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Desfavor Explica: Primeiros Socorros – Parte 2: Massagem Cardíaca.

| Sally | | 61 comentários em Desfavor Explica: Primeiros Socorros – Parte 2: Massagem Cardíaca.

Hoje tem mais um capítulo do Desfavor Explica Primeiros Socorros, vulgo Ressuscita Eu! Deve ser lido em conjunto com este texto. Francamente, isso deveria ser ensinado NAS ESCOLAS, mas já que preferem dar aulas de religião do que ensinar a salvar vidas, resta aprender com a Tia Sally aqui, que é leiga mas é esforçadinha.

Vai por mim, leia com atenção e na hora do perrengue as informações voltarão na sua mente. Mas é para ler e colocar em prática ANTES da merda acontecer, ok? Tese, aprenda a fazer, se interesse. Assim, se algum dia precisar, você ao menos já fez um ensaio geral.

No primeiro texto, falamos sobre respiração boca a boca. Ela não está necessariamente atrelada à massagem cardíaca, já que pode acontecer da pessoa não respirar mas seu coração estar ok, como por exemplo no caso de objetos obstruindo as vias aéreas. Hoje vamos falar de situações piores, onde a pessoa nem respira nem tem batimentos cardíacos. Será necessário além da respiração, uma massagem cardíaca. Eles são tipo um Capitão Planeta da medicina, quando se juntam recebem um terceiro nome: Ressuscitação Cardiopulmonar, RCP para os íntimos: massagem cardíaca + respiração boca a boca.

Primeiro vamos falar sobre uma polêmica que liga os dois textos: o que fazer primeiro, a respiração boca a boca ou a massagem cardíaca? Até 2010 se recomendava começar o procedimento desobstruindo as vias aéreas e aplicando a respiração, era o chamado ABC (Abertura de vias aéreas, respiração Boca a boca e Compressão torácica). Mas, chegou-se à conclusão que não era produtivo fazer o procedimento mais difícil primeiro, muitas vezes a desobstrução é complicada até para profissionais. Isso atrasava a massagem cardíaca de forma desnecessária. Por isso resolveram inverter e foram editadas “novas diretrizes para RCP e ACE”, em 2010 (de cinco em cinco anos estes protocolos são revistos e saem novas recomendações) e a ordem oficialmente mudou.

Em vez de ABC, hoje é CAB. A atual recomendação é que você faça a massagem cardíaca antes de mais nada e só depois se preocupe com a respiração. Porém, se houver outra pessoa com você no momento, não tem o que pensar: vai um para cada lado: um gruda no peito, o outro corre para a boca para desobstruir as vias aéreas e fazer a respiração.

Isso nos leva a outra polêmica: QUANDO efetuar a RCP. Quando não houver batimentos cardíacos nem respiração, você responderá. Ok. Daí eu te pergunto, como merdas você vai saber se há batimento cardíaco ou respiração sem perder tempo precioso de socorro? Muitas vezes a pessoa não dá sinais de vida, está desacordada. Você não tem muito tempo. Seis minutos… lembra? O que acontece é que muita gente sem noção não sabe mensurar quão grave é cada situação e fica brincando de cutucar uma pessoa que está realmente fodida, perdendo tempo precioso de socorro. Graças a inúmeras cagadas feitas nesse sentido, recomendaram que leigos não fiquem tentando conferir sinais vitais justamente para não atrasar o início da RCP.

Isso quer dizer que você não pode colar sua cabeça no peito da pessoa por UM FUCKIN´ SEGUNDO ou segurar o pulso da pessoa por MEIO FUCKIN´ SEGUNDO para ver se há batimentos cardíacos? NÃO, claro que não, seria uma interpretação um tanto quanto limitada. Estranho, né? Se você se deparar com uma pessoa caída tem que chegar já massageando o peito! Teríamos centenas de desmaiados sendo massageados. A intenção é evitar que idiotas fiquem com o pulso da vítima na mão por 40 segundos tentando sentir algo e coçando a testa em vez de agir.

Então já sabe: não perca seu tempo procurando sinais vitais por mais de dez segundos. É pá-pum. Deu um confere de poucos SE-GUN-DOS e não achou nada? Arregaça as mangas e começa. Vamos lá. As chances de dar certo são de 98% se realizada no primeiro minuto, de 50% se realizadas entre um e quatro minutos e de apenas 11% se realizada do sexto minuto em diante. Dizem que tempo é dinheiro… bem, aqui tempo é vida.

Existe alguém sem batimentos cardíacos ou aparentemente sem batimentos cardíacos (algumas vezes eles ficam tão fracos que são quase imperceptíveis) na sua frente. Primeira coisa é chamar por socorro, (quem e quando já foi devidamente ensinado na outra postagem), de preferência enquanto pede socorro você já pode tentar ajudar a pessoa, orientado pelo socorrista que atendeu o telefone mesmo. Celular no ombrinho, mãos livres e siga as instruções. Mas, se por qualquer motivo isso não for possível, leia o texto e faça o seu melhor. Você vai ter que fazer com que o coração e o pulmão da pessoa funcionem manualmente para que seu cérebro e demais órgãos não morram por falta de oxigenação.

