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Desfavor Explica: Aeroporto Galeão.

| Sally | | 191 comentários em Desfavor Explica: Aeroporto Galeão.

A cidade do Rio de Janeiro está prestes a sediar diversos eventos importantes, então, nada mais justo que quem está pensando em vir para cá conheça mais detalhes sobre o sensacional aeroporto do Rio de Janeiro, que teve seu nome mudado para Antônio Carlos Jobim mas ainda é conhecido como Galeão. Me recuso a chamar de Antonio Carlos Jobim, como alias, a maior parte dos cariocas se recusa. GALEÃO.

Gostaria de começar dizendo que a maior parte dos elevadores se encontra quebrada, deligada, em manutenção ou com defeito. Isto não seria muito grave SE, eu disse SE, houvessem rampas ligando o estacionamento às áreas de embarque e desembarque, coisa que até o momento não há (mentalizando as seleções paraolímpicas desembarcando). Você tem que sair do carro, caminhar até o hall de elevadores e orar. São dois por setor. Se nenhum dos dois estiver funcionando, você tem que subir de ESCADAS, que não custa lembrar, não são escadas rolantes, são meras escadas de degrau com layout anos 60, paredes escuras de pastilhas e chão escorregadio.

Daí você pensa “poxa, mas a pessoa logo chega, estaciona o carro e já se depara com esse problema?”. Não, Amigo Leitor. O problema começa muito antes. Primeiro que é um trânsito do caralho para chegar ou sair de lá, segundo que o trajeto corta as favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, locais onde frequentemente são feitos arrastões, assaltos e trocas de tiros. Os românticos pensarão: “eles vão fazer alguma coisa a respeito dessas favelas, certo?”. Certíssimo: colocaram FUCKIN´ TAPUMES, para que quem chega não consiga VER as favelas no entorno ao sair do aeroporto de carro, mas elas continuam ali, cada vez mais perigosas. E sim, se vez em quando seus moradores vem para o asfalto e fazem barbáries, que curiosamente muitas das vezes são abafadas pela imprensa.

Li outro dia algum desavisado dizendo que as favelas nas proximidades do aeroporto do Rio de Janeiro estavam todas sob controle, “pacificadas”. Coitado. Uma das principais se chama Favela da Maré e o bicho lá pega de tal maneira que estão até cogitando transferir a sede do BOPE para as proximidades, pois o Poder Público não apenas não tem controle da Maré, como nem sequer consegue ENTRAR. Eu já vi o Caveirão, aquele famoso blindado da polícia, sair de ré, fugindo, depois de tentar entrar na Maré e ser perfurado por tiros, mesmo sendo à prova de balas. Deu ré e fugiu. Sério mesmo, se puderem, comprem passagens para o aeroporto Santos Dumont, muito mais limpo, organizado e já na zona sul (região um pouco mais segura) do Rio de Janeiro. Ainda tem o plus de chegar vendo o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Quem chega pelo Galeão só vê pântano e favela.

Pois bem, supondo que você esteja em um dia de sorte e o trânsito não tenha te impedido de chegar a tempo e nenhuma marginalidade seja feita com você, sua família ou seu carro no caminho, nem pela polícia, nem pelos bandidos, ainda assim seus problemas estão apenas começando. Em dias e horários concorridos não há vagas suficientes nos estacionamentos do Galeão. Você entra, roda, roda, roda e não acha vagas. Lindo! E não há nada no entorno do aeroporto (nunca costuma haver em nenhum, né?), não tem plano B para parar o carro. Eu já fiquei mais de quarenta minutos rodando tentando conseguir uma vaga. Detalhe que o estacionamento não é policiado e não é seguro.

Não custa comunicar aos desavisados que táxi não é uma opção. Não se paga táxi em aeroporto, é perigoso. Normalmente taxista de aeroporto costuma apenas roubar seus clientes, mas os do Galeão são piores. Já houve caso de espancamentos e até de sequestros onde a pessoa era levada para uma favela e sua mala revirada, roubando todos seus pertences de valor e no final ela é morta para não reconhecer os taxistas. Vai para o micro-ondas, área localizada no topo de cada favela destinada a queimar as pessoas que eles matam. Tem dezenas de notícias sobre crimes contra passageiros de táxi no aeroporto do Rio de Janeiro, é só procurar que você acha. Recentemente espancaram um rapaz que era gay porque ele recusou um táxi.

Mas supondo que você seja um abençoado, que conseguiu chegar e conseguiu estacionar… ainda assim uma longa provação te espera. Tem o lance dos elevadores, que dia sim dia também estão quebrados, o que pode te obrigar a ter que subir do estacionamento ao setor de embarque ou desembarque levando as malas no braço, mas tem também outra questão bastante complicada: o ar condicionado, que, nos melhores dias, está insuficiente. Nos piores não funciona e pronto. E fica DIAS sem funcionar. Calor da porra de mais de 40° e não tem ar condicionado, não tem janela, não tem nada. O que tem é um bando de gringos sem desodorante perfumando o ambiente.

