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Flertando com o desastre: Lado brega.

| Sally | | 429 comentários em Flertando com o desastre: Lado brega.

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Todos nós temos um lado brega. Ter um lado brega não é o problema, o problema é não perceber esse lado brega, porque ao não reconhece-lo, acabamos levando a sério coisas patéticas. Falemos sobre o lado brega de cada um de nós, um conceito que o brasileiro médio não entende: achar algo brega, ruim, feio e ainda assim gostar daquilo.

“Mas Sally, primeiro você faz postagem metendo o pau em tutorial de maquiagem brega e agora me manda ser brega? Não é contraditório?”. Não, não é. O perigo maior não é ser brega, é perder o discernimento e achar que aquela merda brega é super legal, ostentando-a para o mundo como se fosse algo muito bacana. Assim como o perigo maior nessa vida não é fazer merda e sim fazer merda sem a consciência de estar fazendo merda. Nada que eu respeite mais do que gente que sabe que vai fazer merda e faz com toda a convicção. Vê se eu recebo alguém na minha casa e digo: “Vamos todos jantar agora ao som de uma música de qualidade” e coloco Rafael Pilha cantando “Dá pra mim”?

Você já se confrontou com seu lado brega? Marcas, músicas, celulares, carros, estilos de roupa? Qualquer coisa vale. Somos todos humanos, temos o sagrado direito de ter um lado brega, desde que preservemos nossa sanidade mental e saibamos bem onde estamos pisando: ISTO É BREGA E EU GOSTO MESMO ASSIM. Ou por acaso alguém aqui pensou que eu acho axé uma música primorosa de qualidade? Que ver Cumpadre Washington tocando seu pandeiro imaginário e gritando inconveniência é de alguma forma considerado aceitável por mim? É PO-DRE, mas eu gosto, ciente do quão podre é. Vem para o brega você também, mas sempre mantendo o discernimento.

Da mesma forma que é muito feio não perceber que se está pisando no lado brega da força, também é muito feio tentar negá-lo, colocando a culpa em fatores externos ou circunstanciais: “eu não vejo esse programa, mas estava passando de canal quando vi que…” ou então “eu não gosto desta marca mas ganhei de presente e por isso uso…”. Não. Assuma seu lado brega, é libertador. Eu escuto Roxette e Engenheiros do Hawaii, eu tenho quadros (atentem para o plural) do Romero Britto na minha casa, eu torço pelo Flamengo e, pior de todos: por algum motivo que eu não consigo entender, tenho uma estranha e bizarra atração por bolsas da Monica Sanches. E está tudo bem, porque eu ainda sei discernir o que presta do que não presta, apenas me permito transitar por algumas coisas que não prestam, com total ciência disso.

Não esconda seu lado brega. Chega desse mal entendido que se você acha brega então por consequência você não pode gostar daquilo. Esta conclusão é falsa. Todo mundo tem seu lado brega, não precisa ter vergonha dele. Se envergonhar do lado brega é coisa de gente insegura. Quando você sabe que na essência você não é brega, apenas tem uns deslizes, não há qualquer problema em admiti-los. Bata no peito e assuma que usa aquele batom rosa-buceta da MAC chamado “Snob”, admita sem medo que já acordou com vontade de ser loira ou então confesse que tem uma daquelas bermudas de tactel que tem um rinoceronte escroto desenhado na bunda. A exceção confirma a regra: se você gosta pontualmente de coisas bregas, quer dizer que na maior parte do tempo você é uma pessoa sensata.

Não sufoque seu lado brega, se não ele cresce. Ou pior, é canalizado para outra área, talvez muito mais prejudicial. O que hoje seria apenas uma unha decorada amanhã pode virar um CD do Luan Santana na sua estante. Deixe o lado brega fluir, afinal um lado brega não desmerece ninguém. O que desmerece é a pessoa achando aquela breguice algo muito bacana e ostentando-a como se fosse uma coisa sensacional (ou seja, falta de discernimento). Diga sem medo: gosto de tal coisa mesmo sabendo que é brega, é mais forte do que eu. Você vai conquistar o respeito das pessoas.

Teve um revertério e foi a um show do Fábio Jr.? Se pegou cantando “Caça e caçador”? Gosta secretamente de Roberto Carlos? Quando foi ver já tinha comprado um adesivo de família com as mãos dadas para colocar na traseira do carro? Relaxa, não são essas coisas que fazem o que você é. Desde que o que você é não se resuma a isso, é saudável nutrir esse lado trash, eu diria que é até uma forma de desopilar, como aquela pessoa que estuda 8h seguidas e depois lê uma “Contigo” para o cérebro respirar.

Porque ser correto cansa. Ter bom gosto, ter preocupação com inconveniências, se programar para estar vestido corretamente para cada ocasião… tudo isso sufoca a gente. De vez em quando é necessário transgredir e se permitir ser totalmente trash. Daí você vai e, só de raiva, bota aquele perfume da Cacharel (qualquer um, são todos igualmente bregas e excessivamente doces). Tá calor, tá inapropriado, mas você usa. E foda-se o mundo, pelo menos naquele dia nenhum mosquito irá te picar. Encarem o brega pontual como forma de contestação. Nada mais elegante e corajoso do que saber o que é certo e o que é errado e decidir conscientemente fazer o errado esporadicamente.