O objetivo principal, ao contrário do que muita gente pensa, não é “salvar o coração” e sim preservar o cérebro. Com a massagem cardíaca você permite que o sangue da pessoa continue circulando e esse sangue vai levar oxigênio para todo o corpo da vítima, inclusive o cérebro. Não adianta só assoprar no pulmão colocando o oxigênio para dentro, é preciso garantir que esse oxigênio seja devidamente transportado para o corpo. A respiração boca a boca é como encher o tanque de gasolina e a massagem cardíaca é como fazer com que a gasolina circule e faça o carro andar.

Não se deixe tomar pelo medo. Já vi muita gente falando “E se eu matar a pessoa?”. OI? A PESSOA JÁ ESTÁ MORTA, é esquema Tiririca, Meus Queridos: pior do que está, não fica. Mesmo uma ajuda não tão perfeita ou até meio incorreta pode salvar uma vida. E saiba que cerca de 75% das paradas cardíacas ocorrem quando a pessoa está em casa, na presença de seus familiares. Então um dia qualquer um de nós pode precisar socorrer ou ser socorrido. Tenha os telefones necessários em um local de fácil acesso. Não tenha medo, RCP efetuado em quem não tem parada cardíaca não faz mal. Eu obriguei meu cardiologista a fazer em mim para ver ser ia me causar algum desconforto posterior e estou aqui, vivinha.

Já sabemos que a vítima estará deitada de barriga para cima, com as costas apoiadas no chão (papo técnico: decúbito dorsal) em uma superfície dura, como narrado no texto anterior. Se puder, procure se posicionar do lado ESQUERDO da vítima, ajoelhado na altura do tórax. Para uma massagem cardíaca eficiente, você deve apoiar as mãos na metade inferior do osso esterno. Não, animal, não é um osso que fica do lado de fora. Esterno é o nome que se dá ao osso onde as costelas se juntam na parte da frente do seu peito. Coloca a mão entre os peitos e sente o osso que fica no meio. Sentiu? Agora apalpa ele para saber onde ele começa e onde ele termina. Deu para ter uma noção? Ok, divide mentalmente esse osso em dois: parte de cima e parte de baixo. Para fazer massagem cardíaca suas mãos tem que estar apoiadas da metade para baixo. Na pior das hipóteses, cutuque até achar o final do esterno e massageie dois ou três dedos ACIMA do final. Mas é para fazer isso AGORA, para aprender para sempre onde é o local certo, porque se deixar para aprender na hora da desgraça vai ser mais difícil e tempo é vida.

Você vai colocar apenas a palma da sua mão na metade inferior do osso esterno e é apenas a palma que vai fazer força. Os dedos devem ficar abertos sem tocar a parede do tórax. A palma da sua mão mais forte (geralmente é a direita) fica por baixo e a da mão mais fraca por cima da mão forte, de modo a fazer força com as duas mãos, uma por cima da outra. Entrelaçar os dedos da mão de cima na mão de baixo facilita o movimento. Só a palma faz força, nada de cravar dedinhos no tórax alheio. Treine. Excepcionalmente, em crianças deve ser usada apenas uma das mãos e com menos força e no caso de bebês apenas dois dedos.

Depois de posicionar uma mão sobre a outra, você vai pressionar e soltar. O ideal é que você realize a pressão mantendo seus braços esticados, assim consegue mais força. Dica: evite fazer toda a força com o braço, pois é muito cansativo, tente jogar a força com o peso do seu corpo. Não é qualquer compressão, a compressão tem que ser suficiente para que o esterno abaixe em torno de 5cm, comprimindo o coração em direção à coluna vertebral. Meça com uma régua quanto é 5cm. É para colar o peito da vítima nas costas, é coisa pra caralho! Tem que comprimir COM FORÇA e com rapidez. Não é aquela compressão lenga-lenga de seriado médico. A força é tanta que dependendo da idade e da resistência óssea da pessoa a RCP pode causar até fratura nas costelas. Michael Jackson chegou com várias costelas quebradas ao hospital.

A frequência deve corresponder a NO MÍNIMO CEM COMPRESSÕES POR MINUTO, ou seja, mais de uma por segundo. É determinante que sejam pelo menos cem compressões por minutos para minimizar danos, então foco: conte em voz alta e tente minimizar o tempo de interrupção para aplicar a respiração. Tudo tem que ser absurdamente rápido. Curiosidade: o início do ritmo da música “Staying Alive” (Bee Gees) é o ritmo ideal. Escute e foque na batida. Se puder, bata com os dedos ou as mãos na mesa no ritmo da batida, ajuda a memorizar o tempo correto. É mais rápido do que parece. Contar em voz alta pode ajudar a manter o ritmo e a não se perder no numero de repetições. Lembre-se de duas palavras: comprima FORTE e RÁPIDO.