Daí você subiu vários lances de escada com as malas nas costas e chega na antessala do inferno, o setor de embarque ou desembarque, todo suado e com a língua de fora porque não tem ar condicionado. Não beba água do bebedouro, é hepatite certa. Pelo gosto e pelo layout você vai perceber. Calma, Amigo Leitor, calma porque a coisa ainda pode piorar mais! Grandes chances de ter que encarar uma fila monstruosa, o que quer que você esteja indo fazer. Um simples pedido de informação te obriga a entrar em uma fila. Funcionários mal informados e mal educados, impontualidade de Cias Aéreas e a maldita inclusão social mostrarão sua face nesta jornada.

Acredito que o aeroporto do Rio de Janeiro seja o metro quadrado com maior percentual de mal educados do mundo, seja por falta de educação em casa, seja por abuso e arrogância. Presenças obrigatórias em qualquer setor do aeroporto: crianças birrentas fazendo escândalo, barraqueiros procurando seus direitos, gentalha falando alto ou no viva voz em seus celulares e todo esse tipo de gente que você espera encontrar em um ônibus lotado a caminho do trabalho mas nunca em um avião a caminho de Paris. Pois é, no aeroporto do Rio tem. Aos montes. O tempo todo.

Lugar para sentar: não tem. Tem pouquíssimos bancos que estão sempre ocupados, e geralmente ocupados por pessoas que precisam mais do que você: idosos, crianças, deficientes e etc. Não raro estes mesmos grupos já se encontram DE PÉ, esperando para sentar quando uma cadeirinha vagar. Já viu, né? É você, um rapaz de muleta e uma senhora de 89 anos de pé esperando vagar um lugar para sentar. Sabe quando que você vai sentar? Quando entrar no avião. E se viajar pela Webjet periga nem isso. Vai ficar de pé comendo um Cup Noodle que vai te custar 20 pratas.

E por falar em comida, quero dar uma dica aos infelizes que tem que viajar usando o aeroporto do Galeão: comam ANTES de embarcar, porque depois do embarque NÃO TEM FUCKIN´ COMIDA, ok? Tem no máximo um quiosque com chocolate e que só abre no horário comercial, ou seja, está viajando às onze da noite? Embarcou sem comer? O voo atrasou? Se fodeu, vai ficar sem comer até o dia seguinte, pois não te deixam sair do setor de embarque e dentro do setor de embarque não há como obter alimentos. Eu compreendo quem levar um isopor com frango e farofa ao aeroporto do Rio de Janeiro. Não destoaria da realidade local.

Mas mesmo que você tenha tempo e estômago para comer antes de embarcar, não se anime muito, a comida é uma merda. Se você quer comer sem correr o risco de uma diarreia explosiva, vai ter que ficar à base do chocolatinho da Kopenhagen, mas sem se exceder, se não também dá diarreia. As lanchonetes que tem lá fazem o Bob´s parece um lugar limpo. Não, não tem Bob´s nem Mc Donalds. Mas tem um grande Café Palheta, onde os garçons seguram as xícaras com os dedos pelo lado de dentro, com o dedo em contato com a sua bebida. Pode reparar, não falha. Você vai pagar quase dez reais por um chá de dedo. E lembre-se, tudo isso sem ar condicionado e sem janelas. Delícia.

Mas talvez seja melhor mesmo não comer e não beber nada, porque, Queridos Amigos, os banheiros do Galeão fazem os banheiros do Maracanã parecerem o Palácio de Buckingham. Sabe aquela sua tática, Amiga Calcinha, de fazer xixi de cócoras para não encostar na tampa do vaso? Não se preocupe, lá geralmente não existe tampa. É o vaso, apenas o vaso, com muitas toneladas de papel higiênico dentro e muita urina à sua volta. E para completar, não são seguros, ficam em áreas isoladas e entra quem quer onde quer quando quer. Não recomendo a ninguém, nem mesmo a homens, que usem sozinhos o banheiro do Galeão.

Pensando bem, eu não recomendo que ninguém ande sozinho em lugar algum no Galeão. Este ano mesmo uma moça foi estuprada no estacionamento E NOTICIARAM, porque estupro toda hora tem, a novidade foi a imprensa divulgar. Ela estava indo na direção dos elevadores, quando um carro se aproximou dela e um homem, com o vidro aberto lhe apontou uma pistola e a mandou entrar no carro. Estacionou e a estuprou por horas sem que ninguém nem tome conhecimento. Existe processo judicial, eu não estou inventando. Salvo engano, esse caso que ficou famoso aconteceu em maio deste ano, mas há inúmeros outros casos parecidos em banheiro, em estacionamento e até na praça de alimentação. Tenham medo, não é lugar para brincadeira.