Tenho pena de quem não tem esse discernimento, de quem vive no brega toda sua vida sem saber distinguir. Mais pena ainda de quem vive de perguntar aos outros se está ou não no brega, pois admite sua falta de discernimento e assume a triste postura de se reger pelo gosto alheio. E muito mais pena de quem não contente de estar full time no brega ainda o ostenta achando que está tirando onda, porque aquele brega é caro. Sim, o brega pode ser muito caro. Verdadeira pena de quem acha que está bem vestido só porque pagou caro por aquela roupa. Marca cara serve para isso: para pessoas que não confiam no seu bom gosto terem um aval social e comprarem em um lugar onde acham que não serão criticadas.

Nessa sociedade lucianohuckizada, onde todos tem medo de ousar, de destoar, onde adultos se portam como adolescentes buscando a aceitação dos demais como o bem mais precioso a ser alcançado, ter lapsos de breguice virou mérito. Sinal de autenticidade, coragem. Não tenha medo de esfregar seu lado brega eventual na cara da sociedade, até porque, do jeito que as coisas estão, dependendo da sua posição, periga até você lançar moda e o brega passar a ser o hit do momento. As pessoas não se regem por seus gostos e sim pelo consenso social. Formadores de opinião ditam moda, que o diga a pochete, por anos execrada, que está voltando com tudo.

Melhor um lado brega do que uma postura falsa para agradar a sociedade. Não existe ninguém perfeito, não tentem parecer perfeitos porque soa artificial. O ser humano, mais cedo ou mais tarde estará cantarolando Latino, colocando uma peruca para cobrir a careca ou usando uma peça de roupa em cores cítricas. A breguice reside em todos nós, não lute contra ela, faça dela um plus com muita elegância e transforme-a um atestado de autenticidade. Compre aquele casaco com gola de pele falsa ou um belo par de botas mesmo morando em uma cidade tropical, a vida é curta.

Dar vazão ao lado brega é ainda mais importante quando ele está diretamente relacionado com um contraponto à opressão do dia a dia. Ficou meio abstrato, deixa eu dar um exemplo para ver se vocês compreendem melhor, novamente queimando meu próprio filme. Eu tenho que trabalhar com roupas sóbrias, sem decotes, cores neutras (cinza, branco, bege, preto e azul marinho, basicamente). Até a cor da unha é censurada. Daí o lado brega para roupas fica oprimido. O que a pessoa faz? Na hora em que vai malhar usa roupas da marca Garota Carioca, a loja de roupa de ginástica mais brega da face da terra! É um contraponto necessário. Alivie suas tensões do dia a dia se permitindo o brega esporadicamente, ciente dele.

Vejam o Somir: elitista até dizer chega para um monte de coisas, mas quando acaba a semana, no final de semana ele veste sua camisa do Corinthians e vai se embreguecer todo no estádio no meio da gentalha gritando palavras de baixo calão que ele jamais usaria em seus textos. O ser humano é podre, o ser humano é cafona, melhor não lutar contra isso e canalizar para algo bom, usar como válvula de escape. Viva o brega esporádico sem culpa, sem se sentir diminuído por isso. Veja Grey´s Anatomy e chore, coloque nome de personagem de novela no seu animal de estimação, faça uma viagem à Disney se isso te der algum prazer. Chega dessa culpa cristã. Ter um lado brega não é pecado. O que te destrói é não ter consciência dele ou não ter coragem de assumi-lo.

Eu sei com quem estou falando. Estou falando com os Impopulares, pessoas com as quais convivo e converso diariamente por mais de quatro anos. Não creio que aqui exista alguém essencialmente brega, apenas breguice pontual. Este texto é para vocês, apenas para vocês, porque se um brasileiro médio ler isso vai sair na rua com saia de oncinha, blusa florida, unhas decoradas e salto de cristal se achando. Justamente por saber quem são vocês eu digo com convicção: se permitam seu lado brega, pois no caso de vocês, faz bem para a alma e denota personalidade.

Chega dessa ditadura de presumir que se a pessoa gosta é porque ela necessariamente acha aquilo bom. É perfeitamente possível ter a consciência de que algo é uma bosta completa mas ainda assim estranhamente gostar daquilo. Eu sou a favor da tortura? Não. Eu sou a favor de punição corporal? Não. Eu sou a favor da pena de morte? Não. Eu amo ver o falecido Alborghetti batendo com um porrete na mesa e falando todas suas barbaridades habituais? SIM. E o fato de me divertir muito com ele e admirá-lo não me faz favorável à tortura ou pena de morte. Esta conclusão é falsa e medíocre.

O gostar não necessariamente passa pela concordância na cabeça de pessoas com um pouquinho de cérebro. Quem associa gostar com concordância é o brasileiro médio, que parece ter uma noção maniqueísta de sentimentos: ou é bom ou é mau, ou concorda ou discorda, ou é favor ou é contra. Se gosta, é a favor e acha bom. Simplesmente ridículo, está na hora de desconstruir esse mito. Posso gostar, posso amar e ainda assim ter a consciência de que é uma M-E-R-D-A. Mais: posso bater no peito e dizer que tenho orgulho de ter a coragem de admitir que gosto de algo que sei ser uma merda. Faça, é libertador.

Se você está seguro de você mesmo, se você tem certeza dos seus critérios e do seu discernimento, não terá medo de assumir um eventual lado brega. Vem pro brega você também, mas com discernimento, é claro.

Para confessar algum lado brega seu, para me respeitar menos depois de todas as revelações que eu fiz neste texto ou ainda para se perguntar como pode alguém que acha a Victor Hugo uma marca brega comprar na Monica Sanches: sally@desfavor.com


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