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Homem carioca.

Homem carioca.

| Sally | | 129 comentários em Homem carioca.

Adoro falar sobre aquilo que eu conheço bem. O texto sai fácil, sai sincero, sai de coração. Permitam apresentar o resultado de um estudo de mais de 20 anos sobre esta espécie curiosa e peculiar: o homem carioca.

A primeira coisa que você deve saber sobre o homem carioca é que existem basicamente duas categorias. A primeira é a dos que são tão burros, mas tão burros que nem ao menos chegam a tomar consciência da sua burrice. A segunda é daqueles que são um pouquinho menos burros do que os primeiros e que, justamente por isso, se acham inteligentões. Quando comparados com os estados mais ao sul do Rio, são quadrupedes, mas, como em terra de cego que tem olho é rei, eles se sentem quase que superiores.

É sério gente. O grau de burrice surpreende até mesmo nas pequenas coisas. Eu acho que no aeroporto do Rio deveriam distribuir broches para pessoas de fora com o dizer “No Rio sou inteligente”. Tá com a autoestima baixa? Tá sendo reprovado na escola, vestibular ou faculdade? Vem pro Rio! Seu ego intelectual vai ser massageado, seja na parte do raciocínio lógico, seja na parte da cultura geral. No que diz respeito ao intelecto você vai se sentir prêmio Nobel por aqui.

Porém, mesmo com o cérebro do tamanho de um caroço de uva, mesmo errando concordância e mesmo sem saber se vestir, o homem carioca se acha. Não, perdão. Ele não se acha, ele se tem certeza. Seguros, tranquilos e com um ar constantemente sexy, andam balançando o tronco de um lado para o outro, relaxados e despojados, com suas vozes meio roucas e cumprimentos bizarros. O carioca tem aquela malemolência sensual 24h por dia, aquela pegada sedutora-brega confiante. A serenidade no olhar de quem sabe que depois que tirar a camisa não precisa mais falar nada.

Sim, o corpo dos cariocas é imbatível, no Brasil todo. Talvez no mundo. O corpo dos cariocas é realmente um espetáculo da natureza. Os cariocas são durinhos. Uma coisa que aprendi é que não vale a pena dar um tapa corretivo no braço ou no peitoral de um carioca quando ele faz algo reprovável: machuca a mão. Corpos de deuses gregos, já a cabeça… nem tanto. O carioca não costuma ser bonito de rosto. Mas o corpo compensa, com o tempo, se aprende a abstrair, até porque estão sempre de óculos escuros, que esconde metade do rosto (50% de feiura a menos ajuda).

Os corpos são bronzeados, durinhos, sarados, muitas vezes sem mérito. Talvez o homem carioca tenha um pacto com o demônio. Só isso explica o quanto eles bebem chopinho e continuam sarados, com uma barriga chapada e muitas vezes de tanquinho. Bebem, bebem, bebem e continuam em forma. E, não importa o quanto bebeu, no dia seguinte, se der sol, o filho da puta estará na praia. Dá mole e, além de estar na praia, tá surfando, jogando futevôlei ou correndo. Minha teoria é: já foi comprovado cientificamente que desempenhar atividades intelectuais cansa muito mais do que atividades físicas. Isso explica a razão do carioca ter sempre tanta energia de sobra.

Porém, este belo corpo tem um preço para nós, mulheres. O homem carioca leva a malandragem nativa para relacionamentos também. Ele simplesmente não é confiável e gosta disso. Ele tem o maior orgulho de ser promíscuo, infiel e de flertar com meio mundo. Na cabecinha dele isso, de alguma forma, é ostentação. Problema algum, basta fazer a coisa direito e não levar o carioca a sério. Não é “homem para casar”. E o curioso é que quando você trata o carioca pegador assim, ele fica extremamente interessado, provavelmente pelo ineditismo da coisa. Não levem homem carioca a sério, por aqui, rejeição é afrodisíaco.

