Não Processa Eu!: Alborghetti
| Sally | Processa Eu! | 12 comentários em Não Processa Eu!: Alborghetti
Desfavor está em luto. Morreu hoje, dia 09 de dezembro de 2009 um ídolo do desfavor. Conhecido como “Mestre”, “Mestre Dalborgha”, “Alborga” ou “Charles Dal” morre Luiz Carlos Alborghetti.
Sim, Alborghetti era um exemplo para nós (daí vocês avaliam o nível do blog…).
Eu poderia dizer que ele faleceu, nas isso não seria Alborghetti Way of Life. Ele morreu mesmo. Morreu da forma tosca como viveu: de câncer no pulmão, por total desídia com sua saúde, como bom fumante que era. Alborga morre aos 64 anos de idade deixando uma esposa e filha.
Nascido em Curitiba, em 12 de fevereiro de 1945, iniciou sua carreira em um programa de rádio chamado “Cadeia”, embrião do futuro programa de televisão que se tornaria um dos melhores já vistos na TV nacional. Dificilmente veremos um programa melhor que este (a menos que coloquem o Pilha para apresentar alguma coisa).
Seu talento e carisma não demoraram a chamar a atenção. Apenas três anos depois Alborga foi chamado para apresentar um programa de televisão, também chamado “Cadeia”. Inicialmente, seria transmitido apenas em Londrina, mas o sucesso foi tanto que passou a ser transmitido para todo o Paraná.
Sua sabedoria, sutileza e equilíbrio emocional fizeram com que, no mesmo ano, fosse eleito vereador. Dois anos depois foi eleito deputado estadual. Tá chocado, leitor? Foi reeleito depois disso. Ao assistir aos vídeos do nosso querido Alborga, tenham em mente que ele foi vereador por cinco anos, deputado estadual por 16 anos e apresentador por 30.
Seu brilhantismo o alçou ao posto de estrela nacional. Em 1992 lançou o programa “Cadeia Nacional”, que era o bom e velho “Cadeia” só que transmitido para todo o Brasil. Ele foi o pai dos programas policiais que vemos hoje em dia. Sim, Querido Leitor, se você se delicia vendo Wagner Sem Perna Montes fazendo a dança do capiroto e falando do kit bonequinha, pode agradecer ao nosso querido ídolo Alborghetti. Nós do desfavor crescemos vendo “Cadeia”, isso diz muito sobre como o programa era uma boa influência.
O programa era tipo um “Chaves” do jornalismo: sem a menor infraestrutura, tosco e mal feito, mas de tão ruim, TÃO RUIM, chegava a ser bom. E você via que o Alborga não fazia tipo não, era de coração tudo que ele falava. Chegamos a um ponto que é tão raro encontrar uma pessoa autêntica que perdoamos tudo em nome de um descanso da hipocrisia ordinária que nos cerca. Alborga era verdadeiro.
Alborghetti apresentava o programa sentado em uma bancada, talvez para transmitir um ar mais jornalístico. Estava sempre com os (poucos) cabelos desgrenhados, suando feito um porco e com uma toalha enrolada no pescoço, que utilizava de tempos em tempos para secar o suor. Os dentes do Alborga eram algo indescritível. Acavalado não basta, teriam que inventar um novo termo para definir sua dentição. Também usava uns óculos para leitura (que colocava na ponta do nariz) e uma bic com a tampa mastigada em uma das mãos.
Na outra mão… ahhh… a outra mão. Ela mereceu um parágrafo só para ela. Na outra mão ele segurava um porrete de madeira. Sim, um grande porrete! Ele usava o porrete inicialmente para bater na mesa da bancada, acredito eu que como forma de demonstrar sua indignação. Uma vez, inclusive, errou o golpe e quebrou seu aparelho de fax. Em outra, acertou o próprio dedo. Eu disse inicialmente, porque com o tempo ele também passou a usar o porrete para bater em um Câmera pelo qual desenvolveu uma antipatia ao longo dos programas.
Chegou a se afastar dos holofotes um tempo para concorrer ao cargo de deputado estadual. Ficou em indas e vindas. Dizem as más línguas que na verdade foi internado em uma instituição psiquiátrica, porque, como diz Rogério Skylab, perdeu a mediatriz. Isto nunca foi confirmado. Mas se fosse, nós do Desfavor gostaríamos ainda mais dele.
