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Flertando com o desastre: Histeria Punitiva.

| Sally | | 33 comentários em Flertando com o desastre: Histeria Punitiva.

Matar o assassino? É... faz todo o sentido mesmo.Quando aparece um caso sórdido cheio de detalhes macabros como este envolvendo o goleiro Bruno, os imbecilóides de plantão saem da toca e começam com sua pregação (geralmente aos berros e se achando cobertos de razão) através de um discurso que reflete uma histeria punitiva hipócrita. Isso sempre me revoltou e sempre comprei briga com esse tipo de gente, que infelizmente é maioria aqui no Brasil. Então, me pareceu a oportunidade ideal para escrever este Flertando com o Desastre. Talião meu ovo, seus filhos da puta, nada mais medíocre que a reciprocidade.

Ninguém aqui está negando que o crime foi bárbaro, cruel, covarde, medonho, doentio e qualquer outro adjetivo negativos que vocês queiram enquadrar. Justamente por estas características, quem perpetrou estes crimes é um monstro, um escroto, um desajustado e etc que deve ser isolado do convívio social.

Porém, gostaria de lembrar que qualquer pessoa que pratique este tipo de conduta é um monstro, um escroto, um desajustado e etc. O autor do crime ou quem pretende punir ou vingar o crime na mesma moeda. Então, antes de sair falando que tem que matar, que tem que cortar a mão, que tem que picar e dar para o cachorro comer, pense se você não está se tornando um equivalente daquilo que tanto repudia.

“Mas Sally, se fizessem isso com a sua filha você não ia querer fazer o mesmo?”. Odeio esse argumento, é uma das coisas mais medíocres que já escutei. Já apresentei meu contra-argumento no Flertando com o Desastre sobre transsexuais e repito aqui: a justiça não deve ser feita com base no sentimento da vítima, com base em revanchismo. Evidente que se fosse com uma pessoa querida eu iria querer que façam a mesma coisa com o criminoso, mas não é assim que a justiça tem que atuar.

Eu entendo que as pessoas próximas à vítima tenham esse desejo de fazer mal aos criminosos. Acho normal. Acho esperado e aceitável. Agora o que eu não entendo é essa massa burra que nem conhecia a moça e que provavelmente seriam os primeiros a meter o malho nela se estivesse viva, sentindo tanta revolta e transformando essa revolta em violência. Porque tanta revolta virando agressividade?

Cheguei a uma conclusão muito triste: o brasileiro não sabe se indignar. Não tem essa sofisticação. O lance é sentir raiva mesmo, querer matar, querer bater, querer que a pessoa se foda toda com platéia assistindo. Brasileiro não fica indignado, fica puto e quer resolver na reciprocidade: fez merda? Faz a mesma merda com ele! Parece que para provar que está indignado de verdade tem que esboçar uma reação desproporcional, destemperada e violenta.

No fundo, no fundo, o que pessoas que pregam a Lei de Talião querem é justamente uma manutenção desse circo sádico. Teve derramamento de sangue? Cortaram a menina e deram para cachorro comer? É pouco! O sangue atiçou a população! Agora eles querem mais, eles querem que Bruno e seus amigos-alimento também sejam torturados, picotados e mortos. O povo quer mesmo é ver mais sangue, mais morte, mais violência. Manutenção do sadismo.

Se torturar e matar causasse mesmo tanta repulsa naqueles que pregam a Lei de Talião, eles não teriam coragem de opinar que se faça o mesmo com os criminosos. Se alguém estupra sua filha, você sente vontade de estuprar o criminoso de volta?

Esse povo histérico não quer justiça, quer mais circo, quer a barbárie, quer descontar todas as frustrações e injustiças que sofre ou sofreu naquele criminoso em particular. O criminoso passa a simbolizar tudo de ruim e deve ser eliminado com requintes de crueldade. E duvido que isso mude. Cadê que esse povo bunda senta em um divã? Nunca! Psicanálise é coisa para maluco, afinal “se for para conversar com alguém sobre os meus problemas, eu converso com meus amigos em uma mesa de bar, que é de graça”. E essas porras 1) tem filhos e 2) votam, o que acaba 1) aumentando a quantidade dessas porras no mundo e 2) colocando porras parecidas com eles no poder.