Cariocas apaixonados são muito engraçados, gente. Não sabem como lidar direito, ficam confusos, tentam esconder o que sentem mas dão sinais por todos os poros, tal qual criança mentindo para a mãe. Ciumentinhos orgulhosos, sabe o tipo? Ficam nervosos por pouca coisa e se já não eram uma mente brilhante de boa, no momento do estresse é de rolar de rir. Ficam tão desarticulados que só saem vogais da sua boca quando ele quer brigar com você: “óóóó!”, “ôu! Ôôôuuu!” , “Aê! Aê aí”, “Ô o auê aí ôu!. Chego a sentir ternura.

Eu consigo dizer se um homem é carioca pelo seu caminhar, seja ele um playboy de Ipanema, um magricelo do subúrbio ou um pseudo-intelectual do Leblon. O andar do carioca é típico, um gingado tão cafetão que você chega a ouvir o vento suspirando “gonorreia”. Até o olhar do carioca é identificável. Mas se você não tem a mesma prática que eu, basta olhar para as roupas: cores escrotas e descombinadas, tênis sem meia, boné depois dos 18 anos, camiseta com as mangas cortadas. Tudo isso pode ser sintomas de carioquice. Faça o teste final, aproxime-se e diga, de forma relaxada e displiscente: “Coé?” (tradução: Qual é?, cumprimento popular entre essa raça), se ele responder algo bem informal com intimidade excessiva tipo “Fala irmão” sem nunca ter te visto na vida, pode bater o martelo, você está diante de um homem carioca.

Claro, é possível reconhecer o homem carioca em muitas outras situações. Carioca quando tira a camiseta não puxa por baixo e pela frente. Não senhores. Carioca é sexy, carioca tira a camiseta colocando a mão direita para trás, na altura do pescoço e puxando pela gola. Devem receber aulas de strip-tease na infância ou coisa do tipo, pois tiram a roupa com uma facilidade e sensualidade sem precedentes. Mão para tras e vupt! Em um segundo a camiseta sai como se tivesse sido ejetada do corpo do carioca. É fascinante de se obervar. Eu, se tentar fazer uma porra dessas, fico com a gola enroscada na cabeça e me sufoco. E carioca tira a camiseta para tudo. Tá calor? Tira a camiseta. Tá suado? Tira a camiseta. Peidou? Tira a camiseta também, sempre dessa forma McGyver, se você piscar por meio segundo nem o vê tirando. Carioca tira a camiseta na velocidade da luz.

E por falar em luz… Carioca grita por tudo, até quando falta luz. Depois grita quando a luz volta. Tudo é motivo para um grito. Carioca também te chama de “Gata” não importa quão feia você seja. Carioca te seduz não importa quão horrenda você seja, mesmo com total certeza de que jamais nesta vida irá te comer. O carioca veio com o botão Sedução quebrado no ON. Carioca seduz até a tampa do vaso quando vai cagar, flerta com ela e dá uma piscadinha antes de sentar. Carioca dá olhar sedutor até peixinho dourado em aquário. Carioca olha para cima e sabe te dizer se vai chover, quando vai chover e quanto vai chover. Carioca tem o dom de acordar cedo quando faz sol e dormir até tarde quando chove, o corpo sabe.

E por falar em chuva, o homem carioca entra em uma pseudo-depressão quando chove. Ele fica triste ou irritado. Talvez durma o dia todo, pois não sei se vocês sabem, o homem carioca é movido a energia solar. Quando mais sol, mais o degradado fica hiperativo: corre, passeia, compra, flerta… tudo potencializado pelo sol. E canta. O homem carioca adora cantar, mesmo cantando mal. Essa voz meio rouca pode ser sensual para falar, mas para cantar é uma merda. Mesmo assim eles cantam e ainda acham que cantam bem. Dá no que dá, o mundo funk tá aí para confirmar.

O homem carioca acha que tênis é um calçado adequado para qualquer evento. Ele desconhece ou teme qualquer calçado sem cadarços. Se o evento for mais formal, ele compra um tênis preto ou branco de couro ou lona (que chama de “sapatenis”) e acha que está ok. Só é possível tirar um boné da cabeça de um carioca com intervenção cirúrgica. Também cabe esclarecer que laranja é considerada cor neutra no Rio de Janeiro. Talvez o homem carioca sofra de daltonismo congênito massivo, isso explicaria muita coisa. E blusinha apertadinha e sunga são coisa de macho no Rio. Se depilar não tem o menor problema, existem inclusive clínicas de depilação exclusivas para homens, tamanho o mercado.