Alborga era um radical. Adepto da histeria punitiva, seu lema era “bandido bom é bandido morto” e dizia com todas as letras que tinha que mandar matar. Seu programa consistia em acompanhar episódios envolvendo crimes, sobretudo o momento da prisão do suposto autor do delito. Nessa hora ele se acabava. Quando apareciam as imagens do acusado ele se descontrolava: pegava o porrete, começava a bater freneticamente na mesa, com força e gritar “CADEEEIIAAAAAA! CADEEEIAAAA NELEEEE!”.
Junto com esta manifestação de entusiasmo, Alborga babava e suava. Não raro, seus perdigotos iam parar na lente da câmera. Era um momento sublime. E ele falava inúmeros palavrões no ar, em uma época onde não se via “merda” em novelinha global.
As frases do Alborghetti eram de uma finesse impagável. Ele costumava dizer que “Não tem que construir mais cadeias! Tem que construir mais cemitérios!”. E não eram só as frases, a entonação e a encenação que ele fazia eram impagáveis. Quando alguém tentava garantir um mínimo de dignidade aos acusados que estavam sendo detidos, ele se aproximava da câmera numa vibe meio Zagallo Vão Ter Que Me Engolir e dizia “Tá com penaaaaa dele? Leva pra tua caaaaasa! Põe pra dormir na tua caaaaama!” em puro tom de deboche. Depois repetia “Põe ele na tua camaaaa!” e fazia sinais corporais como quem beija outra pessoa deitadinho na cama.
Ele também se dirigia ao suposto meliante, como se este pudesse escutá-lo. Sabe homem quando xinga juiz em jogo de futebol? Mesmo esquema. Falava frases muito finas, do tipo “Vai sentar na tromba do elefante!” e ficava rindo da própria piada e repetindo-a em um tom de voz cada vez mais alto. Alborga era politicamente incorreto.
Tudo isso SEMPRE permeado por porretadas na mesa e gritos de “CADEEEIIIAAAA!”. Às vezes parecia que ele tinha se acalmado, já estava até conversando normalmente sobre outro assunto, quando de repente, subia toda uma revolta no Alborga e ele pegava o porrete e recomeçava a bater compuslivamente na mesa gritando mais uma vez: “CADEEEEIIAAAA!”
Muito se engana quem pensa que Alborghetti era um bravateiro marketeiro. Alborga esculhambava com democracia. Metia o pau com a mesma finesse em ladrão de galinha e em chefão do tráfico, o que lhe rendeu inúmeras ameaças de morte.
Em uma reportagem sobre o tráfico no Rio de Janeiro, chamou o Comando Vermelho de “bando de bichas” e em outra sobre o PCC, chamou o Marcola de “bundeiro, dador de bunda”. Desfavor amou a ofensa “bundeiro, dador de bunda” e pretende divulgá-la amplamente.
Alborghetti não ficava só nas palavras. Atuou diversas vezes em prol do que ele acreditava ser uma sociedade melhor. O limite de páginas não me permite citar a obra do Alborga, vou citar apenas um exemplo: ingressou com procedimento junto ao Ministério Público que acabou por impedir que a banda Planet Hemp fizesse um show no Paraná, alegando que a banda fazia apologia às drogas.
Como sempre, quando aparece uma pessoa de bem, uma pessoa sensata, que não se curva à hipocrisia social, ela acaba tendo sua voz calada. Quando apresenrava seu programa “Cadeia Nacional”, um belo dia Alborga achou bacana berrar “Esse governador de São Paulo, Fleury, é um bundão!” Sim, ele chamou o governador do estado de São Paulo na época, Luiz Antônio Fleury Filho de bundão. Não deu outra, foi afastado de uma hora para a outra. Para cobrir o buraco, a emissora colocou em seu lugar um repórter que trabalhava com ele nas cenas externas do jornalismo (cof! cof!) investigativo: Carlos Massa. Nascia o Ratinho.
A gente gostava tanto do Alborga que vibrava e batia palmas até quando ele falavra bordões que não entendiamos. O que merda quer dizer “Eu não fui desmamado com garapa!”? ou ainda “O fulano peidou pra muzenga!” Não importa. Temos certeza de que ele tinha razão, não importa o contexto! Além do que, entre uma frase e outra ele pegava o porrete e ficava batendo sem parar na mesa e berrando. A gente se acabava. Somir inclusive tem uma foto dos tempos que brincava de Alborghetti. Porque você, Caro Leitor, pode ter brincado de ser Super-Herói, de ser um lutador famoso ou de ser astronauta. A gente brincava de ser Alborghetti. Eu vi a foto: Somir novinho, com uma toalha enrolada no pescoço, os óculos da irmã, em uma mesa improvisada, com um porrete na mão gritando. Quão reprovável é dizer que passei a gostar mais dele depois de ver essa foto?