Sabemos que além da compressão é preciso fazer a respiração boca a boca, porque o sangue que você está fazendo circular tem que estar oxigenado para garantir que o cérebro continue vivo. O ideal é que você alterne 30 compressões para cada 2 respirações, tentando fechar um total de cem compressões por minuto. Caso você tenha alguém para te ajudar, tudo fica mais ágil, pois cada pessoa fica com uma tarefa. Hoje a orientação é que se chegue já fazendo as 30 compressões e só depois dela se desobstrua vias aéreas e se faça a respiração, então nem pense: parta para as 30 compressões, depois você pensa na respiração.

Se tudo der certo, você vai fazer com que sangue oxigenado circule pelo corpo da pessoa, mantendo-a viva e mantendo seu cérebro saudável, até a chegada de socorro especializado (choquinho, falaremos disso outro dia). Mas não se engane, aquilo ali é um quebra-galho muito do furreca. Um coração funcionando em RCP bombeia menos de 30% da sua capacidade normal, é apenas o necessário para a pessoa não ficar Timmy. Não vai achando que é grandes merda.

Como é um procedimento exaustivo, não é todo mundo que aguenta até a chegada do socorro. Já vi uma pessoa ter uma parada cardíaca porque estava exausta por socorrer outra pessoa com uma parada cardíaca. Aqui está sua obrigação legal: só parar quando o socorro chegar OU quando os batimentos cardíacos da vítima retornarem OU se você estiver em um grau de exaustão que realmente não consiga fazer mais nada. É isso que você vai dizer a quem te perguntar: que você chegou a um grau de exaustão que não conseguia mais nem sentir seus braços, seus braços não estavam respondendo ao seu comando. Leigos como eu e você não temos obrigação de começar uma RCP na rua ao ver alguém passando mal, mas uma vez começado, não pode parar por qualquer merda.

Não é raro que ocorram vômitos, já que uma compressão que afunde seu esterno 5cm não é nada leve. Se isso ocorrer, por favor vire a cabeça da vítima de lado e certifique-se que ela não se afogue no seu próprio vômito. No caso de crianças, tenha um cuidado especial: execute RCP por dois minutos antes de ligar para socorro, vai fazer diferença o tempo de um telefonema, e na hora de pressionar, o esterno deve ser comprimido por apenas 3cm.

Importante dizer que a Sociedade Brasileira de Cardiologia reconhece apenas a massagem cardíaca como uma ajuda recomendada para socorros prestados por leigos. Não recomendam que se realize respiração boca a boca porque neguinho já fez muita merda e acabou piorando a situação. Fica a critério de cada um. Se uma pessoa querida cair na minha frente sem batimento cardíaco e sem respirar, eu não vou ficar bombeando sangue sem oxigênio, até porque aprendemos no texto anterior que bastam seis minutos para que o cérebro morra por falta de oxigenação. Em certas ocasiões, ainda mais com o trânsito do Rio de Janeiro, o socorro pode demorar mais do que isso para chegar. Fica a critério de cada um fazer essa escolha.

Pode ser que no meio do processo o coração volte a bater. Se o nervosismo que toma conta do seu ser não te impedir de perceber isso e você constatar que de fato voltou a bater, pode parar com a massagem. Mas não saia de perto, pois da mesma forma que voltou, pode parar. E sabemos que em matéria de RCP um minuto pode fazer a diferença entre viver e morrer ou entre viver Flavio Silvino ou viver. Fique ao lado da pessoa até o socorro chegar. Aliás, nunca está demais dizer que se o socorro chegar no meio do processo você deve sair e deixar pessoas preparadas cuidarem da vítima. Sim, eu já vi gente que não queria sair. Sim, era amigo de Siago Tomir. Longa e desagradável história.

E eu não me esqueci dos pets. Já ensinei a fazer RCP em pets na outra postagem, aqui só quero detalhar: o número de compressões vai depender do peso do animal: até 4kg – 120 compressões por minuto, entre 5 e 26kg – 80 a 100 compressões e acima de 27kg – 60 compressões. Não se esqueça de fazer respiração boca a focinho, na mesma frequência de humanos: 30 compressões para duas respirações.

A série Desfavor Explica Primeiros Socorros não acaba aqui, está só começando.

Para dizer que vai sair massageando o peito de qualquer mulher que estiver caída na rua e dizer que fui eu que mandei, para dizer que voltar em três dias é para os fracos, os fortes trazem a pessoa amada de volta em três minutos ou ainda para destilar toda sua ignorância e evitar falar sobre RCP porque “falar nessas coisas atrai” : sally@desfavor.com


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