O homem carioca, via de regra, tem total domínio do corpo: é bom em qualquer esporte, sabe surfar, nada como um golfinho no mar, dança bem. Para aqueles desafortunados sem coordenação motora, não sobra outra opção que se abrigar nas atividades intelectuais, algo frustrante e mal remunerado no Rio de Janeiro. Se for para se envolver com um carioca, fuja dos pseudo-intelectuais, eles são muito recalcados. Vamos lá, se você vai à Itália, coma uma macarronada, não se vai à Itália para comer sushi, certo? No Rio, invista nos atléticos. O resto, tem melhor em outros estados.

O homem carioca adora cachorro e os cachorros adoram o homem carioca. Não sei o que diabos acontece, mas é uma afinidade absurda, mesmo quando não estamos falando de um cão e seu dono. Talvez a capacidade de aprendizado no mesmo nível, talvez a surpresa de ver pela primeira vez real fidelidade encante, algo desperta uma empatia do homem carioca com cachorro. E os cães respeitam o homem carioca. Essa vibe alfa que carioca emana parece ser sentida também pelos animais.

Por falar em animais… o homem carioca se transforma quando está com os amigos. Todo homem o faz, mas o carioca é pior. O carioca perde a noção de segurança e incolumidade física. Muito cuidado, homem carioca acha que é imortal se tiver amigos ao lado. Pequena observação, só para evitar mal entendido: carioca adora chamar ou apresentar amigo como “Parceiro” ou “Meu Parceiro”. Não é união homoafetiva ser parceiro no Rio de Janeiro. Talvez ele até se refira como “Parça”, pois o carioca tem essa linguagem própria de abreviar as palavras e mudar sua pronúncia.

Cariocas tem uma pegada Mogli, o menino lobo. Adoram andar pelados, com pouca roupa e descalços. Não tem muitos pudores. Adoram a natureza e todas as suas pestilências. Amam os animais, as plantas e o que mais vier de escroto de dentro do mato. Adoram calor, sol e tem uma capacidade sobre-humana de não transpirar. Permanecem dignos no calor. Eu, se passo mais de dez minutos na praia, parece que esfreguei azeite de oliva no rosto e no cabelo: suada, vermelha, desgrenhada. O carioca não. Ele está ali, parado, dourado, seco. Carioca não sua. Eu estou lá, cheia de areia grudada pelo corpo, parecendo um bife à milanesa, enquanto que o homem carioca está impecável. Por razões que desconheço, areia não adere ao corpo carioca. Talvez essa cor que eu achava ser bronzeado seja uma cobertura de teflon que eles tem de fábrica.

Existem dois tipos de carioca: os que amam o Flamengo e os que odeiam o Flamemgo. Não é muito bom juntar os dois quando o assunto futebol estiver em evidência, o homem carioca é um provocador. Na verdade, nunca convém discutir nada com o homem carioca, porque são burros mesmo. Não vale a pena. Use cada ferramenta para o que ela serve: o carioca é uma ótima diversão. Para bater um papo, vá mais ao sul. Passa reto por São Paulo, que mesmo inteligentes são chatos, neuróticos e estressados. Vai mais um pouquinho… do Paraná para baixo, você encontra ótimos papos. Talvez seja preciso dar um choque de realidade em uns mais machistas, mas, vamos combinar, só se incomoda com machismo mulher submissa, quem se garante, acha graça e reverte sem problemas.

Falando em machismo, o homem carioca tenta ser machista. Não consegue, por total incoerência. Quando faz que vai reclamar do jeito que a mulher está dançando, percebe que ele está rebolando mais ainda. Quando vai reclamar do biquíni que a mulher usa na praia, olha para baixo e vê que sua sunga branca molhada mostra mais do que deveria. Ele ensaia um machismo, mas não banca. Ao contrário do gaúcho, que dá um certo trabalho nesse quesito, você dá uns comandos firmes e o homem carioca senta e fica junto. Vai ter quem diga que carioca é machista sim, que trata mulher como bicho. Gente, não é machismo, é coerência. Carioca é bicho: mija no meio da rua, bota o filho pequeno para mijar no meio da rua e caga no mar. São bichos e tratam suas parceiras como bichos também.