Essa fala fácil e medíocre de “tem que fazer o mesmo com ele!” não deixa espaço nem mesmo para reflexão e debate. Porque quando você tenta ponderar como isso pode ser incorreto, os imbecilóides de plantão se voltam contra você dizendo que você está defendendo bandido, te colocando como um falso vilão na história. “Se não concorda comigo é porque necessariamente está defendendo o bandido”. Impossível argumentar com pessoas assim.

Bandido não pode ter direitos humanos, não é mesmo? Porque a vítima não teve direito aos direitos humanos. Dá licença que eu vou vomitar e já volto. O que essas pessoas esquecem é que a vítima estava nas mãos de BANDIDOS, por isso foi privada de seus direitos humanos, enquanto que o criminoso está nas mãos do ESTADO. No dia em que o Estado passar a tratar seus membros como um bandido trata sua vítima, eu saio do país. Desejar que o tratamento que o Estado dá aos seus seja similar ao tratamento que um bandido da à vítima é desejar um retrocesso. A gente conhece um Estado pelo tratamento que ele dá aos “inimigos”.

Este discurso histérico é fácil e superficial e é típico de pessoas que não sabem lidar com seus sentimentos, pessoas ressentidas e cheias de mágoa que acreditam que as melhores soluções são sempre as mais radicais: eliminar, matar, torturar, destruir. Quanto pior o tratamento dado ao criminoso, maior seria a “justiça” feita. Porque eles não tem preparo para perceber que a vida nem sempre é justa e que isso está fora do nosso controle. Transformam a revolta, que pode ser canalizada para coisas positivas, em algo nocivo, negativo e destrutivo. Acabam por criar um círculo vicioso que prejudica a toda a sociedade.

Vejamos, será que interessa de fato à sociedade que o Estado não dê direitos humanos aos bandidos? O mesmo preso que passa anos em condições desumanas, sendo torturado, humilhado e privado da sua dignidade, é o preso que vai ser posto na rua em um futuro, pois não existe prisão perpétua no Brasil. É essa a pessoa que você quer de volta às ruas, para pegar ônibus com o seu filho ou para sentar do lado da sua filha em uma mesa de lanchonete? Uma pessoa brutalizada, revoltada e destruída, que não tem mais nada a perder? Não seria melhor para a sociedade se essa pessoa saísse melhor do que entrou? Ok, se você não acredita que possa sair melhor, ao menos que não saia pior do que entrou?

“Mas Sally, vocês são os primeiros a não ter coração, a rir dos outros quando eles se fodem e ainda achar bem feito, e agora você vem pregar direitos humanos?”. Sim, isso aí. Quando a pessoa se fode POR MÉRITO PRÓPRIO, sem intervenção de outro ser humano torturando, a gente acha engraçado pra caralho. Foi escalar uma montanha no meio de uma nevasca e virou picolé? A gente não lamenta! Quem mandou? Foi nadar com um carnívoro de seis toneladas e foi mastigada? Quem mandou? Não é tortura. São conseqüências normais da escolha de vida da pessoa. A gente nunca pregou assassinato e tortura aqui – e nem vai.

Também não estamos pregando que os culpados não sofram as conseqüências de seus atos. Ocorre que, quando se opta por viver em um Estado Democrático de Direito, a punição é monopólio do Estado e este deve observar uma série de garantias fundamentais que resguardem a dignidade da pessoa humana para aplicá-la. Eu opto por viver em um Estado Democrático de Direito, por isso acredito que eles devem ser punidos conforme previsão legal.

Engraçado que os mesmos que cobram a aplicação da lei aos berros quando lhes convém são os primeiros a esquecer das leis quando estão revoltadinhos. É aquele tipo de pessoa que se sente no direito de escolher qual lei deve ser cumprida: só aquela que faz sentido na cabeça da pessoa. Cobra tudo que a lei lhe dá de direito, mas quer afastar qualquer garantia conferida pela lei ao preso.

“Mas Sally, a lei é uma merda, a pessoa nunca passa muito tempo presa, a lei foi feita para beneficiar bandido!”. Não é verdade. Opiniões de formam estudando e não lendo revista e vendo TV. Estude a fundo a lei e só depois pense em criticar. E se você não está satisfeito com a lei, existem diversos mecanismos para modificá-la por iniciativa popular. Mexa-se, arregace as mangas e lute por um país melhor. Em vez de ficar de braços cruzados pregando a desobediência de uma lei porque você não concorda com ela, tenha atitude e faça o necessário para que essa lei seja modificada e fique mais justa.

