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Reações.

Reações.

| Somir | | 13 comentários em Reações.

Já é notícia velha para os padrões de internet, mas tem sua função no meu texto de hoje: os criadores do canal de “reações” mais famoso do Youtube resolveu registrar o conceito de pessoas reagindo a conteúdos dos mais diversos e tentou cobrar de quem tentasse fazer vídeos no estilo. Incrível como só de ler a ideia já pra ver que vai dar errado, muito errado, mas mesmo assim, os cidadãos fizeram. Obviamente deu errado, muito errado.

Acho que nem preciso explicar porque muita gente se emputeceu com o prospecto de pagar direitos autorais ao filmar uma pessoa olhando para uma tela. O deus da internet é justo e os babacas que fizeram isso já estão perdendo milhares de seguidores e muito dinheiro, então nem vamos nos preocupar com essa parte. Na verdade, o que mais me impressionou nessa história é o TAMANHO do mercado desse tipo de vídeo. E esse buraco de coelho vai ainda mais longe…

Todo mundo já deve ter visto um vídeo do tipo: pessoa assistindo algum conteúdo na TV ou no próprio Youtube e tendo suas expressões e comentários gravados. Embora não tenha pesquisado, confio no meu conhecimento (inútil) de história da internet: os vídeos de reações já estão por aí com relativo sucesso há mais de uma década. Lembro da febre de se filmar assistindo “2 Girls, 1 Cup” (se por um milagre você nunca viu, chame toda a família e assista com eles) e mais recentemente até as reações às cenas mais brutais do Game of Thrones.

Mas essa até que é a parte inocente da história. Os vídeos de reações foram alçados ao profissionalismo – muito por causa do sucesso do canal da dupla que aprontou no começo do texto – e começaram a fazer dinheiro. Prova que se tem um tonto pra assistir, sempre tem outro pra fazer. São dezenas de séries, desde crianças até idosos vendo conteúdos populares, exóticos ou mesmo coisas muito fora de seu tempo. Acredito que nada mais humano do que ter interesse nas reações de outras pessoas. A ideia, apesar de simples, com certeza tem seus atrativos.

Só que mesmo entendendo isso, começa a ficar difícil entender a durabilidade desse tipo de conteúdo. Deveria cansar depois de um tempo. Não é exatamente material original, e por mais que pessoas sejam muito diferentes entre si, deveria ter um ponto onde as coisas ficariam muito repetitivas. Por que não enjoa?

E é aí que eu começo minha teoria da vez. Temos que enxergar além dos vídeos claramente definidos como de reação para chegar mais perto do que realmente está acontecendo. Quem já quis aprender mais sobre algum jogo com certeza já deparou com um vídeo do tipo: a tela do jogo tomando quase toda a tela, e num quadradinho no canto, a cara da pessoa jogando. Não é realmente útil pra ideia de demonstrar um jogo ou uma estratégia para ele, então seria só vontade de aparecer?

Sim e não. É um trabalho. Tem muita gente nesse mundo vivendo de se filmar jogando jogos. E mostrar as fuças enquanto joga é essencial para tornar a profissão viável. Esse pessoal vive de doações. Eu já tinha mencionado essa parte de muita gente hoje em dia preferir ver os outros jogando do que jogar num texto sobre o Minecraft, mas a coisa vai mais longe. É um mercado valioso, desde que você se dedique a ele. Jogadores profissionais já estão ficando ricos, alguns mais bacanas até fazem caridade com o dinheiro arrecadado, mas a maioria está ganhando a vida.

E sem querer sexista, mas já sendo: se você tiver um decote pra mostrar, basta existir na frente da tela do jogo para pagar suas contas. Os homens que fazem isso costumam ser excelentes no que fazem, as mulheres tendem a ser… bom, mulheres atraentes (existem sim as que jogam muito bem, mas isso não é fator crítico de sucesso como é para os homens). O curioso aqui é como isso acaba espelhando os padrões de atratividade mais comuns na vida offline. Mostrar a cara enquanto joga não é só necessidade de atenção, é mais uma prova como cada vez mais indifere para o ser humano se a outra pessoa está do outro lado da tela. Quem não se filma reagindo não ganha dinheiro, porque é muito sobre atração ou admiração do outro, é sobre uma relação que o espectador forma com a pessoa que está jogando.

Voltando aos vídeos de reação com essa ideia na cabeça, começa-se a perceber que os que mais fazem sucesso comercial se baseiam em rostos conhecidos, seja por fama prévia ou por repetição. As pessoas acham interessante ver um estranho reagindo uma vez, mas assim que criam uma relação com uma pessoa que está sendo filmada, voltam para vê-la em outras situações. O canal mais famoso do Youtube é de um sueco que se filma berrando com jogos, e as pessoas não param de assistir os vídeos dele. Essa é a nova mídia.

Ok, não sou do tipo saudosista que vai reclamar de tudo por ser diferente do meu tempo, mas não custa levantar esse ponto: será que a humanidade “rica” não está ficando carente demais? Evidente que nessa mídia existe a reciprocidade e eventualmente a pessoa consegue interagir com quem está assistindo (o mercado de jogadores e jogadoras ganhando dinheiro está muito mais nas transmissões ao vivo do que nos gravados), mas mesmo assim, parece um sinal de compensação pelo afastamento que as novas tecnologias nos trouxeram.

Francamente, é bizarro virar fã de uma pessoa que fica jogando o mesmo jogo sem parar horas por dia. Mesmo se você for um adolescente tarado e a pessoa for uma mulher com roupas justas e reveladoras, existe um limite saudável de interesse. E considerando que as pessoas doam dinheiro, já dá pra se desconfiar que tem uma relação de prostituição bem sutil aí. Não é sobre sexo, mas sobre atenção. Parece-me que tem gente pagando para ficar olhando para outra pessoa se divertindo e fingir que tem ali um(a) amigo(a). E nem parece um bom negócio: a atenção devolvida é mínima, até pelo tamanho das bases de fãs. É como se pagasse para aquela pessoa não ir embora. Percebem como começa a soar estranho?

Se isso estivesse reduzido apenas a um substrato de pessoas solitárias, vá lá, mas está alcançando muito mais do que isso. E considerando como as novas gerações já lidam com esse tipo de conteúdo, vai se tornar algo muito normal com o passar dos anos. Relações de amizade/interesse com pouca ou nenhuma interação, vendo outro ser humano ser… humano na sua frente. Talvez seja isso que comece a faltar na nossa sociedade, ser humano. Pode ser a grande profissão do futuro, fica a dica.

Para dizer que não sabe como reagir, para reclamar que fica o dia todo na frente de um PC e não ganha nada por isso, ou mesmo para agradecer pela dica e tirar a roupa mais decotada do armário: somir@desfavor.com


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