Tanto no setor de embarque como no de desembarque a quantidade de funcionários geralmente é insuficiente e os detectores de metal estão quebrados. Estou desde o ano passado fazendo questão de viajar com um modelo de Melissa (para quem tiver curiosidade o modelo é o Melissa Amazonas) que tem um porrolhão de metal sustentando o salto do lado de dentro e nunca, jamais, em tempo algum apitou no aeroporto do Galeão. No de Salvador apita, no de São Paulo apita, no de Buenos Aires apita. Na roleta do banco apita. Só não apita no Galeão. Moral da história: podem entrar armados, com adaga no bolso, com punhal no tornozelo. Ninguém nunca vai saber. Desde que descobri isso, coloco cada vez mais metal em mim quando vou viajar e até agora nunca apitou porra nenhuma. Uma vez perguntei a um funcionário mal humorado porque não apitava e ele disse “Tá tudo quebrado essas porra” (nestes termos). Fica a dica. Se quiser fazer um atentado terrorista, parta do Galeão.

Uma sádica combinação de excesso de demanda com um aeroporto pequeno e obsoleto faz com que voos diferentes compartilhem uma mesma área comum. Não raro quatro voos internacionais diferentes são encaminhados para uma única esteira (metade está quebrada e/ou em manutenção, mais ou menos o mesmo esquema dos elevadores). Resultado: você se acotovela com mais de mil pessoas para obter um serviço que foi projetado para no máximo cem pessoas por vez. A Polícia Federal coopera que é uma beleza, pior coisa do mundo é chegar no mesmo horário de um voo de Miami ou Nova Iorque: dois funcionários para revistar 500 pessoas, e o fazem da forma mais lenta possível. Lembrando mais uma vez da ausência de ar condicionado… Não tem nem um mês passei exatas duas horas e quarenta minutos para conseguir desembarcar.

Se você está esperando para embarcar, sugiro que se posicione nas proximidades de um monitor que te informe quando será aberto o embarque, porque se for contar com os anúncios ao microfone… Dá para jurar que é o Joel Santana fazendo uma voz fina, o inglês é medonho e o português muitas vezes também. Por mais de uma vez eu não consegui entender o que estava sendo dito. Sim, o sistema de som é ruim, a favelice dos passageiros aos berros atrapalha, mas porra, podiam contratar alguém com uma dicção e pronúncia melhores! Não conte com os avisos de voz.

Se você foi buscar alguém, sugiro que tire o dia de folga, pois entre sair de casa, chegar lá, estacionar, a pessoa desembarcar, achar sua mala, passar pela Polícia Federal, te encontrar, achar o carro no estacionamento e chegar em casa, você vai gastar, no mínimo, umas cinco ou seis horas. Não tem dessa de “Vou te buscar no meu horário de almoço”. Nada é rápido do Galeão, a menos que você tenha a sorte de frequentá-lo em dias e horários atípicos. A regra é: aeroporto cheio, funcionários inoperantes, ar condicionado desligado e elevadores parados. E filas, muitas filas para tudo. Se houver atraso de mais de um voo, coisa que não é rara, além de filas você vai ver dezenas de passageiros dormindo pelo chão, espalhados pelos salões. Acho que deve ser uma forma de familiarizar as pessoas com o que encontrarão quando entrarem em um hospital carioca. Bem vindos.

O Poder Público diz que está investindo no Galeão. De fato, existe uma parte nova, uma expansão, que é menos ruim. Mas ainda assim, é um aeroporto que certamente não é seguro, não é bem aparelhado e não é grande o bastante para a demanda atual de passageiros. É questão de tempo até acontecer uma colisão entre aviões ali, o aeroporto está trabalhando faz tempo muito acima da sua capacidade.

Entre os cariocas, é consenso que a rodoviária é mais limpa, mais bem preparada e mais agradável que o Galeão. O Galeão é motivo de piada e de vergonha e devido à complexidade das obras necessárias, já se sabe que não estará como o desejado em 2014, na Copa do Mundo. Vai ser engraçado. Por sorte eu não estarei mais por aqui, mas certamente terei quem me conte.

Se você já passou pela maravilhosa experiência de transitar por este aeroporto cagado, deixe seu relato nos comentários. Não duvido de mais nada em matéria de esculhambação e descaso. E vocês, Cariocas, francamente, duas vezes Sergio Cabral e duas vezes Eduardo Paes… estão achando bonito o estado atual do Rio de Janeiro? Se fodam com esse aeroporto de merda, vocês merecem!

Para perguntar porque estupro no aeroporto não passa na novela do Manoel Carlos, para dizer que eu esqueci de falar do cheiro que tem lá dentro ou ainda para contar sua história de terror vivenciada no Galeão: sally@desfavor.com


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