Assimile algo, para evitar problemas: o homem carioca atrasa. Mas não é culpa dele, o Rio de Janeiro todo atrasa. Atrasa em um ponto que é considerado falta de educação se você chegar na hora aos lugares. Você é visto como ansioso ou sem noção. Marcou para dez horas com um carioca? Às dez você entra no banho. Outra informação relevante: quando o carioca usa diminutivo, é porque ele vai atrasar pra caralho. Ex: “Pooooaaaaêêê, já tô chegando, Gata, só mais quinze minutinhos”. MINUTINHOS. Pode até tirar uma sonequinha, esse aí vai demorar. Atenção aos diminutivos, quando o carioca usa diminutivo para qualquer coisa, vem algo de proporções homéricas: chuvinha = dilúvio, calorzinho = inferno na terra e chopinho = beber industrialmente.

Você pode ter alguma dificuldade em entender o homem carioca em sua fala, pois além de abusar das gírias, a pronúncia também é exótica. Carioca enfia vogais onde elas não existem (poAAArra, paIstel, caIsquinha), arrasta o R e abrevia palavras. Se quiser treinar, assiste o programa “A culpa é do Cabral” e olha o Rafael Portugal falando, assim você ri e aprende ao mesmo tempo. É preciso prática para entender o carioquês. E se não entender, nem se preocupe, eles nunca tem nada de muito interessante a dizer. Usufrua do corpo, Amiga, que é o que vale.

Como o que o carioca fala não interessa muito, vou te dar “um toque” (como eles mesmos falam) e te ajudar a interagir com um carioca sem precisar se preocupar com o que ele está dizendo. Vou fornecer três respostas coringa que você pode dizer sem medo independente do que o carioca esteja falando. Se ele estiver contando algo alegre: 1) JÁ É 2) DEMORÔ ou 3) PARTIU. Se ele estiver contando algo puto ou triste: 1) NADA VER, 2) MÓ VACILO ou 3) SACANAGEM.

Segue em exemplos algumas frases alegres e tristes que podem ser respondidas sem prejuízo da comunicação por estas respostas coringa:

ALEGRES:

– Ganhei na loteria e quero gastar o dinheiro!
– Estou com vontade de comer caqui
– Esse lugar parece perfeito para a gente tirar uma foto
– Meu cachorro quer cagar, temos que levar ele na rua
– Gol do Flamengo!

TRISTES

– Minha hemorroida estourou
– Roubaram minha carteira
– Minha mãe morreu
– Comeram meu cu na rua
– Li um spoiler de Game of Thrones

Vai sem medo, Amiga: Já é, Demorô ou Partiu se for alegre e Nada a ver, Mó Vacilo e Sacanagem se o semblante do carioca estiver meio triste ou contrariado. Mais: te lanço um desafio: você consegue passar um encontro INTEIRINHO com um carioca na base dessas seis palavras. Fiz questão de testar, eles nem percebem.

Gente, não pensem que eu estou falando mal. Não mesmo. O homem carioca tem muitas qualidades que não se encontram em outros estados. O problema não é o produto, é o mau uso que a consumidora faz dele. Homem carioca não é para ser levado a sério. Para um namorinho, sobe um pouco mais, Minas Gerais, Goiânia… Usa o carioca para o que ele serve, minha gente: diversão.

A culpa da má fama do carioca é das mulheres, que os levam a sério demais. É como comprar uma batedeira e reclamar que ela não corta carne. Parem, apenas parem de levar carioca a sério. Valeu? Já é. Demorou. #Partiu.

Obs: já pensou se um homem fizesse este mesmo texto cacetando mulher como eu cacetei homem? Quando eu faço é engraçado, quando homem faz é machista escroto. Eita país babaca esse Brasil…

Para não comentar por estar rindo ou, se for carioca, muito puto, para contar sua experiência com o homem carioca ou ainda para responder que este texto é mó vacilo: sally@desfavor.com


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