Mesmo depois de afastado da TV em função de censura política covarde, Alborghetti continuou deixando pérolas em seus programas de rádio. O limite de páginas também me impede de listá-las, então, vou falar de uma que ficou famosa: ele comentando o Filme “300 de Esparta”. Alborga confundiu o filme mais do que Wanusa confundiu a letra do hino nacional, além disso ficou chamando o personagem Xerxes de “Xanxas” e o Leonidas de “Nicolau”. A gente quase chora de emoção ao lembrar de tantos bons momentos proporcionados pelo Alborga.
Quando ele se despedia mandando “um beijo na sua alma!” dava até uma tristeza do programa ter acabado. Aquele olhar psicopático do Alborga alegrava nossos dias. Quem mais teria coragem de detonar pastores evangélicos sem medir palavras? Quem mais teria coragem de desafiar chefes do tráfico? Quem mais tem coragem de comemorar a morte de outro ser humano batendo palmas e gritando “FOI PRO COLO DO CAPETA! QUE ALEGRIA!”? Quem mais fica xingando Ets e ameaçando enfiar a porrada neles? Quem mais faz vídeos ensinando a matar outros seres humanos? Não tem dois, Alborghetti foi único.
“Mas Sally, você trabalha com isso, você não acha execrável que ele fizesse apologia ao desrespeito aos direitos humanos?”. Não, Querido Leitor. Muito pelo contrário. É um favor que ele me fez. Pelo Alborga a gente percebe e nivela qual é o tipo de pessoa que prega esse tipo de coisa.
Desfavor lamenta profundamente que Alborga tenha morrido. Ele era nosso favorito para ocupar o posto de Vice na candidatura do Rafael Pilha à Presidência da República.
BEIJOS NA SUA ALMA, ALBORGA!
Para dizer que agora entende porque somos como somos, para dizer que também ama Alborga em segredo e para deixar sua homenagem: sally@desfavor.com
Fico imaginando o que o Alborghetti diria DISSO.
Me cagando de orgulho do PARANÁ!
Só conheci o Alborgha agora, graças ao DESFAVOR. Muito obrigada por esse acréscimo de cultura populacho !
Faremos, Deja, faremos.
véio este cara tinha corpo fechado, era o cão na oposição, muito bom mesmo a expressao dedo na ferida e pouco o cara era agulha na ferida mesmo sem papas na lingua, falava e falava sem sensura e frescura.good bless you
Gil Gomes e o Homem do Sapato Branco juntos não valem um Alborga.
Datena, Ratinho, Bilberto Garros (esse o pior de todos, pena que não possa falar o porquê), esses são todos uns bostinhas.
Suellen
CAAADEEEIIIAAAAAAAAAAA!
Reaça pride! Morte aos comunistas!
Alborga, você foi o Rei Nicolau que lutou contra os Xanxas politicamente corretos. Quando eu for eleito ditador do mundo, você terá uma estátua gigante construída na cratera resultante da explosão do Congresso Nacional!
nunca tinha ouvido falar nesse cara , sinceramente… ele que vá pro colo do capeta
Quando eu falecer, façam um "Não Processa eu" sobre o Deja.
Faz favor.
Já fizemos um Não Processa Eu com o Pilha, agora fizemos um com o Alborga.
O problema de alternar seria que existem poucas pessoas que admiramos. No geral, a gente detesta e esculhamba 99% da população mundial (inclusive nós mesmos, vide a coluna Eu, Desfavor)
Mas de vez em quando a gente vai fazer uns Não Processa Eu!
Eu gostei do Não Processa! Taí, vcs podiam alternar postagens falando bem dos seus ídolos, em vez de meter só o pau. Já não se fazem mais Alborgas como antigamente… Hoje em dia tem as bizarrices do Datena que não tão com nada e só impressionam os manés de mente fraca.
Gente meu ex me "apresentou" a ele.. Nossa AMO ESSE CARA! Queria ter a coragem que ele teve pra falar tudo oq ele falava! Amo ele ABERTAMENTE e eternamente.
Desfavor é cultura.
Gostei!Ele eu nunca vi na tv, mas antigamente adora assistir ratinho.
Quando ele ainda falava tchaca tchaca na butchaca, ou algo assim.