mirim famosa estava sendo usado para aliciar crianças. Mesmo que os pais estejam monitorando a atividade online, um momento de descuido é o suficiente para dar merda.
Nesse caso… você não concorda comigo?
Aff..pensei uma coisa e escrevi outra. Concordo com você!
Meg, você está concordando com a Sally (!); e aparentemente até além do que ela defendeu (proibir também adolescentes, é isso ?)…
Sim sim ,escrevi errado. Concordo com a Sally.
A minha opinião não se estende a adolescentes, acho missão impossível evitar que eles tenham redes sociais. Mas, é indispensável também orientação para tentar evitar qualquer tipo de problema. Não tenho muita certeza sobre vigiar o que os adolescentes fazem na internet , apesar que deve ser tentador para os pais (minha mãe certamente fazia isso).
Concordo com o Somir. O fato da criança ser introduzida ainda antes da adolescência, faz com que ela tenha até mesmo mais domínio da ferramenta, e, de fato, é algo que não tem como ser evitado, pois está há um toque do smartphone.
De fato, criança não segue palavras, mas o exemplo, na prática.
Mas, desta vez, tenho que concordar com o Somir. Não adianta proibir. A internet faz parte da vida delas. Cedo ou tarde, elas vão criar um perfil, se for o caso, ate mesmo um fake, para não serem descobertas. O proibido é mais gostoso.
Meus sobrinhos e seus amigos que me consideravam “amiga” por gostar de video game e levá-los aos eventos não gostam de face nem insta. Eles falam que são coisas de velho. Usam o snapchat e querem ser youtubers. Ficam o dia todo fazendo uns vídeos para publicar no musical.ly. Levei essas criaturas para um encontro desse aplicativo e tinha crianças de 5 anos que postam vídeos quase que diários. Só tinham crianças e alguns adolescentes, mas quando contei pra minha irmã e mostrei os vídeos das crianças ela ficou chocada. Praticamente dá pra saber aonde moram e tudo que tem na casa pq pra fazer uns efeitos que chamam de mágica rodam por toda a casa. E claro, me odeiam. haha
Não vejo como controlar o acesso a internet dessas crianças possuídas de hj em dia.
Acho que o controle em redes sociais é muito difícil, então concordo com a Sally, não acho que uma criança deva ser “solta” nesse ambiente.
Em casa eu sempre tive acesso a internet sem restrições, mas na época isso me incentivou a ser mais curioso… eu nunca liguei muito pro aspecto social da internet até porque na época meus colegas de escola não tinham acesso. Sempre fiz parte de redes sociais mas elas funcionavam mais como uma nova fonte de informação do que como um lugar para fazer amigos.
Hoje com o acesso disseminado a coisa fica muito mais complexa… acho plenamente possível privar uma criança desse tipo de ferramenta, e fiz isso com minha irmã mais nova até ela entrar na adolescência. O resultado foi positivo.
Hoje é difícil ter controle. Você não fica ao lado da criança 24h por dia, em tempos de smartphone
Eu conheço pais que não deram celular para os filhos, somente a partir dos 12.
Ipad tem que ser solicitado e o uso é restrito. A maioria usa para jogos mesmo ou vídeos de bobagens no youtube.
Quando eu era criança ( anos 90) também tinha acesso irrestrito ,mas a internet não era tão presente assim. Era discada ,o que restringia o uso porque ocupava o telefone e era caro, e as redes sociais quase inexistentes. Eu conversava no Mirc e depois icq e não era essa facilidade para mandar arquivos ou ter acesso às crianças.