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Corrompidos.

Corrompidos.

| Somir | | 13 comentários em Corrompidos.

O texto de hoje pode ser uma grande bobagem, mas é honesto. Saiu mais uma lista da ONG Transparência Internacional, que mede a percepção de corrupção em diversos países pelo mundo. O Brasil-sil-sil caiu sete posições de 2014 para 2015, ficando na 76ª posição entre os 168 países analisados. Depois de tanta sujeira aparecendo, era previsível. A lista é feita com base em pesquisas de opinião, sem se basear em fatos que comprovem a corruptibilidade daquele povo ou não. A Dinamarca ficou em primeiro, a Somália ficou em último… novamente, previsível. Mas, será que é previsível pelos motivos que costumamos pensar?

É um daqueles casos onde é difícil saber o que está influenciando o quê: num país com melhor qualidade de vida, as pessoas acabam confiando mais no sistema. Num país afundado em crise, o exato oposto. Presume-se que a corrupção esteja causando a situação ruim de um país, mas… e se for o oposto? E se um país em más condições for um terreno fértil demais para a corrupção? É uma “pergunta Tostines”: o país vai mal porque é corrupto ou é corrupto porque vai mal?

Difícil não odiar a corrupção e ver seus efeitos corrosivos estragando a qualidade de vida das pessoas. Como entender alguém que superfatura a merenda escolar ou que desvia dinheiro de hospitais? Coisa de vilão de filme! Mas e se tentarmos entender corrupção como um processo extremamente humano saindo de controle, talvez reconciliemos o asco pela ação do corrupto e aquela maldita tentação que muitos de nós temos quando somos expostos a essa situação.

Tem algo de sedutor em ter o poder de virar o jogo ao seu favor, de usar um cargo ou uma mera influência para conseguir mais recursos com o menor esforço possível. Até porque esse é o caminho evolutivo da humanidade: maximizar recompensas reduzindo trabalho. Não é à toa que somos quase todos viciados em alimentos altamente calóricos de fácil consumo. Que as invenções que realmente pegam são aquelas que tornam nossa vida mais sedentária ao mesmo tempo que nos abrem mais e mais possibilidades.

A natureza não é dada a subjetivismos: se você está enxergando uma chance de ganhar muito fazendo pouco, toda a história da humanidade está sorrindo para você. Fomos selecionados com base nesse tipo de comportamento. Se você imaginar corrupção como uma refeição fácil e extremamente calórica, começa a ficar mais fácil entender esse comportamento endêmico. Corrupção não deixa de ser seleção natural: lei do mais forte em tempos onde força não é mais uma medida de quantidade de músculos.

E que tipo de pessoa está mais propensa a seguir a lei da selva? Oras, a mais selvagem. Quem vive num país onde o sistema não funciona como deveria acaba mais propenso a aproveitar as raras oportunidades que tem de melhorar de vida. Se ninguém está segurando uma rede de segurança lá embaixo, é tudo perigoso. E se é tudo perigoso, qual a diferença entre levar uma vida honesta e uma corrupta? Qualquer tombo é mortal, que pelo menos se tombe tentando algo melhor.

É muito importante não se dissociar tanto assim do corrupto, principalmente para quem vive nessa bagunça chamada Brasil. Esse organismo que desvia, suborna e superfatura está em estado de equilíbrio com seu ambiente. Vivemos num país que premia essa mentalidade, que incentiva, até! Vai dizer que nunca se pegou criticando algum dos que foram pegos primeiro pela burrice de serem pegos do que pela desonestidade cometida? Isso entra na nossa cabeça, lentamente. Tornamo-nos cínicos, no final das contas, e esse é o estado mental que levou as pessoas que criticamos a fazer o que fizeram.

Corrupção é uma medida de adaptação ao ambiente. Quanto mais ele te exige, maior sua indiferença e/ou propensão a ela. O que eu acabo achando engraçado nessa história toda é que os países se saem melhor nessas listas no fundo subornaram seus cidadãos a não serem corruptos. Muita gente acha que o caminho é a repressão, mas tirando o caso de Singapura, os outros países no topo do ranking na verdade distribuíram renda e deram muitas garantias para seus povos prosperarem sem tanta gana de “maximizar calorias” a cada refeição. Sem ficar caçando tanto assim os corruptos.

Quando a sociedade entrega muito para o cidadão, ele fica menos agressivo na sua busca por oportunidades escusas de enriquecimento. E, mais importante, o seu cinismo diante do comportamento do corrupto erode, fazendo-o ver as coisas como elas são: uma pessoa que traiu a confiança depositada nela. É aquela história de gente que já passou fome ter mais simpatia com alguém pedindo um prato de comida. Mesmo que inconscientemente, sabemos que vivemos num país tão quebrado que muitas vezes o único caminho até o topo é trapaceando.

Já quem enxerga sua sociedade sem essa lente turva do utilitarismo a qualquer custo enxerga apenas o ponto fora da curva. Já perceberam também que no Brasil as pessoas parecem mais furiosas com o corrupto tomando um atalho para o que elas querem conquistar do que propriamente com a incompetência ao exercer sua função? Tanto que muitos notórios corruptos são reeleitos para seus cargos. O Brasil aparecendo nessa posição ruim na lista também influencia a permissividade com a corrupção. Por aqui, ela chama menos atenção isoladamente, já que todo mundo já presume que existe um esquema em qualquer canto. O problema é ser pego, não ser corrupto. Um círculo vicioso.

E é daí que eu tiro a teoria: corrupção é um produto esperado do ambiente injusto e desigual. Um sintoma praticamente impossível de eliminar sem tratar da doença da situação de abandono do brasileiro. É divertido ver políticos e empresários milionários sofrendo na mão da polícia, mas fica uma sensação de “enxugar gelo”. Se não há segurança para a população deixar esse estado mais bestial de busca pela riqueza como oportunidade única de ter direitos e liberdade, o abuso do poder disponível é basicamente o único caminho que vão ver.

Se a população não for devidamente subornada com melhores condições de vida, a percepção da corrupção nunca vai diminuir. Porque é humano querer mais por menos. O segredo é nos deixar “gordos” de garantias para que não fiquemos salivando diante de possibilidades de ganhos fáceis e ilegais. Alguém sempre vai ser corrupto mesmo, na Dinamarca ou na Somália, mas tem uma diferença considerável entre perceber corrupção como um atalho ou como o caminho a seguir.

Somos menos corruptos na medida que nos achamos menos corruptos. Não só por percepção, mas por uma sorrateira aceitação dela que vem junto no pacto. Ás vezes eu desconfio se tanta mídia sobre esses casos como a Lava-Jato fazem bem ou mal para o quadro geral. No meio da crise, fica claro que a doença não está sendo tratada, mas com os sintomas tão destacados, pode ser que nos acostumemos com uma cara ainda mais feia.

Para dizer que o meu texto foi subfaturado, para dizer que vai me pagar um por fora por causa disso, ou mesmo para achar que estou defendendo corrupção: somir@desfavor.com


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