Mas esta histeria punitiva encontra um limite com muita freqüência: quando, de alguma forma, direta ou indireta, a punição chega ao autor. Basta ter um filho, um primo, um amigo ou qualquer pessoa próxima na condição de réu que o discurso muda rapidinho. Somir fica dizendo que Deus não existe… Tolinho. Deus existe sim – e é sádico.

Vendo essa massa enfurecida pregando todo tipo de pena corporal e tortura contra o goleiro Bruno e seus amigos-alimento eu fico pensando onde estão os ditames religiosos destas pessoas. Garanto que a esmagadora maioria das pessoas que fala essas barbaridades tem religião. E quase todas as religiões pregam o perdão e a compaixão. E aí? Vai abrir mão da religião ou vai se assumir hipócrita? Não adianta ir à missa e ficar rezando para o seu Deus e ao mesmo tempo ficar dizendo essas barbaridades por aí, cultivando esse sentimento revanchista, vingativo e violento.

Porque será que as pessoas não podem elaborar o choque de uma barbárie dessas sem ter que apelar para o desejo por outra barbárie? Porque as pessoas são tão medíocres de achar que a reciprocidade é sinônimo de justiça e sempre se justifica?

Gente que prega o troco na mesma moeda está mais próxima de bicho do que de gente. São pessoas emocionalmente aleijadas que não sabem lidar com um sentimento de revolta e projetam frustrações pessoais e medos naquele autor do crime, que vira um símbolo de tudo que não presta. Não basta prender, não basta afastar do convívio social, tem que satisfazer a porção sádica da prole, tem que torturar, arrebentar.

“Mas Sally, pelo menos se torturar bastante, os outros bandidos vão pensar duas vezes antes de fazer uma merda assim porque vão ficar com medo”. Estude criminologia. O maior índice de reincidência criminal ocorre em prisões que não respeitam os direitos humanos. É comprovado que o que faz com que as pessoas pensem duas vezes antes de cometer um crime é a probabilidade que elas acham que tem de serem pegas, e não o tamanho ou a qualidade da pena. Países que asseguram uma prisão com dignidade tem índices de criminalidade e reincidência muito menores.

Caso você seja um dos analfabetos funcionais que batem ponto por aqui, não custa dizer o que já está mais do que claro: EU NÃO ESTOU DEFENDENDO O BRUNO NEM APROVO O QUE ELE FEZ, EU ACHO QUE ELE DEVE SER PUNIDO. Porém não acho que nada nessa vida justifique violar alguns direitos fundamentais como os direitos humanos. E acho que é perfeitamente possível que a pessoa compreenda o erro que cometeu e vire uma pessoa melhor sem precisar ser submetida ao mesmo tratamento que deu à vítima.

Provavelmente a pessoa que defende a Lei de Talião é tão tosca que só é capaz de mensurar seus erros quando fazem de volta com ela na mesma moeda, daí, em uma crise de Universo Umbigo, fica achando que o mundo todo funciona assim e só vai entender o mal que causou se sofrer o mesmo tratamento das pessoas que vitimou.

Então, pensem duas vezes antes de defender punição corporal, tortura, pena de morte e prisão perpétua, pois isso depõe muito contra você. Se quer mesmo sustentar este ponto de vista, então faça-o com coerência: abandone sua religião e pare de cobrar os direitos que lei te confere, pois quem quer privar os demais de seus direitos tem que estar pronto para ser privado também. Ah sim, se Deus existe, é certo que ele te odeia. Certeza.

OBS: NOTA DE ÚLTIMA HORA – 15/07/2010 – 11:30h. Um passarinho me contou que Bruno não matou a moça por questões de pensão ou do filho, que nem se sabe se é dele. Parece que teve relação com uma certa chantagem que ela andava fazendo, ameaçando de contar certas coisas que ele andou fazendo, que podem ser consideradas meio gays. Assim que tiver mais certeza do que estou falando jogo toda a merda aqui no ventilador com o maior prazer. beijosmeprocessa.

Para dizer que nada de bom vem do Flamengo, para dizer que sua religião admite tortura e assassinato e para dizer que odeia mais ainda o goleiro do Flamengo porque hoje era dia de Processa Eu e por causa do filho da puta do Bruno teve essa coluna escrota no lugar: sally@desfavor.com


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